ITANGRA - Para falar do Masculino
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Houve um comentário bastante interessante sobre a construção das minhas personagens. Tradicionalmente, minhas personagens femininas costumam surgir com uma presença muito forte: são mulheres marcantes, complexas, místicas, dotadas de grande força interior e, muitas vezes, conectadas ao simbólico e ao invisível. E o comentário foi no sentido inverso, vejam:
“Uma coisa que gostei muito em ITANGRA foi o Louis. É um personagem masculino tão humano, sensível e cheio de nuances. Por vezes, fiquei mais concentrada no romance entre ele e Itangra do que na própria história das bruxas! Louis não é aquele herói perfeito e invencível… ele sente, erra, se transforma e aprende com as relações. E isso deixou o romance ainda mais envolvente para mim.”
Nesse sentido, foi muito significativo ouvir que Louis Vilac de Montmorency representa um personagem masculino com características próprias, uma personalidade profundamente humana e uma trajetória psicológica construída no valor das interações humanas.
Nesse aspecto, Louis aproxima-se de uma concepção mais particular de um herói existencial, não romântico necessariamnte: não o homem que transforma o mundo pela força, mas aquele que transforma o mundo porque primeiro permitiu que o amor transformasse a si mesmo.
É exatamente esse Louis que o leitor encontra nas páginas de ITANGRA – O Segundo Véu das Lobas. O trecho que apresento a seguir corresponde ao primeiro encontro entre Louis e Itangra. É ali que sua mais importante jornada começa.
Não apenas a aventura exterior, mas a transformação interior que fará dele um homem capaz de descobrir que o maior retorno de todos não é a um reino, mas àquilo que sempre buscamos, consciente ou inconscientemente: um lugar onde possamos finalmente chamar de lar.
Depois desse trecho faço uma análise com outros personagens masculinos da literatura mundial.
TRECHO DO LIVRO: ITANGRA- O Segundo Véu das Lobas
O lugar estava silencioso.
Alguns cavalos dormiam ou mastigavam lentamente a ração sob a penumbra das lanternas penduradas nas vigas. O cheiro de palha úmida, couro e terra revolvida impregnava o ar.
Foi então que ela o viu.
Um cavalo isolado dos demais.
Mais alto.
Mais forte.
Havia nele uma imponência difícil de ignorar, mesmo parado. A pelagem escura reluzia fracamente sob a luz trêmula das lanternas, e o animal mantinha uma calma quase orgulhosa.
Itangra aproximou-se devagar.
O cavalo observou-a sem nervosismo, como se já a esperasse.
Ela sorriu discretamente.
— Você é lindo...
Retirou algumas cenouras de uma cesta elevada e agachou-se diante do animal, oferecendo-as na palma da mão. O cavalo aceitou sem hesitação, soprando o ar quente pelas ventas enquanto mastigava lentamente.
Foi nesse instante que ouviu passos atrás de si.
A mão dela deslizou imediatamente para o punhal preso à perna sob as vestes.
Mas não sentiu ameaça.
Apenas curiosidade.
Então veio a voz masculina forte, mais calma e ligeiramente sonolenta:
— Um cavalo portentoso e belo, não lhe parece, moça? — avaliou o homem sem maiores pretensões.
Itangra não se virou de imediato.
— O dono deve se sentir orgulhoso — afirmou com um sorriso imperceptível.
Itangra apenas lançou um olhar de soslaio por sobre o ombro.
E viu um homem parado à entrada do estábulo.
Usava apenas um camisolão amarrotado, como alguém que acabara de abandonar a cama por impulso ou inquietação. Trazia uma caneca de vinho numa das mãos, e os cabelos desalinhados reforçavam ainda mais a aparência de quem vagava sem intenção definida pela madrugada.
Apesar disso, havia algo nele que contrariava a desordem das vestes e de seu momento.
Postura. Presença.
Os olhos atentos demais para um homem meio adormecido.
Itangra voltou a atenção ao cavalo.
— Não é apenas belo — respondeu calmamente. — É inteligente.
O homem aproximou-se alguns passos.
— Isso costuma ser elogio perigoso entre cavalos e pessoas.
Ela soltou um pequeno sorriso.
— Só para aqueles que preferem companhia obediente — retrucou de forma precisa.
Ele ergueu levemente a caneca, divertido.
— Então imagino que esse animal tenha encontrado a admiradora perfeita.
Itangra levantou-se lentamente.
Ao fazê-lo, a luz da lua tocou-lhe o rosto de perfil, descendo pela linha do pescoço e dos cabelos escuros presos por uma touca branca. Alta, imóvel e envolta pela penumbra azulada do estábulo, parecia menos uma mulher comum do que alguma visão surgida entre os sonhos e a noite.
O homem estacou.
O vinho quase lhe escapou da mão.
Por um instante, ficou simplesmente olhando-a, incapaz de ocultar o sobressalto provocado não apenas pela beleza dela, com seus olhos amendoados, mas pela estranha impressão de presença que emanava da feiticeira. Como se a realidade houvesse mudado discretamente de forma ao redor daquela mulher.
Então murmurou, meio incrédulo:
— Estou sonhando?
Itangra voltou os olhos para ele.
E um leve sorriso atravessou-lhe os lábios.
— Todos estamos...
A resposta veio tranquila, quase melancólica.
O homem soltou uma breve risada nervosa, ainda tentando recuperar o domínio sobre si mesmo.
— Se for assim, espero não acordar tão cedo.
Itangra ignorou o comentário e afagou o pescoço do cavalo.
— Espero ao menos que o dono desta criatura possua o mesmo juízo que ela.
O homem arqueou uma sobrancelha.
— E o que exatamente o cavalo fez para merecer tamanho elogio?
— Observou primeiro. Aproximou-se sem violência. E não tentou mostrar importância apenas porque possui força ou tenha algum título, que é mais título do que uma boa educação.
Ele bebeu um gole do vinho antes de responder:
— Então receio decepcioná-la. Nenhum homem consegue competir honestamente com um cavalo nessas qualidades.
Ela soltou uma pequena risada pelo nariz.
Discreta. Quase involuntária.
O homem percebeu aquilo imediatamente, como uma vitória inesperada.
— Ah... então a moça também sabe rir. Isso melhora muito minhas chances de sobrevivência nesta conversa.
Itangra cruzou os braços.
— Depende. Ainda não decidi se o dono do cavalo é inteligente... ou apenas bem vestido para alguém que saiu da cama embriagado.
— Como sabe que sou o dono do cavalo? — Indagou confuso e surpreso.
Ela respondeu sem afetação.
— Ele não reagiu a você!
— Ah...
Depois ele olhou para o próprio camisolão amarrotado e abriu os braços teatralmente.
— Não importa. Já começou a destruir minha reputação antes mesmo de saber meu nome.
— Reputações frágeis costumam ruir facilmente.
Os olhos dele brilharam de divertimento verdadeiro agora.
— E as perigosas?
Itangra sustentou-lhe o olhar por um breve instante.
— Essas sobrevivem até quando deveriam morrer.
O homem ouviu aquelas palavras com atenção incomum, girando lentamente a caneca entre os dedos.
Depois assentiu com certa distinção, como alguém habituado a conversas mais profundas do que o ambiente simples do estábulo faria supor.
— Concordo quanto às reputações perigosas — disse. — São justamente as que deixam marcas no mundo da pior maneira.
Apoiou-se numa das vigas de madeira e continuou, agora mais reflexivo:
— Mas desconfio também das personalidades excessivamente corretas. Das rígidas. Das que jamais se desviam um passo sequer do que esperam delas.
Itangra observou-o em silêncio.
Ele ergueu levemente os ombros.
— As irreverentes talvez sejam as melhores.
A feiticeira arqueou as sobrancelhas, convidando-o a prosseguir. Pois de irreverência ela entendia.
— Porque criam possibilidades — explicou. — Mundos menos fixos. Menos sufocados por certezas mortas. E também tornam os seres mais respeitáveis entre si... justamente porque deixam espaço para o inesperado.
A luz da lua atravessava parcialmente o estábulo, desenhando sombras compridas entre eles enquanto falava.
— Quem é totalmente previsível acaba se tornando apenas uma função. Uma peça. Um hábito ambulante.
Tomou outro gole de vinho.
— Já os irreverentes... nunca pertencem inteiramente a lugar algum. E isso assusta um pouco.
Sorriu com charme.
— Talvez porque sempre exista neles algo que beira a inocência... e algo que beira o perigo.
Itangra sustentou-lhe o olhar por alguns instantes.
O vento atravessou lentamente as frestas do estábulo, movendo alguns fios do cabelo escuro dela, tentando talvez tirá-los talvez da touca.
— Então conhece bem esse tipo de criatura — observou.
Ele riu baixo.
— Conheço o suficiente para evitá-las quando tenho juízo.
— E quando não tem?
— Converso com elas durante a madrugada.
Pela primeira vez, Itangra sorriu de maneira mais aberta.
Não muito.
Mas o bastante para fazer o homem esquecer o vinho, a noite e até o motivo de ter deixado a cama.
Ele permaneceu alguns instantes em silêncio após o sorriso dela, como se ponderasse algo.
Então ergueu novamente a caneca.
— Embora existam situações ainda mais comprometedoras e sinistras nesse sentido... a ponto de me considerar um pobre coitado.
— Dos tipos irreverentes?
— Sim...
Itangra o olhou com suspeita.
— Quais?
O homem suspirou teatralmente.
— Diante do espelho.
Ela soltou uma risada sem mais conter.
— E o que acontece diante dele?
— Quase sempre sou rebaixado a simples soldado raso.
— Então o espelho possui rara lucidez.
— Crueldade, isso sim.
— São parentes próximos.
Ele riu baixo, observando-a com crescente curiosidade a mulher a sua frente.
Conversaram ainda por alguns instantes. Sobre cavalos, sobre noites insones, sobre estradas ruins e pessoas que falavam demais para esconder o vazio. Havia entre ambos uma leveza estranha, como se a madrugada tivesse suspendido temporariamente o peso comum do mundo.
ANÁLISE COM OUTROS PERSONAGENS MASCULINOS.
Há nele algo de Aragorn, de O Senhor dos Anéis: ambos possuem origem nobre, vivem um período de exílio e precisam provar seu valor não pelo sangue, mas pelas escolhas. Contudo, Aragorn é um personagem de retorno ao destino que sempre lhe pertenceu. Sua grande vitória consiste em aceitar a coroa e restaurar um reino. Louis, ao contrário, não retorna a um destino previamente traçado; ele constrói lentamente aquilo que nunca possuíra. Sua grande conquista não é um trono, mas um lar.
Também é possível reconhecer ecos do Sr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Como Darcy, Louis é reservado, demonstra seus sentimentos mais pelas atitudes do que pelas palavras e aprende, pouco a pouco, que a verdadeira força também exige vulnerabilidade. Existe um momento particularmente significativo quando ele reconhece que falhou com Étienne. Em vez de justificar suas escolhas, assume sua responsabilidade. Essa capacidade de admitir as próprias limitações o aproxima dos grandes personagens psicológicos da literatura.
Sua honra também recorda os heróis de Alexandre Dumas. Assim como Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan, Louis acredita na lealdade, na amizade e no compromisso com aqueles que ama. Mas ele pertence a outra etapa do arquétipo masculino. Enquanto os mosqueteiros representam a exuberância da juventude, dos duelos e da aventura, Louis já conhece o peso das perdas, das escolhas irreversíveis e da fragilidade da existência. Sua pergunta já não é "Como vencer?", mas "Como proteger aquilo que realmente importa?".
Há ainda uma aproximação com Edmond Dantès, de O Conde de Monte Cristo. Ambos enfrentam perseguições, injustiças e inimigos poderosos. Ambos sobrevivem graças à inteligência e à estratégia. No entanto, seus caminhos se separam profundamente. Dantès transforma sua dor em vingança. Louis transforma a dor em responsabilidade. Enquanto um reconstrói sua identidade para acertar contas com o passado, o outro reconstrói sua vida para oferecer um futuro àqueles que ama.
Também reconheço certa afinidade com Jean Valjean, de Os Miseráveis. Ambos descobrem que a verdadeira grandeza masculina não consiste em dominar, mas em cuidar. São homens transformados pelo amor, pela compaixão e pela responsabilidade assumida diante do outro.
Há, porém, um personagem cuja presença talvez ecoe de maneira ainda mais discreta na construção de Louis: Odisseu, ou Ulisses.
Talvez seja a comparação mais inesperada de todas.
Na tradição grega, Odisseu não é apenas o herói da Guerra de Troia. Ele é, sobretudo, o homem do retorno.
Toda a Odisseia gira em torno de uma única pergunta: como voltar para casa?
Ítaca deixa de ser apenas um lugar geográfico para tornar-se um símbolo. É o lar, Penélope, Telêmaco, a identidade que o mundo tenta lhe roubar durante vinte anos de errância.
Louis percorre um caminho semelhante, mas profundamente transformado.
Também ele atravessa perseguições, emboscadas, longas viagens, falsos aliados, conspirações e inúmeras provações. Também precisa sobreviver mais pela inteligência do que pela força bruta. Como Odisseu, compreende que a estratégia frequentemente vale mais do que a espada.
Entretanto, existe uma diferença decisiva entre ambos.
Odisseu retorna para recuperar a vida que deixou para trás.
Louis retorna para construir uma vida que jamais teve.
O retorno de Odisseu é circular.
Ele parte de Ítaca para voltar a Ítaca.
O retorno de Louis é espiralado.
Ele jamais regressa ao ponto de partida. Aproxima-se lentamente de algo que sempre lhe faltou: um verdadeiro lar.
É por isso que o encontro com Itangra representa muito mais do que um romance.
Ela não é apenas a mulher amada.
Ela torna-se a própria possibilidade de casa.
E Étienne completa esse movimento.
Curiosamente, Louis não reencontra apenas uma família no presente. Ao longo da narrativa, também reencontra algo de si mesmo que parece vir de uma existência anterior, como se sua jornada fosse simultaneamente exterior e interior. Enquanto Odisseu regressa à esposa e ao filho que deixara, Louis regressa simbolicamente a vínculos muito mais antigos, restaurando uma continuidade que ultrapassa uma única vida.
É um retorno ao amor, mas também à própria alma.
Por isso, o lar de Louis não é um castelo nem um reino.
Seu lar possui três nomes:
Itangra.
Étienne.
Família.
Esse contraste talvez seja o mais revelador.
Odisseu termina restaurando a ordem política de Ítaca. Recupera o trono, elimina os pretendentes e reafirma sua posição como rei.
Louis termina restaurando uma ordem muito mais íntima.
Sua maior conquista não é um reino.
É uma família reconciliada.
Não é um palácio.
É uma mesa onde todos podem sentar juntos.
Não é uma coroa.
É a certeza do pertencimento.
Nesse sentido, Louis talvez represente uma releitura contemporânea do herói do retorno.
Enquanto a Antiguidade via a plenitude masculina na recuperação do reino, Itangra desloca esse eixo para outro lugar: a verdadeira vitória de um homem está na capacidade de construir vínculos duradouros, proteger aqueles que ama e transmitir um legado que sobreviva à própria morte.
Talvez por isso sua cena mais importante não seja a derrota de Gaston, nem o reconhecimento da nobreza, nem mesmo o casamento.
Sua maior vitória acontece depois da morte, após um longa vida com ela.
Quando retorna por um breve instante durante o Ritual da Passagem dos Lobos e diz a Itangra:
"Não vim para me despedir. Vim para lembrá-la de que o amor não conhece distância."
Essa frase resume toda a sua jornada.
Odisseu volta para casa.
Louis descobre que o verdadeiro lar nunca foi um lugar, mas as pessoas que aprendeu a amar.
Talvez resida aí a originalidade do personagem.
Ele reúne algo da inteligência de Odisseu, da honra de Aragorn, da transformação moral de Darcy, da lealdade dos mosqueteiros, da perseverança de Jean Valjean e da capacidade estratégica do Conde de Monte Cristo, mas conduz todas essas qualidades para um destino diferente.
Seu objetivo final não é conquistar um reino, restaurar uma dinastia ou alcançar a vingança.
É tornar-se plenamente humano.
Carlos Costa França



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