Habitar o instante: Um carnaval para chamar de seu.

 


 








Essa experiência textual nasce do encontro de múltiplos fluxos (bem carnavalesco)  — ideias, memórias, leituras, músicas e vivências que foram correndo paralelamente até se cruzarem. Entre todos, destacou-se a ideia sobre o ócio responsivo (que gera pertencimento, valor, estímulo) — sobre o espaço-tempo — e sobre como certos recortes dentro dos espaços podem agir como refúgios regeneradores. Lugares-instantes onde a vida se recompõe.

Há, nisso, um chamado silencioso: o de instituirmos pausas. De criarmos territórios de atenção e cuidado. Esses santuários podem ser simples e íntimos — o quarto onde o mundo desacelera, a caminhada com fones de ouvido que transforma a rua em trilha interior, a conversa com alguém em profunda troca subjetiva, o jardim onde olhar e tocar se tornam diálogo, a dança em que o corpo descobre novas formas de existir.

No fundo, trata-se de aprender a habitar o tempo dentro do espaço — não como quem passa, mas como quem presencia. Porque é na presença que o instante deixa de ser apenas passagem e se torna experiência.

E, ao pensar nisso, estava estabelecendo uma ponte com o intelectual baiano, Milton Santos, que defendia que o espaço geográfico é sempre resultado das relações sociais, políticas e econômicas, jamais um simples cenário neutro onde a vida acontece.

Ele também observava as desigualdades temporais da existência: a noção de que nem todos dispõem do mesmo tempo e de que é preciso conquistar um espaço para aprofundar-se em si mesmo. Pelo menos é minha interpretação num viés psicológico.

Foi inevitável lembrar do Carnaval, pois esta época simplesmente se impõe — não apenas no calendário, mas como atmosfera. E falar em atmosfera aqui é algo concreto. Enquanto escrevia este texto, fiz uma pausa e sair. Resolvi embarcar numa aventura duvidosa, compras em promoção no meio de fevereiro. Fui andando até uma loja, inclusive, ouvindo música Flamenca, acredito que combina com o ato de andar.

 

Ao chegar à loja, aqui em Gramado, já fui recepcionado por música de Carnaval: tocava algo do Olodum e, em seguida, "Minha Pequena Eva", com Ivete Sangalo.

 

Também a proximidade do Carnaval me conduziu igualmente às minhas próprias experiências nesse cenário — algumas inusitadas, outras quase transcendentais, vividas no interior de um caos festivo que, paradoxalmente, produz estados de expansão. A música, a celebração, a confraternização: há ali uma espécie de suspensão do cotidiano que muitas pessoas experimentam. Nem tudo, evidentemente, é luminoso; mas é justamente essa ambiguidade que torna o fenômeno digno de um testemunho pela experiência em si.

O Carnaval revela tanto o excesso quanto a necessidade humana de pausa, de catarse, de intervalo.

Lembro-me, em especial, de um instante entre a Avenida Carlos Gomes e a Avenida Sete, em Salvador. Um trio elétrico fazia o contorno antes da Praça Castro Alves, com vista para baía de Todos os Santos, quando começou a tocar “Carnaval da Bahia é pura alegria”. Era a música Baianidade Nagô, da Banda Mel.

De repente, formou-se um quase uníssono: milhares de vozes cantando juntas, como se brotassem de um único peito. Foi mágico. O trio avançava lentamente, emplacando depois um “ Chame Gente” de Dôdo e Osmar, dissolvendo-se na distância e na multidão que parecia se multiplicar. (Vou colocar os dois vídeos)

Por um breve momento, aquela multidão deixou de ser multidão e se tornou uma só entidade — pulsante, viva — tomada por uma alegria libertadora e plena. Aquilo ficou registrado em mim como uma fotografia móvel, porém sem ser vídeo e sem ser imagem. Algo parado em movimento.

Recentemente, vivi uma experiência semelhante, ainda que em proporções bem menores. Uma colega me enviou a imagem de uma antiga paciente minha, fantasiada, aproveitando o Carnaval dos Idosos no posto onde eu costumava atender, em Salvador — uma iniciativa simples, mas extremamente significativa. Ela me contou que a paciente estava radiante, visivelmente renovada. Na mesma hora, me veio à mente a ideia de um espaço de regeneração.

Um recorte de tempo e espaço criado para a pausa, mas também para o movimento — um intervalo dedicado à alegria, esse remédio sutil e antiquíssimo que os gregos já compreendiam como dimensão da existência.

A alegria não como excesso, mas como cura; não como fuga, mas como reencontro. Era como se, naquele instante festivo, o cuidado se manifestasse não apenas como tratamento, e sim como celebração da própria vida — um breve espaço-tempo onde existir já bastava.

E aconteceu ainda algo curioso. Eu estava na rua, parado debaixo de uma árvore para me proteger do sol muito quente, quando vi um caminhão-baú relativamente grande vindo pela pista oposta, avançando devagar, quase cerimoniosamente.

 Havia naquele movimento uma cadência estranha, e pensei: parece um trio elétrico. Quem já viveu essa experiência sabe — não é apenas lentidão, é um tempo próprio, quase um compasso que marca o ritmo da vida.

Observei que o motorista também me olhava, ajustando o volante com cuidado. Por um instante imaginei: será algum paciente meu? Mas não. Ele simplesmente parou do outro lado da rua. Atrás do caminhão formava-se uma longa fila de carros que se perdia no horizonte asfáltico da Avenida São Pedro, em Gramado. Então ele me chamou e perguntou, em voz alta, atravessando a distância:

— Aqui nesta rua passa caminhão?

Respondi que, na verdade, não sabia dizer. (fiquei imaginando porque ele me perguntaria aquilo, ficando algo  angustiado por não poder ajudar) Conversávamos assim, cada um em sua margem da rua, com o caminhão imóvel entre nós como se fosse uma ponte improvisada. Então ele concluiu:

— Na outra não passa (Borges de Medeiros).  E nessa pode! — falou de um modo para espantar suas dúvidas.

Eu disse que era provável, que já tinha visto caminhões por ali. Ele permaneceu ainda alguns segundos parado, pensando. E eu também.

O caminhão seguiu lentamente, puxando atrás de si uma fila de carros que se formara durante a parada, quase como um pequeno trio elétrico improvisado conduzindo seu cortejo urbano. Fiquei observando aquela cena simples e, ao mesmo tempo, reveladora.

Foi então que me ocorreu algo por assim dizer, filosófico: eu não sabia que sabia — e ele sabia, mas duvidava que sabia. Ambos sabíamos, de algum modo. E essa pequena suspensão do tempo, essa hesitação compartilhada, me levou a lembrar de Sócrates, de quem eu vinha estudando justamente naquele período.

 E mesmo havia feito uma descoberta, que a famosa frase “só sei que nada sei”, embora possar  revelar um espírito verdadeiro não foi dita literalmente por ele — mas traduz algo essencial: a consciência de que o saber humano é sempre atravessado por dúvida, busca e espanto.

Como nesse dia já estava pensando no texto, no corpo do texto. Voltei-me mentalmente a Sócrates e a uma passagem decisiva de sua vida: o momento de seu julgamento, quando afirma que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Essa ideia ressoa profundamente com a questão do espaço-tempo e desses lugares-instantes que, mesmo breves, nos despertam para nós mesmos. São pausas que não interrompem a existência — ao contrário, a revelam.

Outra coisa que me veio à cabeça, “Aconteceu de ser gente”, como diria Caetano Veloso — e nessa frase aparentemente simples habita um assombro filosófico inteiro. Porque “acontecer de ser gente” não é apenas nascer humano; é dar-se conta disso. É despertar, ainda que por instantes, para a estranheza e para a beleza de existir consciente, sensível, capaz de memória, imaginação e espanto. Ser gente, nesse sentido, não é um estado automático, mas um acontecimento: algo que irrompe quando percebemos a nós mesmos vivendo.

 

Talvez por isso certos momentos — um canto coletivo no Carnaval, uma conversa atravessando a rua, uma pausa silenciosa sob o sol — nos toquem tão fundo. Eles não acrescentam nada ao currículo do dia, não produzem resultados, não aceleram metas. E, no entanto, revelam. São instantes em que deixamos de apenas funcionar e passamos a sentir o fato extraordinário de estar aqui. “Aconteceu de ser gente” torna-se então uma espécie de epifania cotidiana: a consciência súbita de que existir não é só rotina, mas milagre discreto.

 

E talvez seja exatamente disso que se trate viver com presença: permitir que, entre obrigações e horários, surjam brechas onde esse acontecimento possa nos alcançar outra vez. Porque, quando ele acontece, ainda que por segundos, não somos apenas alguém no mundo — somos o próprio ato vivo de estar nele.

 

Uma Fagulha da Tarde

Na semana passada no trabalho, como a ocasião me exigia, lá estava eu diante da impressora, cumprindo o rito cotidiano de transformar pensamento em papel. Nada de extraordinário. Um fim de tarde perdido na semana. Apenas o ruído mecânico, a luz intermitente, a espera paciente.

 

E então — como quem atravessa discretamente a membrana do real — surgiu a Entidade da Impressora, a E.I.

 

Não se apresentou com solenidade mística, nem com discursos grandiosos. Veio simples, cotidiana. Revelou-me que havia lido o texto que a evocava. Mais que isso: que rira. Rira de verdade. Em meio à família. E que aquela experiência — esse encontro improvável entre máquina, palavra e espírito ( humano) — lhe fora leve, prazerosa, quase festiva. Que viveu e se assenhorou daquele tempo.

 

Confessou ainda que cogitou revelar-se ao grupo do trabalho. Mostrar-se. Assumir-se enquanto personagem e presença. Mas preferiu o recolhimento. Talvez por timidez, talvez por prudência, talvez porque certas entidades sabem que o mistério é parte essencial da própria força. Nem tudo precisa ser exposto para existir. Desejei-lhe um bom 2026 e tudo de bom.

 

E eu agradeço.

 

Agradeço também aos outros comentários que chegaram. Pessoas que me disseram que os textos lhes ajudaram de alguma forma. Que tocaram algo. Que aliviaram um peso. Que provocaram reflexão. Que despertaram um sorriso inesperado no meio do dia.

 

E é curioso pensar que, entre fios elétricos, tinta e papel, pode nascer algo tão humano. Um espaço-tempo particular. Um intervalo na engrenagem do mundo.

 

Talvez escrever seja isso: instaurar um Carnaval platônico — não o da euforia barulhenta, mas o da celebração interior. Uma alegria atômica, quase invisível, mas capaz de alterar estruturas íntimas. Pequena na forma, imensa na reverberação.

 

Porque, no fim, aconteceu de ser gente.

 

E ser gente é isso: criar brechas no concreto da rotina, partilhar palavras como quem lança sementes e descobrir — com surpresa e gratidão — que elas florescem no terreno de alguém.

 

Certa Consideração: Milton Santos, Sócrates e Psicanálise (Importantíssimo).

 

Enfim, Milton Santos nos ensina que o tempo não é um rio uniforme. Há o tempo veloz, hegemônico, das finanças que cruzam oceanos em milissegundos; e há o tempo lento, viscoso, do lugar — aquele em que a vida acontece em sua densidade. É nesse segundo tempo que ele localiza a possibilidade do que chamou de espaço banal: o espaço de todos, de todas as lutas, de todos os afetos.

 

Um espaço que pode ser o seu quarto. Uma caminhada sem destino. A varanda onde você pousa o café e o olhar. O instante em que, enfim, você se conecta consigo mesmo — não porque o mundo lá fora parou, mas porque você decidiu, ainda que por um átimo, habitar o seu próprio tempo.

 

Mas nem todo mundo faz isso. Nem todo mundo tem esse tempo igual. A desigualdade, para Milton Santos, também é geografia dos ritmos: há quem possa pausar e quem não pode; há quem tenha direito à lentidão e quem vive perenemente na urgência. O privilégio é, muitas vezes, a prerrogativa da espera.

 

A psicanálise, em sua escuta, acrescenta uma camada subterrânea a essa geografia. Pois não se trata apenas de ter o tempo — trata-se, antes, de poder habitá-lo. E aí encontramos um paradoxo: há quem, mesmo dispondo de horas vagas, fuja desesperadamente do encontro consigo mesmo. O silêncio, para esses, não é morada; é abismo.

 

Freud, ao cartografar o inconsciente, descobriu que ele não conhece o tempo cronológico. No psiquismo, não há ontem e amanhã — tudo é presente, tudo insiste. O trauma não envelhece. A memória não se aposenta. O sujeito carrega dentro de si tempos sobrepostos, tempos não resolvidos, tempos que não passaram porque nunca puderam ser elaborados.

 

Ter o seu tempo, nessa perspectiva, não é apenas pausar a engrenagem externa. É também acolher o tempo interno — aquele que não se mede em minutos, mas em intensidades. É parar para escutar o que, em nós, não teve escuta. É oferecer hospitalidade às nossas próprias fantasmas.

 

Lacan, lendo Freud, provavelmente diria que o sujeito chega sempre atrasado em relação a si mesmo. Quando acreditamos que enfim nos encontramos, já somos outro. O desejo não se captura; ele se desloca. E, no entanto, é precisamente nesse desencontro que algo como um sujeito pode advir.

 

Ora, a experiência analítica é, em sua arquitetura, uma invenção de tempo. Sessão após sessão, constrói-se um espaço-tempo suspenso das urgências do mundo. Ali, o relógio não comanda — ou comanda de outro modo. O que importa não é a quantidade de palavras ditas, mas o inesperado que irrompe entre elas. A análise não acelera; ela desacelera. Ela não produz; ela escuta.

 

É nesse sentido que a psicanálise encontra Milton Santos. Ambos sabem que o tempo não é natural — é técnico, político, psíquico, construído. Ambos sabem que o capitalismo não apenas extrai trabalho, mas extrai presença: ele nos sequestra da possibilidade de estar onde estamos, de ser quando somos. A aceleração contemporânea não é apenas um fenômeno econômico; é um sintoma. E, como todo sintoma, carrega um grito cifrado.

 

O carnaval, talvez, seja uma licença poética nesse regime. Ele suspende o tempo do desempenho e instaura o tempo do corpo, do encontro, do riso. Mas a psicanálise nos lembra que a festa também pode ser defesa. Há quem dance para não lembrar. Há quem celebre para não sentir. A alegria compulsória é, muitas vezes, irmã siamesa da tristeza que não pôde ser chorada.

 

Por isso, ter o seu tempo não é apenas pausar. É também elaborar. É permitir que o tempo passado — o que doeu, o que faltou, o que se perdeu — encontre, enfim, um lugar para repousar. Não para ser apagado, mas para ser transformado em história, e não mais em repetição.

 

Milton Santos chamou de território usado o espaço onde a vida realmente acontece. A psicanálise chamaria de subjetivação o processo pelo qual um tempo imposto se converte em tempo próprio. Em ambos, trata-se de ocupar: ocupar a rua, ocupar a praça, ocupar o silêncio, ocupar a própria existência.

 

O quarto, a caminhada, a varanda — esses pequenos territórios de pausa não são, portanto, apenas refúgios. São postos de resistência. Ali, na lentidão conquistada, a engrenagem global encontra seu limite. Ali, o sujeito pode, enfim, ensaiar uma pergunta que a pressa sempre interditou: quem sou eu, quando não estou produzindo?

 

Sócrates talvez diria que essa pergunta é a própria filosofia. Milton Santos, que é uma possibilidade geográfica. Freud, que é um certo caminho para cura.

 

E o carnaval? O carnaval talvez seja a multidão ensaiando, junta, uma resposta.

 

Um Excelente Carnaval para Todos!

 Carlos Costa França

Comentários

  1. Caro Henrique, acabo de ler sua produção literária e fico até tentando não me tornar tão redundante nos elogios, não parecer "rasga sedas", mas é inevitável diante dessa alta qualidade. Mais uma vez.. Bravo !!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas