Identidade. Crise e Aurora no Cosmos Interior

 


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Essa experiência textual nasce, em parte, de um sonho que tive no dia 8 de março, e depois até me senti impelido a escrever algo mais específico sobre o Dia das Mulheres. Cheguei a iniciá-lo; mas o tempo ordinário me traiu, e o texto imaginado ficou preso num labirinto de ideias. Sem um fio de Ariadne que me conduzisse, temi que o Minotauro do Esquecimento o devorasse.


Os acontecimentos, porém, foram se sobrepondo numa dinâmica própria, e algo começou a ganhar forma. O texto passou por um moedor estético e alquímico; de certo modo, sobrevoou o labirinto do Minotauro (que, aliás, é a maneira clássica de escapar dele: por cima). E, de forma irreverente, pousou numa cidadela pirata multicultural, percorrendo suas vielas históricas e independentes. O percurso não foi linear, mas orgânico, vivo.


A ponto de parar num café dos piratas, chamado de “Ossos Cruzados”, — ­uma espécie de porto clandestino da imaginação. Mas ao invés de café,  tomar um chimarrão com Mary Shelley e discutir a estética deste meu texto meio Frankenstein. A obra dela, Frankenstein é uma referência ao mito grego de Prometeu — aquele que rouba o fogo dos deuses, simbolizando o conhecimento e suas consequências.'

Mas aqui faço um desvio deliberado. Se no romance o excesso de conhecimento gera o monstro, proponho inverter o eixo: discutir a falta de conhecimento e suas consequências. Porque a ignorância também cria monstros.

Não é a ignorância inocente que está em jogo, mas a que se recusa a saber — a que evita ver, reconhecer o outro e a si mesmo e assumir responsabilidade. Em Frankenstein, a criatura nasce da ciência, mas torna-se monstruosa ao ser rejeitada e privada de linguagem, vínculo e pertencimento. O abandono é uma forma de ignorância.

Talvez, nesse café imaginário, entre um gole e outro de erva-mate, a conversa com Mary Shelley girasse menos em torno da ciência e mais em torno da consciência. Porque tanto o saber sem ética quanto a ausência de saber sem reflexão podem produzir devastação.

Por isso, fiz algumas boas alianças.

Com a psicologia, com seus totens teóricos, lançou luz sobre esse trajeto e ofereceu direcionamentos — mas não foi a única. A mitologia, a literatura e a tradição clássica também serviram de bússola. E há ainda, como exemplo, o simbolismo astrológico, especificamente o chamado Retorno de Saturno, marco entre os 28 e 29 anos.

 

Uma aventura verdadeira exige coragem. Às vezes ela se impõe — eu sei, o peito dói. O medo surge e, ainda assim, acredite mais em você do que nele. Muitas vezes, o que chamamos de medo é apenas a travessia disfarçada. E toda travessia sustentada pode tornar-se porto seguro.

 

O SONHO

Quanto ao meu sonho, revelou-se de caráter marcadamente arquetípico, evocando algo semelhante à jornada descrita por Carl Jung ao tratar dos processos de transformação psíquica. Havia nele o clima de uma jornada do herói: uma travessia interior, uma passagem de limiar, como se a psique estivesse sinalizando a transição para um novo estágio de amadurecimento. Era, ao mesmo tempo, ruptura e superação — como se algo fragmentado buscasse reintegração para o próximo nível.

 

São tipos de sonhos que considero bastante raros, ainda mais quando aliados a processos de sincronicidade — coincidências significativas, por assim dizer, “hiperlinkadas”, nas quais o mundo interno e o externo parecem dialogar de maneira sutil e precisa.


Muitas vezes, em momentos de transição, ainda estamos com os olhos vendados. E está tudo bem. Nem toda mudança começa com lucidez; às vezes, começa justamente na incerteza.

 

Mas há, no horizonte, um sol que nasce.

Abra os olhos. Abra — ainda que aos poucos.

 

O fato é que as escolhas sempre serão angustiantes. Não há como evitar. Escolher é renunciar; e renunciar dói. Ainda assim, é pelo gesto da escolha que a vida ganha forma.

 

Sigamos com os passos que nos são possíveis e já nossos conhecidos (mas evite os sapatos de pedra, que tantos usam), com os recursos que temos agora — desprovidos de qualquer aliança com a perfeição. Ela não existe.

 

Façamos, por nós, o que é certo fazer. Não o ideal absoluto. Não o irrepreensível. Apenas o que, diante da nossa consciência, pode ser sustentado com dignidade. Acolhamos os nossos erros com certa sacralidade, mas jamais, jamais mesmo, a ignorância sobre eles. Eis o segredo.

 

Porque amadurecer não é enxergar tudo com clareza total.

É caminhar mesmo quando a visão ainda se ajusta à luz.

 

E por falar em luz, antes dela. Os sonhos  (quaisquer) são instrumentos valiosos de orientação interior. Não são meros resíduos do dia, mas expressões simbólicas de algo mais profundo. Por meio de imagens e metáforas, comunicam mensagens da totalidade psíquica que buscam restaurar equilíbrio e sentido.

 

Com o tempo, torna-se evidente que muitas dessas imagens noturnas já apontavam para transformações em curso antes mesmo de alcançarem a consciência. O que parecia estranho ou fragmentado revelava, na verdade, um processo silencioso de reorganização interior.

 

Pregresso a essas reflexões, recordo como era frequente ouvir pacientes dizerem: “Estou em crise”. “É crise, doutor.” “É uma crise atrás da outra.” Ou ainda: “Estou em crise — mas quem não está?”. E de modo geral o mundo está em crise. E é um paciente difícil. Mais vamos lá, resolver, ao menos a nossa!

 

Quando escutamos com mais atenção o relato de certas crises, percebemos que muitas vezes não se trata apenas de sofrimento ou desorganização emocional. Há algo mais profundo em jogo: uma ruptura na identificação que a pessoa tinha de si mesma — aquilo que podemos chamar de crise-eixo da identidade, distinta das crises provocadas por circunstâncias externas.

 

Pois “crise” tem nuances. Carrega história, carrega o peso do entorno. Não é apenas ruptura; é também decisão, encruzilhada, momento em que algo precisa ser revisto.

 

Para explorá-la melhor, farei uma pequena digressão "in vitro", recorrendo ao laboratório da história e da filosofia — aquele lugar onde as ideias são examinadas com mais calma antes de retornarem à vida concreta.

 

Faz-se necessária essa visita ao mundo clássico (vamos encarar como um passeio). Não por formalidade, mas por respeito à pedagogia do humano e ao próprio conhecimento. Às vezes, é preciso voltar às origens para entender o que está acontecendo agora, como quem retorna à nascente para compreender o curso do rio.

 

O texto será “um pouquinho grande”. E isso, no fim das contas, revela que minhas preocupações com o Minotauro do Esquecimento eram infundadas. Ele não estava à espreita, pronto para devorar as ideias. No máximo, era um fantasminha camarada — desses que assustam mais pela imaginação do que pela força real.


MITOLOGIA E MEDO

Poucos mitos modernos dramatizam isso tão bem quanto Star Wars, especialmente na trajetória de Luke Skywalker. É bastante conhecido, e numa crise de identidade, é interessantíssimo. Mais adiante depois desse tópico seguiremos com o Mundo Clássico. Aqui é um docinho antes do prato principal. 

 

1. O medo como portal para a sombra

 

Para Jung, o medo frequentemente aponta para a Sombra — os aspectos rejeitados, reprimidos ou desconhecidos da psique.

 

O que nos assusta não é apenas o mundo externo; é aquilo que dentro de nós ainda não foi reconhecido.

 

Evitar o medo mantém a personalidade fragmentada.

Enfrentá-lo inicia o processo de individuação — o caminho de tornar-se quem se é em profundidade.

 

2. A caverna em Dagobah: a metáfora perfeita

 

Em O Império Contra-Ataca, Luke entra na caverna em Dagobah. Antes de entrar, Yoda diz que ali ele encontrará apenas o que levar consigo.

 

Luke enfrenta Darth Vader. Ao decapitá-lo, o capacete explode — e o rosto que aparece é o seu próprio.

 

É uma cena profundamente junguiana.

 

O que ele teme está nele.

O inimigo externo é uma projeção do conflito interno.

 

A caverna é o inconsciente.

Vader é a sombra.

O medo é o portal.

 

3. O erro de Anakin

 

A trajetória de Anakin Skywalker é o contraponto.

 

Seu medo de perder quem ama — especialmente Padmé — o domina. Ele tenta controlar o destino para evitar a dor. Mas, ao fugir do medo, ele se submete a ele.

 

O resultado é a transformação em Darth Vader.

 

Aqui vemos o outro lado da frase:

 

O medo ignorado vira tirania.

 

O medo negado vira destino trágico.

 

O medo enfrentado vira caminho de crescimento.

 

4. A angústia como sinal de crescimento

 

Em termos junguianos:

 

O medo marca um limiar.

 

Ele indica uma expansão possível da consciência.

 

Ele aponta para algo que precisa ser integrado.

 

Por isso, “onde está seu medo, está seu caminho” não significa buscar sofrimento, mas reconhecer que:

 

O desconforto sinaliza transformação.

 

Luke só se torna verdadeiramente Jedi quando enfrenta não apenas o Império, mas a possibilidade de tornar-se como Vader.

 

5. O momento decisivo

 

No confronto final em O Retorno de Jedi, Luke quase cede ao ódio. Ele sente a sombra pulsando. Mas, diferente de Anakin, ele escolhe não ser dominado por ela.

 

Ele reconhece o medo — e o transcende.

 

Isso é individuação:

não eliminar a sombra, mas não ser governado por ela.

 

6. Síntese

 

Jung nos diria:

 

O medo aponta para a sombra.

 

A sombra contém energia psíquica reprimida.

 

Integrá-la é amadurecer.

 

Star Wars dramatiza isso miticamente:

 

A caverna é o inconsciente.

 

Vader é a sombra.

 

O medo é a iniciação.

 

O caminho não é fugir da escuridão —  é atravessá-la conscientemente.


A NOÇÃO DE PESSOA - Mundo Clássico

A noção de pessoa (no mundo ocidental), tal como a conhecemos hoje, é uma construção histórica, filosófica, inclusive fomentada pelo credo e filosofia do cristianismo. A questão da identidade, mais propriamente dita, ganha contornos decisivos no direito romano: ali surge a ideia de um sujeito que permanece no tempo, como titular de bens, deveres e direitos dentro de um império estruturado por leis. Mesmo após a morte, a pessoa conserva prerrogativas jurídicas — algo que ainda reconhecemos na atualidade.

 

Desse ponto, convoquemos a  Cícero e à sua noção central de humanitas: a ideia de que existe algo comum a todos os seres humanos, mas que não se detém numa universalidade abstrata. Ele avança para uma reflexão sofisticada, sobretudo para Antiguidade. Justamente aquilo que distingue cada indivíduo, o papel que lhe cabe no mundo (isso é interessantíssimo).

 

Em sua teoria das quatro personae (papéis), a palavra persona, que derivou personalidade — originalmente a máscara teatral como sabemos — não carrega o sentido de falsidade, mas de expressão singular de um papel na vida. Ele distingue quatro níveis:

A persona comum: a natureza racional compartilhada por todos.

A persona individual: o temperamento, os talentos e as disposições próprias de cada um.

A persona circunstancial: a posição social, a profissão, o contexto histórico.

A persona escolhida: o caminho de vida que decidimos seguir.

 

Aqui está o ponto crucial: todos partilham uma humanidade comum, mas cada um deve agir conforme sua natureza singular. Existe, sim, uma moral universal — porém sua concretização exige se ater (ou ter respeito) à individualidade.

 

Essa tensão entre o universal e o singular não é apenas filosófica. É também profundamente psicológica. O sujeito não vive no abstrato; vive encarnado em contextos, relações e narrativas que moldam sua autoimagem. Existe uma humanidade comum — mas cada vida precisa encontrar sua forma própria de encarná-la.

 

Há crises que dizem respeito ao entorno — à instabilidade do mundo ao redor. Sociedades instáveis deixam de oferecer sustentação simbólica ao sujeito. Quando os referenciais coletivos vacilam, o indivíduo pode perder não apenas segurança externa, mas também a coerência interna. A desorganização do mundo toca a organização do eu — e essa tensão não é apenas histórica ou política, mas também simbólica.

 

Foi algo semelhante que preocupou Carl Gustav Jung ao observar o século XX. Para ele, o homem moderno havia acumulado um poder externo gigantesco — técnico, científico, bélico — sem correspondente maturidade interior. Construímos psiquicamente forças capazes de nos destruir.

 A malignidade não começa na arma; começa na inflação do ego que se identifica com forças arquetípicas maiores do que pode integrar. Quando o indivíduo — ou uma coletividade — se imagina portador de uma missão absoluta, instala-se a hybris. A grandiosidade torna-se destrutiva tanto interna quanto externamente.

 

Jung chamava isso de inflação psíquica: o ego tomado por conteúdos do inconsciente,  especialmente pela Sombra coletiva. O perigo não está apenas nas guerras declaradas, mas na inconsciência que permite que forças não reconhecidas nos possuam. Quando o indivíduo não encontra seu lugar próprio — singular, limitado, humano — ele tende a buscar compensação em movimentos totalizantes, ideologias redentoras ou fantasias de poder. A perda da medida interior prepara o terreno da catástrofe exterior.

 

Algo semelhante aparece quando Sigmund Freud escreve a Albert Einstein, no célebre intercâmbio que resultou em Por que a guerra?. Freud foi direto: a agressividade faz parte da constituição humana; não podemos simplesmente decretar o seu fim. A civilização tenta conter, sublimar, organizar essa força — mas ela nunca desaparece por completo. O conflito não é um acidente da história; é um dado da estrutura psíquica.

 

Se, de um lado, Freud lembra a Einstein que a guerra parece estrutural à condição humana, de outro, a tradição hindu oferece uma imagem simbólica poderosa dessa mesma verdade: o campo de batalha de Kurukshetra, no Bhagavad Gita.

 

Ali, antes mesmo que as armas se cruzem, o verdadeiro conflito já está instalado — não apenas entre exércitos, mas dentro de Arjuna. Ele treme, hesita, entra em colapso diante da tarefa de lutar contra os seus. Kurukshetra é, ao mesmo tempo, um campo histórico e um campo psíquico. A guerra externa explicita uma batalha interior: dever e afeto, ação e recuo, responsabilidade e culpa.

 

Simbolicamente, Kurukshetra é o mundo quando ele se desorganiza. Mas é também o eu quando precisa enfrentar suas próprias forças em choque. A crise, nesse sentido, não é apenas destruição; é confronto com aquilo que nos constitui — nossas pulsões, nossos valores, nossos vínculos.

 

É aqui que a advertência de Jung se torna decisiva: se não reconhecemos nossa sombra, ela se impõe de maneira coletiva. Se não encontramos nosso lugar singular dentro da humanidade comum, a energia psíquica se converte em grandiosidade compensatória. O trabalho não é eliminar o conflito — isso seria ilusório —, mas atravessá-lo com consciência. Jung chamaria isso de individuação: integrar as forças internas sem se identificar infladamente com elas.

 

Podemos concluir do ensinamento ali presente: não há como fugir do campo de batalha — seja histórico, seja psíquico —, mas há como atravessá-lo com consciência, medida e responsabilidade.

 

De outro lado, a psicanálise descreve o processo mostrando como o eu é, em parte, estruturado a partir do olhar do outro. Relações tóxicas ou marcadas por manipulação corroem a imagem que a pessoa construiu de si mesma porque atingem seus investimentos narcísicos, seu ideal do eu, suas identificações fundamentais. A crise, nesse caso, não é simples tristeza: é uma fissura na narrativa identitária.

 

Já a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ilumina outro aspecto complementar e relevante. Muitas vezes, o sofrimento se sustenta em crenças centrais disfuncionais: “não sou capaz”, “não sou digno”, “preciso corresponder às expectativas alheias para ter valor”. Comparações incessantes reforçam distorções cognitivas — catastrofização, personalização, generalizações — que obscurecem talentos e inclinações reais. A pessoa passa a agir não segundo sua natureza, mas segundo esquemas internalizados e nunca examinados.

E aqui vou fazer uma ponte entre  Cícero a psicologia. Estou seguro que ela não vai se importar.

Portanto, em muitos casos, a crise não é apenas um colapso emocional — é o abalo de uma persona.

Pode ser a persona circunstancial, quando o mundo externo se desorganiza e o papel social perde sentido.

Pode ser a persona individual, quando o sujeito já não reconhece seus próprios dons e inclinações.

Pode ser a persona escolhida, quando o caminho trilhado deixa de expressar aquilo que se é.

 

O que podemos concluir, que mesmo a crise com forte viés externo, há algo da singularidade do indivíduo que pode — e deve — ser reforçado. É nesse ponto que a tradição clássica e certas vertentes da psicologia oferecem um horizonte fecundo.

 

Cícero, herdeiro da Paideia grega — a formação integral do homem grego —, traduziu essa herança na noção romana de humanitas. Para ele, a humanidade comum, fundada na razão, não floresce espontaneamente. Ela exige formação. Não basta nascer humano: é preciso tornar-se plenamente humano.

 

Há um trabalho em ser sujeito — e, mais ainda, em fazer-se sujeito.

 

Do ponto de vista psicanalítico, o sujeito não é um dado pronto, acabado, que simplesmente emerge com o nascimento biológico. Ele é efeito de uma trama simbólica. Em Freud, já encontramos a noção de que o eu não é senhor em sua própria casa; há forças inconscientes que nos atravessam, determinando desejos, sintomas, repetições.

Tornar-se sujeito implica, portanto, um trabalho de elaboração: reconhecer que há algo em nós que nos escapa — e, ainda assim, responsabilizar-se por isso ( É aqui o pulo do Gato). Por isso, tão importante o trato com os sonhos.

 

Com Jacques Lacan, essa formulação ganha outra densidade: o sujeito é efeito da linguagem. Ele surge no campo do Outro, isto é, na rede simbólica que o antecede — família, cultura, discurso social. Fazer-se sujeito é, então, atravessar as identificações imaginárias, deslocar-se das expectativas do Outro e produzir uma posição própria frente ao desejo. Não se trata de “descobrir quem se é” como essência, mas de assumir a divisão que nos constitui.

 

Esse trabalho é ético. Ele envolve a travessia da fantasia, o enfrentamento da falta, a aceitação de que não há completude possível. O sintoma, nesse contexto, deixa de ser apenas algo a ser eliminado e passa a ser uma via de acesso ao modo singular como cada um se estruturou. O trabalho analítico visa transformar a relação do sujeito com seu sintoma, permitindo que ele deixe de ser pura repetição inconsciente para tornar-se escolha, estilo, marca singular.

 

Fazer-se sujeito, portanto, é um processo contínuo: é sair da posição de objeto do desejo do Outro para ocupar um lugar de enunciação. É passar da queixa à responsabilidade. É consentir com a própria divisão e, ainda assim, sustentar um desejo que não seja mera resposta à demanda alheia.

 

Ser sujeito não é um estado; é uma tarefa. Uma tarefa sempre inacabada.

 

O VALOR DA FORMAÇÃO

 

Surge aqui uma outra jornada necessária, ditada em parte pela articulação sofisticada entre natureza comum e singularidade, preconizada por Cícero. Se todos compartilhamos uma natureza racional comum (a primeira persona), cada um possui disposições individuais próprias (a segunda persona). A formação, portanto, não visa uniformizar, mas aperfeiçoar segundo a constituição particular de cada um.

 

O conhecimento, e sobretudo o autoconhecimento, é fundamento de cura e de vida coletiva. Há uma autocura que não se reduz ao corpo ou à emoção imediata, mas que passa pela ampliação de significado. E o significado se realiza e se constrói por meio da cultura.

 

A antiga noção de Paideia grega já apontava nessa direção: civilização, tradição, literatura, educação e cultura não são meros adornos da existência, mas instrumentos de formação da alma. Educar não é apenas transmitir conteúdos; é formar o humano em sua inteireza. E a arte ocupa, nesse processo, um lugar privilegiado.

 

Assistindo ao Oscar, um cineasta disse que o cinema é um instrumento capaz de mudar a perspectiva de alguém. E é verdade. A forma como uma história é narrada — suas imagens, silêncios, conflitos e desfechos — pode deslocar o olhar, ampliar horizontes, reorganizar sentimentos. Porque contar histórias é tocar o que há de mais profundamente humano em nós.

 

Uma síntese Possível

A grande intuição é esta: a humanidade é comum, mas sua realização é singular — e a educação é a ponte entre o universal e o individual, somado a cultura e arte. A paideia grega (ou humanitas, como a chamou Cícero) não apaga a individualidade: ela a orienta.

Nesse ponto, há uma convergência possível com a clínica contemporânea. A psicanálise busca reconectar o sujeito com seu desejo singular, para além das identificações alienantes. A TCC trabalha para flexibilizar crenças rígidas e permitir que a pessoa escolha condutas mais coerentes com seus valores autênticos.

 

Em termos ciceronianos: devemos respeitar nossa constituição individual, mas formá-la à luz da razão universal — e escolher um papel coerente com ambas.

 

A formação não elimina a singularidade. Ela a depura. Não dissolve o eu — dá-lhe forma.

 

E talvez seja isso que toda crise, no fundo, esteja pedindo: não a substituição da identidade, mas sua reorganização à luz do que é comum a todos e, ao mesmo tempo, absolutamente próprio de cada um.

 

Crise-eixo da Identidade propriamente dito

É uma crise que vem de dentro, das estruturas inconscientes; pode até ter um gatilho externo, mas é fundante na organização interna.

 

A pessoa sente que algo mudou dentro de si. Aquilo que antes parecia natural — gostos, hábitos, relações, expectativas — já não se sustenta da mesma forma. Surge então uma experiência estranha: não é mais exatamente quem era, mas ainda não sabe quem está se tornando.

 

Na psicanálise de Freud, poderíamos dizer que algo do ideal do eu perde consistência. A imagem interna que organizava o sentido da vida já não consegue sustentar a realidade psíquica. Surge, então, o que muitas vezes chamamos de crise, mas que pode ser entendido como um momento de reorganização profunda da identidade.

 

Curiosamente, a própria palavra crise carrega essa dimensão. Vem do grego krisis, que significa julgamento, decisão, separação. O verbo krinein quer dizer discernir, distinguir, escolher. A crise, portanto, não é apenas colapso: é também abertura — um ponto em que algo precisa ser decidido ou transformado.

 

Na medicina de Hipócrates, krisis era o momento decisivo de uma doença — aquele ponto crítico em que o organismo caminharia para a cura ou para o agravamento. Era o instante em que o processo chegava ao seu limiar de transformação.

 

Uma patologia silenciosa, desprovida de sinais de crise, pode representar o pior dos prognósticos. Justamente por não produzir rupturas perceptíveis, permanece oculta por longos períodos, retardando tanto o diagnóstico quanto a intervenção terapêutica eficaz. Doenças cardíacas e diversos tipos de câncer são exemplos eloquentes dessa dinâmica.

 

Por outro lado, uma vez que sabemos da existência de algo, não devemos esperar que a dor se imponha para agir. A consciência antecipada exige responsabilidade: convoca-nos a intervir antes que o sofrimento se torne o único mensageiro da realidade. Quando o conhecimento já está dado, adiar a ação até o momento da ruptura é transformar a prevenção em tragédia anunciada.

 

Esses dias, estava eu na rua  (sempre uma nova aventura) quando uma senhora se aproximou com expressão benfazeja e um sorriso quase conspiratório. Perguntou, alegremente, se eu fumava.

 

— De jeito nenhum! — respondi, com certa rispidez.

 

Ela, meio sem graça, revelou:

 

— Estou tentando parar.

 

Sem saber muito bem o que dizer naquele instante, recorri a um daqueles chavões prontos para a ocasião:

 

— Não tente, apenas faça!

 

A conversa terminou ali, mas o episódio ficou ressoando em mim um pouco. Depois, pensando melhor, concluí que talvez devesse ter dito outra coisa: “No fundo, é uma questão de escolher a sua dor”.

 

Sim, muitas vezes é isso que nos resta: escolher qual dor estamos dispostos a atravessar. Há a dor da renúncia, do esforço, da disciplina — e há a dor do adiamento, da deterioração lenta, da consequência que amadurece em silêncio.

 

Hoje, neste texto, não falo propriamente sobre escolhas — mas que elas existem, existem.

 

Na psicologia analítica de Jung ( e repito muito isso), encontramos algo muito próximo dessa ideia: aquilo que não se torna consciente tende a manifestar-se como destino. O que evitamos enfrentar internamente retorna mais tarde como acontecimento externo, sintoma ou crise. A consciência não elimina o sofrimento humano — mas nos permite escolher de que modo o atravessaremos.

 

Mas voltemos à crise-eixo.

 

Como escritor, tento dar forma a narrativas que alcancem valor simbólico — até porque, evidentemente, não deixo de ser psicólogo. A literatura, nesse sentido, torna-se um laboratório “imaginal” onde os mesmos processos que observo na clínica ganham corpo em personagens, destinos e imagens.

 

Essa ideia aparece de modo particularmente simbólico em meu romance O Anjo e o Alquimista. Na história, uma alquimista morre exatamente durante o chamado Retorno de Saturno, por volta dos 28 ou 29 anos — momento que, na tradição astrológica, marca o primeiro grande ciclo de amadurecimento da vida.

 

Na astrologia, Saturno é o planeta do tempo, da estrutura, da responsabilidade, do limite. Seu retorno — quando ele volta ao mesmo ponto do mapa natal — simboliza um confronto com a realidade. É como se a vida perguntasse: “Quem você é, de fato? O que construiu até aqui tem sustentação?” O que era fantasia começa a ruir. O que era imaturidade cobra preço. O que era promessa exige concretização.

 

Em termos psicológicos, é um momento clássico de crise-eixo de Identidade. A persona escolhida até então — muitas vezes moldada por expectativas familiares, sociais ou narcísicas — entra em tensão com a persona individual, com aquilo que a constituição íntima realmente suporta e deseja.

 

No romance, a alquimista morre exatamente nesse limiar saturnino. E isso não é gratuito.

 

Na narrativa, é ela quem conduz o noivo ao universo da alquimia. Ela é a mediadora simbólica entre ele e o processo de transformação. No entanto, ele só entre verdadeiramente no processo quando ela morre. Não que lhe faltem méritos, mas a morte dela funciona como sua nigredo — a fase negra da obra alquímica, o momento de decomposição, perda e confrontação com a sombra.

 

Desesperado, ele tenta encontrar a pedra filosofal, como se pudesse vencer o tempo e recuperar o que foi perdido. Não consegue naquele momento a opus máxima. Apenas muito tempo depois — quando ela já não está mais viva.

 

Aqui, Saturno volta a operar: o tempo não se curva ao desejo. A maturação não pode ser forçada.

 

Em uma dobra narrativa, ele viaja no tempo para resgatá-la — e novamente a encontra aos 29 anos, atravessando outro Retorno de Saturno. Mas agora, em outra vida, ela é engenheira química. Abandona a química e torna-se cozinheira de sopas — um movimento simbolicamente poderoso: sai do laboratório técnico e vai para a cozinha, lugar de transformação concreta, de nutrição, de calor humano.

 

Se antes estava identificada com a “obra” no sentido quase obsessivo — talvez movida pelo desejo de realizar o sonho do pai, “em nome do pai”, submetida ao ideal do eu herdado — agora tenta mudar de rota. Na vida anterior, sua dedicação podia ter algo de compulsivo, uma fidelidade rígida à persona escolhida sob forte marca paterna.

 

Na nova vida, ela tenta outra via: da química à cozinha. Da abstração à nutrição. Da fórmula ao alimento. No entanto, carrega dentro de si um mal invisível — um câncer. Algo silencioso, subterrâneo, como aquelas patologias que mencionamos antes, que não produzem crise explícita até se tornarem irreversíveis.

 

Psicologicamente, isso é eloquente.

 

Quando a vida psíquica se organiza excessivamente em torno de uma persona — sobretudo quando ela está a serviço de um ideal herdado e não do desejo singular — cria-se uma tensão estrutural. De fato, a crise-eixo pode não vir sob a forma de colapso emocional imediato; pode emergir como sintoma, como esgotamento, como doença. Aquilo que não foi simbolizado retorna no corpo ou no destino — ideia cara a Jung, quando afirma que o inconsciente não integrado tende a manifestar-se como fatalidade.

 

O Retorno de Saturno, nesse sentido, pode ser compreendido como um julgamento existencial — uma krisis no sentido grego: separação, discernimento, decisão. O que é estrutural permanece. O que é ilusório cai. O que é infantil se rompe. O que é autêntico começa a exigir forma.

 

Na alquimia, esse processo corresponde ao opus: primeiro a nigredo (dissolução, morte simbólica), depois a albedo (clareamento, diferenciação), e finalmente a rubedo (integração, realização). Mas o opus não respeita a pressa do ego. Ele obedece ao tempo da matéria — que é também o tempo de Saturno.

 

Do ponto de vista psicanalítico, poderíamos dizer que o ideal do eu herdado precisa ser revisto. Aquilo que foi introjetado “em nome do pai” precisa ser elaborado para que o sujeito encontre seu próprio eixo. Caso contrário, vive-se uma existência relativamente coerente externamente, mas internamente desalinhada.

 

Já sob a lente da Terapia Cognitivo-Comportamental, poderíamos compreender esse momento como a necessidade de reavaliar crenças centrais: “Meu valor depende de realizar o sonho de alguém?”, “Preciso provar algo para existir?”, “Sou digno apenas se performar determinada identidade?” O Retorno de Saturno desmonta crenças disfuncionais que não se sustentam diante da realidade.

 

No romance, o fato de ela mudar de profissão na segunda vida indica tentativa de reorganização da persona escolhida. Mas talvez a transformação simbólica ainda não estivesse completa. A simples mudança externa não garante integração interna. Pode-se trocar de papel e continuar prisioneiro do mesmo núcleo inconsciente.

 

É aí que o alquimista entra.

 

Ele representa aquele que aceita o tempo da obra. Que compreende que não se trata de salvar alguém do destino, mas de atravessar o processo. A pedra filosofal não é um objeto que devolve o passado; é um símbolo de integração psíquica. Não é vitória sobre o tempo, mas reconciliação com ele.

 

A cena é dramática, mas profundamente simbólica: certas transformações interiores não obedecem ao tempo do desejo. Exigem um processo mais longo, semelhante ao opus alquímico, que muitas vezes começa por uma fase de dissolução, de perda, de morte simbólica — ou mesmo real, em alguns aspectos da vida.

 

O Retorno de Saturno, então, pode ser visto como uma crise-eixo por excelência. Não é apenas uma crise circunstancial. É estrutural. É o momento em que a vida exige coerência entre a natureza comum (aquilo que partilhamos enquanto humanos), a natureza singular (nossos talentos e limites) e a persona escolhida.

 

Se houver desalinhamento, Saturno cobra.

 

Mas sua cobrança não é punição — é maturação.

 

Ele retira ilusões, mas oferece estrutura. Impõe limites, mas inaugura responsabilidade. Fecha portas, mas consolida identidade.

 

Talvez por isso a crise, tão maldita quando vivida, seja também bem-vinda. Porque, sob o olhar simbólico, ela não é apenas perda. É o instante em que a existência nos convoca a abandonar o chumbo — pesado, repetitivo, inconsciente — e iniciar, com humildade, o verdadeiro trabalho da transmutação.

Todos nós carregamos, em algum grau, a fantasia de que a vida fluirá de maneira relativamente linear. Na mente, os projetos parecem rápidos, claros, coerentes. Mas, ao descer ao plano da realidade, percebemos algo diferente.

 

Existe uma distância considerável entre o que imaginamos e o que de fato se realiza.

 

Eu mesmo percebi isso de maneira mais concreta, por assim dizer, no início da minha carreira, quando trabalhei com psicologia organizacional. Em processos de consultoria, havia frequentemente uma diferença enorme entre o que as organizações pensavam sobre si mesmas — com muito planejamento — e o que realmente acontecia na prática.

 

Mesmo quando tudo era cuidadosamente planejado, no momento da execução surgiam resistências inesperadas, conflitos e fatores humanos que escapavam ao planejamento racional.

 

A vida psíquica é assim também.

 

Em certos momentos, aquilo que sustentava nossa identidade simplesmente deixa de fazer sentido. Surge, então, essa experiência estranha de não reconhecimento de si mesmo. E, paradoxalmente, pode ser exatamente aí que uma nova etapa da vida começa a se formar.

 

Reflexões Literárias e a Crise-eixo da Identidade

O próprio Freud foi um leitor ávido e manteve, ao longo da vida, uma relação intensa com os clássicos. Reconhecia que poetas e romancistas haviam intuído dimensões essenciais da vida psíquica muito antes de qualquer formalização científica. Admirava particularmente William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe e Fiódor Dostoiévski, nos quais via representações penetrantes dos conflitos humanos, da ambivalência moral e das zonas obscuras do desejo.

 

A literatura russa, em especial, muitas vezes soa pesada e densa porque não se propõe a entreter — propõe-se a compreender a condição humana. Talvez por isso autores como Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói e Anton Tchekhov continuem a ser lidos mais de um século depois.

 

Ela não contorna a dor humana; mergulha nela. Seus personagens são atravessados por conflitos internos intensos, dilemas morais agudos, crises existenciais profundas. Não é possível esquecer que o século XIX russo foi marcado por extrema pobreza, desigualdade social e repressão política — um terreno fértil para que a literatura se tornasse espaço de elaboração do sofrimento coletivo e individual.

 

Em Crime e Castigo, de Dostoiévski, Raskólnikov entra em colapso quando sua teoria sobre os “homens extraordinários” não resiste ao confronto com a realidade moral do crime. A crise que se instala não é apenas jurídica ou social — é ontológica, do ser. Sua identidade rui. E é justamente nessa ruína que surge a possibilidade de transformação.

 

Algo semelhante aparece em Tolstói, especialmente em A Morte de Ivan Ilyich. A doença funciona como uma verdadeira krisis — no sentido grego de julgamento e discernimento —, um momento em que toda a trajetória do personagem é posta em questão. Diante da morte, aquilo que parecia sucesso revela-se vazio; o que parecia sólido mostra-se frágil.

 

Na literatura inglesa, Virginia Woolf explora tensão semelhante em To the Lighthouse, onde os personagens vivem atravessados pelo peso das vidas possíveis que não foram escolhidas. A crise ali é silenciosa, quase imperceptível, mas profundamente estruturante: é a distância entre o que se vive e o que poderia ter sido.

 

E poucos escritores brasileiros perceberam essa dimensão com tanta ironia quanto Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Do alto de sua condição de defunto-autor, o narrador revisita a própria vida com um distanciamento quase clínico, revelando quanto das ambições humanas se sustentam em ilusões sociais, vaidades e autoenganos.

 

Essas narrativas literárias dialogam, por vezes,  com o que observamos na clínica.

 

Lembro-me de um paciente, na faixa dos 41 ou 42 anos. Estava sentado numa mesa de bar com cinco ou seis amigos — bebendo, fumando, falando de mulheres, repetindo um ritual que se estendia por décadas. Em determinado momento, simplesmente parou. Olhou ao redor. E percebeu que estava naquela mesma cena havia mais de vinte anos.

 

Os mesmos assuntos.

Os mesmos hábitos.

As mesmas noites.

 

Algo, então, deslocou-se dentro dele. O que antes era familiar tornou-se estranho. Percebeu que repetia uma vida que já não fazia sentido — e que os companheiros daquela mesa estavam na faixa dos vinte e poucos anos. Ele havia permanecido. O tempo, não.

 

A experiência veio como uma irrupção do inconsciente, um rasgo na continuidade automática da existência. Pouco tempo depois, surgiu um problema cardíaco que reforçou a sensação de limite e urgência — como se o corpo confirmasse aquilo que a psique já havia sinalizado.

 

Foi uma crise profunda. Mas também o início de uma reorganização.

 

Em termos junguianos, poderíamos dizer que ali ocorreu um movimento do Self — o centro regulador da totalidade psíquica — rompendo a identificação exclusiva com uma persona cristalizada e exigindo transformação. A crise não era mero colapso emocional; era um chamado à maturidade.

 

Por isso, quando alguém diz que está em crise, talvez esteja nomeando algo que os gregos já conheciam muito bem: o momento em que a vida interrompe a repetição inconsciente e exige discernimento. O instante em que a identidade antiga começa a rachar — e, nesse mesmo gesto, abre espaço para outra forma de ser.

A krisis é o momento em que a vida se abre.

 

O ponto em que a identidade antiga já não se sustenta — e uma nova começa, silenciosamente, a nascer.

De certa forma, a tarefa mais difícil — e mais madura — seja justamente essa: aceitar a travessia, discernir o que precisa morrer e acompanhar o nascimento daquilo que ainda está por vir.


Carlos Costa França

Comentários

  1. Caro Henrique, bom dia! Gratidão pelo presente!

    Acabo de ler atentamente essa extraordinária produção, e que privilégio ! Me fez lembrar do seu relato sobre um outro leitor, textos como este poderiam nos economizar anos de terapia. Valioso e elucidativo sobre o "tornar-se humano", condição dificilmente visitada pela grande maioria, não obstante tão adoecida.

    Já compartilhei !

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