A febre de ser você. Metacognição, escolhas e a coragem de mudar
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Fui a um dos parques da cidade de Canela. Lá do alto, a
vista é ampla, quase solene, e ao mesmo tempo profundamente relaxante. A
paisagem convida ao silêncio — não um silêncio vazio, mas aquele que organiza
por dentro. Embora o próprio parque com suas gerigonças metálicas tenha uma vocação dessemelhante.
Naquele momento, pensava em escrever sobre o Dia das
Mulheres. Veio-me Virginia Woolf como ignição e motor — e, junto dela, a
personagem que construo para o próximo livro: Aerdwen, sacerdotisa celta ligada
ao universo de Merlin, a Guardiã dos Véus de Carvalho.
E como estou lendo Brumas de Avalon, de Marrion Zimmer Bradley,
num ritmo lento, em parte meus sentidos ecoam para esse universo.
Lá no alto do parque, observar os detalhes era como folhear
uma página de Virginia Woolf: importava menos o que se via do que o que se
movia por dentro. Talvez por isso minha sacerdotisa tenha tanta interioridade —
ela não vive apenas os fatos, mas as marés invisíveis entre eles.
E, naquele instante, tudo dialogava: as pessoas, o lugar, a
paisagem — e algo em mim.
Aproveitando desse lugar da escrita, vamos ao Dia das Mulheres antecipado.
Seus silêncios não são ausência, mas profundidade. Alguns
silêncios são tempo de cura. Outros são o intervalo sagrado antes de uma
revelação.
Há personagens femininas verdadeiramente fortes que carregam
essa dupla natureza: delicadeza visível e fortaleza invisível. Não é ausência
de desejo — é consciência do próprio tempo.
Para ela existem certos encontros que não precisam ser forçados. Como
nas brumas antigas, ou nas manhãs frias da Serra Gaúcha, basta que duas
presenças reconheçam que respiram o mesmo ar. O resto encontra seu próprio
caminho.
E é talvez no Ogham — o antigo alfabeto das árvores celtas e oráculo —
que melhor se revela sua natureza.
Cada árvore carrega uma vibração. O carvalho fala de
estrutura e compromisso. A bétula anuncia recomeços silenciosos. O salgueiro
ensina a atravessar águas emocionais sem perder flexibilidade.
Ela reconhece esses arquétipos dentro de si. Ela acredita no
amor de alma, mas que exige os pés no chão para não virar delírio.
Há nela a diplomacia de quem busca harmonia não por fraqueza, mas por inteligência relacional. Cria pontes onde outros criariam muros. Ainda assim, sob essa busca de equilíbrio, vive uma intensidade quase oceânica que raramente sobe à superfície. Como se a alma tivesse aprendido que profundidade exige proteção.
O antigo ferimento ligado aos vínculos — aquilo que, na linguagem das estrelas, seria a marca de Chiron, e na sabedoria das árvores, Duir, o carvalho — não a tornou amarga, mas lúcida.
SENTIDOS RELACIONAIS
Ela sabe que relacionamentos são campos iniciáticos. Sabe que toda união verdadeira exige que antigas dores sejam reconhecidas antes de serem transcendidas. Por isso não se entrega pela metade. Por isso observa. Por isso espera.
No Ogham, sua trajetória se inscreveria em três movimentos:
1 - a árvore que busca a luz — símbolo de sua natureza sociável
e estética;
2 - árvore de raízes profundas — reflexo de sua intensidade
emocional e necessidade de lealdade;
3 - a árvore que floresce apenas na estação exata — imagem de
seu senso de tempo.
Ela não teme o amor. Teme o amor sem consciência.
Não evita o vínculo. Evita o vínculo que a diminua.
Talvez por isso seus silêncios sejam calibragem. Ela escuta
as estações internas antes de agir. Como quem consulta o oráculo não para
prever o futuro, mas para alinhar-se ao momento certo.
Na linguagem celta, diríamos que duas árvores podem crescer lado a lado sem disputar a mesma luz.
Parceria não é fusão — é aliança.
E talvez essa seja a sabedoria mais rara: compreender que o
tempo não é inimigo do desejo — é seu guardião. Por isso, no centro do círculo
que um dia inspiraria Camelot, ela planta três carvalhos.
Não são apenas árvores, mas sínteses vivas: estrutura,
emoção e consciência formando uma geometria invisível. Quem olha de fora vê
madeira e folhas. Quem sabe ler os sinais enxerga a arquitetura de uma mulher
que transformou ferida em discernimento e desejo em espera madura.
SONHOS DE UM DIA DE VERÃO
A escritora Vírginia Woolf não se interessava apenas pelos
fatos da vida, mas pelo movimento interno da consciência. Em Mrs Dalloway, uma
simples caminhada desencadeia memórias, escolhas não feitas, caminhos
abandonados. A narrativa não acontece apenas nos eventos — acontece no fluxo
invisível que os atravessa. Isso é lindo!
Nessa ida ao parque conversei bastante com um amigo que estudou música nUma universidade no Rio de Janeiro. Conversamos longamente: sobre arte, sobre os últimos acontecimentos mundiais — nem sempre agradáveis ( Puxa, necessitamos de mais vida. Não de Guerras! E como diz uma personagem minha, o saci Quiabo: "Sei não!")— e, sobretudo, sobre escolhas.
Meu amigo quase não foi. Brinquei que ele havia conseguido sair do “sarcófago” do sofá — uma prova bem-humorada de que até as pirâmides do Egito seriam capazes de operar ressurreições milagrosas. E que me dedicaria a estudos mais prolongados sobre sua mitologia para descobrir tais mistérios. Rimos.
Mas a mobilidade, o simples gesto de sair de casa,
introduziu outro elemento. Ampliou as possibilidades, abriu espaço para a
partilha, trouxe o movimento. E ele percebeu isso com surpresa serena: gostou de ter saído.
Não se tratava de negar o valor do recolhimento, mas de reconhecer que o deslocamento também é forma de expansão. O silêncio é necessário; o encontro também. A casa protege; o mundo provoca. O que me fez lembrar: essa tensão entre o abrigo e o desafio remete diretamente a Demian, de Hermann Hesse.
Na narrativa, o protagonista Emil Sinclair percebe a vida dividida entre dois universos: o mundo claro da ordem familiar e o mundo escuro das experiências externas. Porém, a verdadeira jornada em direção a si mesmo não está em escolher um lado, mas em transitar entre eles. Hesse nos mostra que a totalidade do ser exige integrar o que protege e o que provoca, entendendo que o crescimento nasce exatamente desse diálogo entre o recolhimento e o mundo.
Talvez a maturidade esteja justamente em saber alternar
esses estados — recolher-se sem se isolar, mover-se sem se dispersar.
Outro ponto: aceitar a finitude das possibilidades. Não é
tristeza, mas delimitação consciente. Não é empobrecimento, mas densidade.
Entre o parque, o silêncio e a conversa, ficou a sensação de
que crescer é compreender que não se pode habitar todos os caminhos — mas é
possível habitar plenamente aquele que se escolhe. De toda sorte é uma pausa. Claro, permeado por toda novela humana, que não deixa de existir.
Falávamos de como a vida é um exercício permanente de (a
rigor, uma leitura minha) conexão com aquilo que realmente importa. E de como
escolher implica, inevitavelmente, fechar portas.
Não basta o objeto belo.
Como talvez diria, Woolf: É preciso que ele corresponda a
uma necessidade real da alma.
Comentei — mais uma vez — que, ao me aposentar, gostaria de aprender um instrumento. É um desejo recorrente, desses que voltam como maré. Tenho muitos e múltiplos interesses; isso é, ao mesmo tempo, virtude e dispersão. Para a vida prática, pode ser um problema. Para um escritor, é uma riqueza inestimável — como talvez dissesse Octavio Paz, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e soube transformar a pluralidade de interesses em pensamento vivo.
O fato, porém, é simples e incontornável: não dá para fazer tudo. Ponto.
Ele então contou parte de sua própria história. Encantou-se primeiro pelo violão; depois passou a desejar uma Fender; mais tarde, uma Gibson, explicando minúcias que desconhecia sobre o assunto. Mais um aprendizado.
Quanto a Guitarra, havia uma sedução estética poderosa — o desenho, o acabamento, o brilho, a promessa silenciosa contida na forma. Mas, com o tempo, percebeu que fora movido mais pela beleza do objeto do que por um chamado interior mais legítimo.
Descobriu também que violão e guitarra exigem disciplinas distintas — e que a guitarra, em especial, pede rigor técnico, constância quase atlética (e quando ele fala, você sente que ossos dos dedos podem se partir de tanto treino. A sorte é que o fantasma da ópera não se abala).
Enquanto ele falava, eu me reconhecia. Também tenho grande sensibilidade à beleza — à forma bem resolvida, ao detalhe preciso, ao brilho que parece conter um destino. Intuí que a guitarra poderia ser, para mim, um “canto de sereia”: uma atração legítima, sem dúvida, mas que precisaria ser examinada com cuidado para discernir se correspondia a uma verdade interior ou apenas a um fascínio estético.
Ele concluiu que o violão era mais coerente com sua
realidade — sobretudo interna, acredito. A escolha trouxe um certo foco. E o
foco, silenciosamente, trouxe paz.
Não desisti. Não fechei essa porta. Está apenas semicerrada.
Ainda passa uma certa luz pela soleira. Será a do fantasma da ópera? Quem sabe.
Tenho tempo.
O segredo, afinal, talvez esteja em não reagir cegamente, como se vivêssemos no piloto automático, mas em observar a própria mente em tempo real. Interromper o fluxo automático dos pensamentos. Questionar as reações emocionais imediatas. Ter a coragem de atualizar crenças, em vez de defendê-las a qualquer custo.
Esse processo chama-se metacognição — a capacidade de pensar
sobre o próprio pensamento. Ele traz consigo uma dose inevitável de
desconforto, porque confrontar os próprios padrões raramente é simples. E, em
verdade, poucos se dispõem a fazê-lo. Talvez porque escolher e ir contra um padrão
estabelecido — seja um instrumento, seja um caminho — implique sempre renunciar
a outros e dá trabalho. E isso, mais do que técnica, exige maturidade interior.
E esse fluxo não para: continua agora, enquanto pensamos,
enquanto escrevo e sinto o frio leve no rosto, aqui, por exemplo, na cidade de
Gramado, mesmo em meio a claridade solar, que já anuncia que o outono virá em
breve.
Isso me fez lembrar das portas que fechei. Um dia quis tirar
brevê de piloto. Era um sonho antigo. Mas compreendi que não cabia na estrutura
da minha vida. Havia outras prioridades. Desisti. E outras desistências vieram
depois.
Fechar portas é um gesto de maturidade. Não podemos manter
todas abertas indefinidamente. Quando escolhemos, organizamos a energia — e,
paradoxalmente, é isso que traz fluidez.
O tema das “vidas não vividas”, tão presente na obra de Virginia Woolf, ilumina essa reflexão. Um dos eixos mais fortes de sua literatura é justamente o peso das possibilidades que não foram escolhidas. Em To the Lighthouse, percebe-se uma tensão constante entre desejo e realidade, entre o que se sonha e o que, de fato, se constrói.
Fechar portas, nesse sentido, não é desistir. É aceitar que viver exige forma. Cada escolha desenha um caminho e silencia outros. Virginia Woolf lembra que toda decisão traz um luto discreto pelas vidas não vividas — mas também a chance de estar inteiro naquilo que, afinal, foi escolhido.
E foi então que, rindo, contei ao meu amigo: naquele mesmo dia fechei outra porta — a do quarto que separa meu refúgio do mundo de Ônix, meu gato preto adorável.
Ônix não pode mais entrar à noite. A “gatoapneia” se
agravou. O tratamento é difícil, porque os gatos já nascem investidos de uma
metafísica da fofura: parecem chegar ao mundo com um perdão prévio para todas
as infrações futuras.
Há noites em que ele dorme no meu braço, ronronando como se
sustentasse o cosmos. O tempo suspende. Mas, quando desperta, desperta também a
criação (talvez seja a ressonância de outro universo sendo criado em algum
lugar do infinito): miados, saltos, objetos ao chão — uma celebração dionisíaca
da própria existência. De querubim a pequeno peste em segundos.
Às vezes penso que Ônix encarna, à sua maneira felina, a
antiga filosofia cínica da Grécia. Como um descendente doméstico de Diógenes de
Sinope, ele ignora convenções, despreza horários, dorme quando quer, come
quando decide. Exige livre acesso à sua “sachêlândia” particular, não reconhece
autoridade além do próprio instinto, combate o imperialismo das portas fechadas
e reivindica, com altivez, que a água da torneira corra exatamente no instante
em que lhe convém.
E quando resolve transformar meu ombro em torre andante, não
há negociação possível: fixa o olhar, calcula a distância, prepara o salto — e
executa.
Se encontra uma regra, testa; se encontra um limite, escala;
se encontra silêncio, rompe-o com um miado inquisidor. Vive segundo a natureza
— a dele — com uma coerência que muitos filósofos talvez invejassem.
Ainda assim, são criaturas maravilhosas. Há algo de
arquetípico neles, de quase mítico. Não é à toa que se poderia construir toda
uma cosmogonia felina — como iniciei escrevendo em Os Gatos de Alfheim. No
mais, esses seres atravessam o cotidiano como pequenos sábios indomáveis,
lembrando-nos, com leveza e ironia, que a liberdade começa onde cessam as
convenções desnecessárias.
A porta fechada tornou-se, então, uma fronteira entre o
ascetismo necessário e o caos criativo. Não é rejeição; é medida. Um pequeno
exercício estoico contra um grande impulso cínico de quatro patas. Quem tem
gato entende: amar também é estabelecer limites. E, às vezes, a liberdade
precisa dormir do lado de fora para que a consciência possa repousar.
E talvez seja isso: amar não é abolir limites. É conviver
com eles.
Inclusive quando a filosofia mia do lado de fora.
Pensando bem, Ônix — meu gato preto — transformou-se numa síntese inesperada de filosofia prática. Ao fechar a porta do quarto para preservar o sono, achei que estava apenas resolvendo uma questão doméstica. Mas, como quase tudo que é simples, o gesto escondia camadas.
Ele encarna, com naturalidade felina, três ideias centrais do cinismo antigo.
A primeira é a anádeia — a “descaradez” filosófica, não ter
pudor. Para pensadores como Diogenes de Sinope, significava viver sem se curvar
às convenções. Ônix atravessa a madrugada como se fosse meio-dia em Atenas.
Derruba objetos com solenidade experimental. Não pede desculpas, não se
embaraça. Não negocia sua natureza. Ele simplesmente é.
A segunda é a autarkeia— autossuficiência. O ideal cínico
era precisar de pouco para viver bem. Diógenes tinha um barril (Jarro imenso);
Ônix precisa de uma caixa, um canto e, eventualmente, meu braço, meu ombro.
Fora isso, basta-se. Dorme sozinho, caça sombras, contempla o nada com uma
seriedade quase metafísica. Sua independência lembra que complicamos demais o
que poderia ser essencial.
A terceira é a apatheia — liberdade diante das paixões
desordenadas. Aqui está a ironia: sou eu quem precisa dela quando fecho a porta
e escuto o miado do lado de fora. Ele protesta brevemente (tentando abria a porta
mexendo na fechadura), depois aceita. Sem drama. Sem narrativa trágica. Apenas
adaptação.
Essa pequena cena doméstica conversa com algo maior. Certa
vez, uma paciente me perguntou se eu estava sempre bem, sempre feliz. Respondi naturalmente
que não. A questão não é estar permanentemente bem; é escolher com consciência.
É aceitar que viver implica renúncias lúcidas — como fechar portas, inclusive
as mais macias.
Habitar o tempo é essencial, como aliás, escrevi no texto
anterior. Quando realmente habitamos o
tempo, a vida se presentifica. A conexão com o que está diante de nós se
intensifica. Caso contrário, a mente nos arrasta para comparações, carências e
fantasias de outras possibilidades. Inteireza não é euforia; é presença.
Virginia Woolf já desmontava a ideia de felicidade
constante. Seus personagens vivem epifanias breves — lampejos de sentido —
intercalados com silêncio, dúvida, oscilação. Isso não é falha. É condição
humana.
A polaridade é natural: depois de um ápice pode vir um vale.
Como ensinava Marcus Aurelius, a qualidade dos nossos pensamentos molda a forma
como atravessamos essas variações. Não controlamos os eventos, mas podemos
aprender a conduzir a mente.
E, como lembrava Aristóteles, virtude não é discurso — é
prática. Exercício diário. Um treino silencioso entre impulso e medida. Entre
deixar o gato entrar e fechar a porta.
Quando melhoramos a qualidade do pensamento, melhoramos a
qualidade da experiência. A inteireza não depende do entorno — embora ele possa
favorecer. A fonte é interna, repetem os sábios em épocas distintas em todas as culturas.
Por exemplo, disse para minha paciente, morar em Gramado
ajuda. A arquitetura organizada, o clima, as ruas convidam à contemplação.
Caminhar deixa de ser deslocamento e vira experiência. Mas talvez o ponto mais
maduro seja este: educar o olhar para reconhecer a beleza sem depender dela.
Quando o olhar amadurece, até o ordinário ganha densidade — inclusive um miado
noturno.
Sinto que saio de uma infância filosófica para uma
pré-adolescência reflexiva (claro, fase um tanto rebelde). Ainda depuro ideias,
releio, estudo. O caminho não é um meio; é a própria construção.
E, no fundo, tudo retorna ao mesmo lugar: o sol que nasce
não está fora. Ele nasce na febre de ser você — nas escolhas que assume, nas
portas que fecha, nos vínculos que honra e no tempo que aprende a respeitar a
si mesmos e aos outros.
Até mesmo quando a filosofia tem quatro patas e prefere a
madrugada.



Bom dia caro Henrique!
ResponderExcluirQue presente, e quanta presença ! Mais uma bela produção (para não fugir à regra) transbordante de riqueza e nutrição para a essência humana. Que seu Orí continue sendo muito abençoando com toda essa genialidade, arte, leveza e criatividade que o texto entrega, e que já compartilhei. Gratidão!