A VIDA É LUTA. NÃO LUTO
Essa experiência textual nasceu de conversas, de encontros, de reflexões e do robusto tabuleiro do inconsciente.
De momentos em que a palavra deixa de ser apenas palavra e alguma coisa acontece no setting psicoterapêutico. E foi nesse contexto, entre uma fala e outra, entre aquilo que eu dizia e aquilo que se devolvia, que
nasceu uma frase que ganhou alma e agora encarna em texto:
A Vida é Luta. Não Luto
Verbalizei:
— Vou escrever sobre isso.
Ia fazer antes do dia 27 de agosto, Dia do Psicólogo.
Contudo, não deu...
Quem é psicólogo sabe que muita coisa
interessante, importante, criativa, resolutiva e, por vezes, verdadeiramente
reparadora acontece num setting clínico de psicologia. Ponto.
No meu caso, como escritor, parte desse material criativo
(que pode ser desenvolvido como pensamento e riqueza interna) acaba fazendo um
funeral no cemitério das ideias. Algumas coisas consigo ressuscitar.
Para o restante, recorro àquilo que gosto de chamar, meio seriamente, de Fé Psicanalítica: confiar que o inconsciente, em algum momento, devolverá alguma coisa minimamente aproveitável.
A sorte também foi que saí prometendo que ia escrever sobre a frase.
Enfim, abandonar promessas é difícil.
E de fato, havia outro texto à minha frente — ou melhor, atrás de mim — esperando nascer. Um texto sobre Inteligência Artificial, que tinha tudo para encarnar textualmente antes deste, com nome no cartório, CPF e tudo mais.
Para não ser um parto a fórceps, vou dar uma palhinha:
“I.A. – O Maravilhoso Perigoso.”
Mas a escrita tem suas próprias leis. Sob as reinações da
criatividade e por algum carrossel voador de acontecimentos, ela vai
estabelecendo ligações que não planejamos.
Também ocorreu...
Ouvi, nesses dias, e não conhecia, uma música de Luiz Marenco
(músico gaúcho) que traz um tanto essa ideia: “Réstia de Vida”.
O que primeiro me chamou a atenção foi justamente aquilo
que, em meu trabalho, tenho chamado de Ócio Responsivo - Lugares-instantes: momentos em
que um lugar, uma paisagem ou uma experiência condensam um estado de existência
(diga-se, como tantas músicas gauchescas) e foi isso que me atraiu.
Certamente, uma oferta poética para, de algum modo, tocar e
talvez sanar as feridas da vida (o desamparo existencial). Claro, vou deixar o vídeo aqui.
“Talvez seja um cheiro de mato
essa réstia de vida que me leva a lutar
Nesta terra onde encontro a pureza
vou largando as tristezas que somei neste andar.”
Nesse ponto devo afirmar: A vida é luta, mas não precisa ser guerra, justamente para evitar outras interpretações. Essas aproximações são contraprodutivas.
É aprender a caminhar entre aquilo que nasce e aquilo que desaparece; acolher a alegria sem possuí-la e atravessar a tristeza sem tornar-se ela. Tudo passa — e nós passamos com tudo, em permanente
transformação, ensina o Budismo.
Aqui vou fazer uma digressão um pouco longa, me perdoem...
Bem, o sujeito, no caso eu, está dizendo que a vida é luta e não luto, mas também não é guerra. Entretanto, existindo na vida guerra e luto... Complica, não é mesmo pessoal?
Veio à lembrança um entardecer em Gramado. Meses antes.
Eu estava diante de um lago. Havia patos e tartarugas submersas, que por vezes subia acima da lâmina d’agua. O dia começava a se recolher e eu assistia àquilo que gosto de chamar de O Ocaso em Gramado.
O céu mudava lentamente, a paisagem parecia suspensa entre o dia e a noite, e havia uma lua nova lá em cima, com os seus cornos voltados para o leste. Portanto,
uma lua nova.
A lua se refletia no lago.
E tudo parecia acontecer ao mesmo tempo: a água, os animais, a luz que desaparecia, a lua que surgia, o silêncio daquele instante. Era como se o fim do dia não fosse exatamente um fim. O ocaso tinha alguma coisa de começo.
Não me lembro exatamente se foi em junho ou julho. Talvez isso nem seja tão importante. Algumas experiências não guardam a precisão da data; guardam a atmosfera. Permanecem como uma espécie de impressão na memória, causando, como se diz hoje em dia.
Naquele período, havia tido um falecimento recente.
Tinha falecido o rapaz da Kombi, uma dessas pessoas que, de algum modo, acabam fazendo parte da paisagem humana de um lugar. Inclusive fiz um texto relatando dois dos seus aniversários um pouco antes: de trabalho
na kombi e de casamento, 40 anos.
Ele me contava muitas histórias de Gramado. Histórias que talvez nunca fossem parar em livros, mas
que pertenciam à memória viva da cidade. Ele tinha uma maneira própria de contar, de guardar acontecimentos, pessoas, episódios. E sobretudo uma visão simples, direta e afetuosa.
O desparecimento de alguém carrega histórias que produz uma ausência diferente. Não desaparece apenas uma pessoa. Desaparecem também as histórias que somente aquela pessoa poderia contar daquela maneira.
E talvez seja por isso que algumas palavras insistam tanto em nascer.
Porque a vida continua produzindo histórias mesmo diante da morte.
Foi nesse emaranhado de acontecimentos, lembranças, conversas e imagens que a frase começou a adquirir uma dimensão maior:
A vida é luta, não luto.
Mas havia ainda outra coisa acontecendo.
Os fantasmas de outros textos.
Texto que nem sequer haviam nascido já estavam arrastando suas correntes.
Havia a questão do tempo, da oportunidade, das circunstâncias. E havia também aquilo que, para mim, é fundamental em qualquer texto:
Os links. Um texto precisa estabelecer ligações sinceras e afetuosas.
Precisa encontrar suas pontes, suas correspondências, suas imagens, seus acontecimentos. Precisa fazer com que uma coisa conduza à outra. Tenha uma vida, uma biogênese textual. Uma veia das letras, sangue e terra onde a alma possa se assentar.
Os pacientes me levavam aos meus textos — e eu precisava lutar pela música interna que cada um carregava,.
E assim as coisas vão acontecendo.
Os textos me levavam de volta à lembrança daquele lago.
O lago me conduzia ao entardecer.
O entardecer, à lua.
E a lua me devolvia às antigas imagens de passagem, renascimento e morte.
Era uma lua nova surgindo no entardecer.
Um daqueles instantes em que o mundo parece reestabelecer, por alguns segundos, suas próprias leis.
E era, sem dúvida, um belíssimo entardecer.
Talvez o mais belo que já vi em Gramado.
Mas não era apenas uma paisagem que eu havia guardado na memória.
Era um lugar-instante.
E, como acontece com certos lugares-instantes, ele continuava acontecendo dentro de mim muito depois de ter terminado.
As diversas lutas das histórias do rapaz da Kombi. Vivas ainda.
E as histórias me devolviam à vida em meio as minhas próprias lutas, as dos pacientes, as das pessoas envolta.
Era como se alma do texto estivesse se escrevendo antes de mim.
Até que, em determinado momento, não houve mais como ignorá-lo.
Eu disse, quase como quem se rende a uma insistência:
É hoje.
Mas devo confessar uma outra coisa, apenas para apresentar a totalidade. O que acredito possa ser útil para algumas conclusões posteriores:
Mas há também, neste texto, algo do cavalo de Enrolados, o filme da Disney — essa presença que, embora aparentemente deslocada, participa da aventura e lhe confere uma camada de humor e humanidade. No meu caso, foi o gato Ônix quem assumiu esse papel.
Quase arrombando a porta, obrigou-me a abri-la. Entrou, circulou pelo quarto e depois foi embora, como se tivesse cumprido uma missão. Algum tempo mais tarde, porém, subiu na cama e começou a
bater com a patinha na minha cabeça. Acordei e perdi o sono. Já não conseguia dormir, enquanto ele insistia em partir para a sua “Sacheilândia”. Fui, então, forçado a me levantar.
E, tendo perdido o sono num sábado nublado em Gramado, o que me restava fazer? Escrever.
Assim, a realidade também se infiltra no texto, pontuando-o com seus pequenos acontecimentos, acasos e interrupções. É nesse cruzamento entre o imaginado e o vivido que surge também O Gato de Jung: uma presença felina, quase simbólica, que atravessa a noite, interrompe o repouso e acaba conduzindo o escritor à página.
E talvez a literatura (a vida) seja, em alguma medida, a arte de perceber quando uma experiência encontrou finalmente os seus links — quando uma conversa encontra uma lembrança, uma paisagem encontra uma mudança, um desaparecimento encontra uma história, uma história encontra uma pergunta e, finalmente, tudo isso encontra uma frase.
Mas vamos seguindo...
No meu caso, a frase estava esperando:
A vida é luta, não luto.
Não porque a vida desconheça o luto.
Ao contrário.
Talvez porque conheça o luto tão profundamente que precise, diante dele, afirmar a sua própria continuidade.
A vida luta.
Mas é preciso distinguir luta de guerra.
A guerra pertence à lógica da destruição: nela, vencer significa eliminar o outro, reduzir a existência à oposição, transformar a diferença em ameaça e a sobrevivência em aniquilação.
A luta, porém, pode ser outra coisa.
Pode ser resistência sem ódio, enfrentamento sem destruição, tensão sem extermínio.
A vida não é guerra.
A vida é força de transformação.
Nietzsche compreendeu que existir não significa escapar ao sofrimento, mas encontrar forças para atravessá-lo e, ainda assim, dizer sim à vida. Não se trata de romantizar a dor, mas de recusá-la como última palavra.
Há uma potência que nasce justamente da capacidade de transformar aquilo que
nos fere em matéria de criação.
Jung, por sua vez, percebeu que aquilo que procuramos expulsar de nós mesmos frequentemente retorna por outras vias. A sombra, a perda, a ruptura, o conflito e a própria finitude participam do processo pelo
qual nos tornamos quem somos.
A individuação não é uma fuga das contradições, mas a lenta construção de uma relação mais inteira com elas.
Talvez por isso Eros seja tão importante.
Não apenas como desejo, mas como força de ligação.
Eros aproxima o que se separou, cria vínculos onde havia fragmentação, produz sentido onde havia dispersão. Se a guerra destrói para afirmar uma vitória, Eros cria para afirmar a continuidade.
É a força que diz: ainda há algo que pode nascer.
A lua nova no entardecer de Gramado se espelha na água, enquanto tartaruguinhas, surgidas do nada — como surgem coisas do inconsciente— cortam sua superfície, e os patos seguem em sua faina silenciosa.
Lua, água, céu, gravidade e movimento se encontram num mesmo instante: a fragilidade do que passa, o espelhamento do que somos e os círculos concêntricos que revelam, na água, o fluxo incessante da vida.
É possível encontrar essa mesma tensão na poesia.
Drummond escreveu diante da pedra, da perda e das ruínas, procurando aquilo que ainda poderia resistir. Cecília Meireles fez da impermanência uma matéria de beleza. Rilke aproximou-se da morte para compreender melhor a vida.
Neruda transformou a ausência, o amor e a experiência histórica em linguagem. Pessoa fez da fragmentação uma multiplicidade capaz de continuar existindo.
Talvez seja essa a estranha vocação da poesia:
quando alguma coisa termina, ela procura a palavra que ainda não terminou.
Quando a vida se vê diante da morte, inventa memória.
Quando encontra a perda, cria significado.
Quando sofre a ruptura, procura ligação.
A vida luta.
Mas luta para continuar criando, não para destruir.
E é justamente aí que ela se distancia da guerra.
Porque a guerra quer vencer.
A vida quer continuar.
A guerra precisa de um inimigo.
A vida precisa de um amanhã.
O luto nos ensina que alguma coisa acabou.
A luta nos lembra que nem tudo acabou.
E aqui não posso deixar de mencionar minhas próprias
personagens, sobretudo da saga de O Culto do Lobo, Urtra – A Feiticeira do Vale dos Lobos; Quando Dormem as Feiticeiras; e Itangra – O segundo Véu das Lobas.
Como escritor, procuro revelar nas personagens não apenas aquilo que se vê, mas também as sombras que as habitam. Esta saga não é simplesmente uma história de bruxas na Idade Média; é uma narrativa sobre o mistério de ser humano, sobre os abismos da alma e as forças ancestrais que continuam a nos atravessar.
Certamente por isso, ao escrever, não consiga silenciar o psicólogo, o pensador e o estudioso das mitologias — essas vozes que, entre símbolos e lendas, buscam o sentido oculto por trás de cada personagem. Talvez seja por isso que Urtra permaneça.
Não porque tenha vencido a vida.
Mas porque aprendeu a permanecer diante dela.
Há personagens que atravessam a noite para encontrar a luz.
Urtra faz outra coisa: atravessa a noite para descobrir que a própria escuridão também faz parte da paisagem.
É aí que sua história toca Camus.
O absurdo não é simplesmente o sofrimento. É o encontro entre aquilo que desejamos que a vida seja e aquilo que ela, obstinadamente, é.
A revolta não consista em destruir essa realidade, mas em permanecer diante dela sem permitir
que ela nos destrua.
Urtra não precisa vencer o lobo.
Precisa aprender a caminhar com ele.
Não precisa eliminar a sombra.
Precisa reconhecê-la.
Não precisa transformar a existência em guerra.
Precisa descobrir uma forma de continuar vivendo dentro de suas contradições.
Talvez seja essa a verdadeira passagem entre Urtra e Itangra: da sobrevivência à continuidade.
Porque há momentos em que sobreviver é apenas conseguir não cair.
Mas chega um instante em que isso já não basta.
É preciso voltar a desejar.
Voltar a amar.
Voltar a imaginar.
Voltar a criar.
É nesse ponto que Eros reaparece.
Não como uma promessa de felicidade, mas como a pequena força que ainda estabelece uma ligação entre o sujeito e o mundo.
Uma palavra.
Um olhar.
Uma lembrança.
Uma paisagem.
A lua sobre a água.
As pequenas tartarugas rompendo a superfície sem aviso.
Os círculos concêntricos que se afastam do ponto onde algo tocou a água.
Talvez seja isso que a vida faça quando tudo parece imóvel: ela toca a superfície.
E produz movimento.
Camus chamou de revolta essa recusa em abandonar a existência diante do absurdo. Freud nos oferece outra linguagem para pensar o mesmo território psíquico: Eros, a força de ligação e investimento, em tensão com aquilo que desagrega e reduz.
Entre ambos está o ser humano.
Nem herói absoluto, nem vítima absoluta.
Apenas alguém tentando descobrir quanto da realidade consegue suportar, quanto dela consegue transformar e quanto precisa, simplesmente, aprender a carregar.
É por isso que a vida não pode ser guerra.
A guerra precisa destruir para afirmar-se.
A vida precisa criar para continuar.
E talvez a verdadeira luta seja justamente essa:
não lutar contra a vida, mas lutar para permanecer ligado a ela.
Bem, nesse ponto, tenho que fazer uma ressalva importante: Freud nos obriga a olhar também para o outro lado.
Se Eros é a força que liga, investe, cria e prolonga a vida, a pulsão de morte aponta para aquilo que desliga, repete, desagrega e busca o retorno a uma condição de menor tensão. Não se trata, porém, de uma vontade consciente de morrer. Muitas vezes, aquilo que parece recusa da vida pode ser,
paradoxalmente, uma tentativa de adequação a uma realidade que se tornou pesada demais para ser assimilada.
Há momentos em que viver parece exigir mais do que o psiquismo consegue sustentar.
Então o sujeito reduz o mundo.
Desinveste.
Recolhe-se.
Repete.
E aquilo que, de fora, pode parecer desistência talvez seja uma forma rudimentar de proteção diante do excesso.
Quando a vida ganha um peso indomesticável, o psiquismo procura alguma maneira de domesticar o peso — ainda que, para isso, precise empobrecer a própria experiência.
É aí que Eros e a pulsão de morte deixam de parecer conceitos abstratos.
Um movimento procura ligar-se novamente à vida.
O outro parece dizer: reduza a tensão, diminua o investimento, não sinta tanto.
Entre ambos, existe o sujeito, tentando sobreviver àquilo que ainda não consegue transformar.
Talvez a clínica comece justamente nesse ponto:
não obrigar alguém a amar a vida quando ela se tornou
insuportável, mas ajudá-lo, pouco a pouco, a encontrar uma forma de
habitá-la que seja possível.
Porque, às vezes, aquilo que chamamos de “pulsão de morte” é também o nome que damos à exaustão de um organismo diante de uma realidade que
ultrapassou seus recursos de elaboração.
Eros não precisa vencer Thanatos.
Precisa apenas encontrar uma brecha.
Um vínculo.
Uma palavra.
Um pequeno desejo.
Uma tartaruguinha cortando, inesperadamente, a lâmina d’água.
Um círculo que se abre na superfície.
E, depois dele, outro.
E outro.
Até que a água volte a lembrar ao sujeito aquilo que a própria vida insiste em repetir:
mesmo quando parece imóvel, alguma coisa continua em movimento.
Como escritor, tento trazer todos esses aspectos e dimensões as personagens. Não é uma simples história de bruxas na Idade Média, é uma
história humana.
Talvez seja por isso que Urtra permaneça.
Não porque tenha vencido a vida.
Mas porque aprendeu a permanecer diante dela.
Há personagens que atravessam a noite para encontrar a luz. Urtra parece fazer outra coisa: atravessa a noite para descobrir que a própria escuridão também faz parte da paisagem.
É aí que sua história toca Camus.
O absurdo não é simplesmente o sofrimento. É o encontro
entre aquilo que desejamos que a vida seja e aquilo que ela, obstinadamente, é.
E talvez a revolta não consista em destruir essa realidade, mas em permanecer diante dela sem permitir que ela nos destrua.
Urtra não precisa vencer o lobo.
Precisa aprender a caminhar com ele.
Não precisa eliminar a sombra.
Precisa reconhecê-la.
Não precisa transformar a existência em guerra.
Precisa descobrir uma forma de continuar vivendo dentro de suas contradições.
Talvez seja essa a verdadeira passagem entre Urtra e Itangra: da sobrevivência à continuidade.
Porque há momentos em que sobreviver é apenas conseguir não cair.
Mas chega um instante em que isso já não basta.
É preciso voltar a desejar.
Voltar a amar.
Voltar a imaginar.
Voltar a criar.
É nesse ponto que Eros reaparece.
Não como uma promessa de felicidade, mas como a pequena força que ainda estabelece uma ligação entre o sujeito e o mundo.
Uma palavra.
Um olhar.
Uma lembrança.
Uma paisagem.
A lua sobre a água.
As pequenas tartarugas rompendo a superfície sem aviso.
Os círculos concêntricos que se afastam do ponto onde algo tocou a água.
Talvez seja isso que a vida faça quando tudo parece imóvel:
ela toca a superfície.
E produz movimento.
Camus chamou de revolta essa recusa em abandonar a existência diante do absurdo. Freud nos oferece outra linguagem para pensar o mesmo território psíquico: Eros, a força de ligação e investimento, em tensão com aquilo que desagrega e reduz.
Entre ambos está o ser humano.
Nem herói absoluto, nem vítima absoluta.
Apenas alguém tentando descobrir quanto da realidade consegue suportar, quanto dela consegue transformar e quanto precisa, simplesmente, aprender a carregar.
É por isso que a vida não pode ser guerra.
A guerra precisa destruir para afirmar-se.
A vida precisa criar para continuar.
E talvez a verdadeira luta seja justamente essa: não lutar contra a vida, mas lutar para permanecer ligado a ela.
A Lâmina d’água
Talvez eu possa terminar onde comecei simbolicamente: diante de uma lâmina d’água.Há, em O Breve Voo da Libélula (Amazon livros) — Lâmina d’água, uma
passagem que talvez ajude a concluir esta reflexão.
Sereno procura Sisudo no Cemitério dos Vivos Mais Mortos.
O nome, por si só, já contém uma contradição. Ali estão
aqueles que ainda respiram, mas que transformaram uma determinada ideia de
destino em sentença. Amarrados às próprias convicções, deixaram de imaginar que
a existência pudesse assumir outra forma.
Sereno tenta libertar o amigo.
Sisudo recusa.
Não porque desconheça a vida, mas porque passou a acreditar
que conhecê-la significa aceitar uma única possibilidade para ela.
E talvez esteja aí o verdadeiro significado daquele
cemitério.
Não é o lugar onde os vivos morrem. É o lugar onde as
possibilidades são enterradas.
Há uma diferença enorme entre aceitar a finitude e
transformar-se em prisioneiro dela.
A primeira pertence à condição humana.
A segunda pode ser uma construção.
Foi nesse ponto que Sereno compreendeu algo que não dizia
respeito apenas a Sisudo. Algumas pessoas não precisam ser retiradas de um
abismo físico; precisam, antes, descobrir que existe mais de uma maneira de
olhar para o abismo.
A lâmina d’água talvez seja justamente essa fronteira.
Não uma separação absoluta entre vida e morte, mas uma
superfície de passagem.
Abaixo dela, há silêncio, profundidade, desconhecido.
Acima, há ar.
E entre os dois existe apenas uma fina camada que pode
parecer definitiva até o instante em que alguma coisa a rompe.
Uma tartaruguinha surge.
Respira.
Desaparece.
Volta.
Talvez a imagem seja suficiente.
Porque a transformação raramente chega como um acontecimento
grandioso. Muitas vezes, começa assim: um pequeno deslocamento na superfície de
uma existência que parecia imóvel.
É por isso que a história de Sereno me interessa tanto.
Ele parte para salvar o outro e termina encontrando uma
verdade sobre si mesmo. Descobre que ajudar não significa necessariamente
convencer. Às vezes significa apenas permanecer fiel àquilo que se reconheceu
como verdadeiro, mesmo quando o outro ainda não consegue recebê-lo.
No final, ele encontra a Lei do Amor.
Carlos Costa França



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