I.A. — O MARAVILHOSO PERIGOSO
Esta experiência textual nasce de um passado recente,
quando uma viagem no tempo se tornou obrigatória. Tive a ideia, porém não a
presença. Prevaleceram fatores demasiadamente humanos: a rotina, as
prioridades, o tédio diante do tema e outros vieses talvez mais psicológicos,
literários — e, por isso mesmo, mais interessantes.
Contudo a temática permaneceu ali como um ser vivo, à espera
de alguma coisa que lhe faltava: um Homem de Lata no País de Oz, precisando de
um coração.
Ao mesmo tempo, algo desse coração pulsava em cabos de
fibra óptica que atravessam os oceanos, num mundo que parece possuir mais links
do que o próprio coração humano. Já os satélites, como anjos metálicos, milhares deles, não
reagiam: apenas contemplavam, sem desespero, o desespero humano.
Não bastava. E havia feito uma promessa...
Foi então que, sem apresentação, surpresa ou
incredulidade, veio Machado.
Sim, Machado de Assis.
Em 16 de outubro de 1892, na série A Semana, ele
escreveu sobre a chegada do bonde elétrico ao Rio de Janeiro. Quase 134 anos
depois, sua crônica chega até aqui. Como uma Máquina do Tempo feita de tinta e papel.
Seria esse o coração do Homem de Lata?
Ainda não.
A estrada dos tijolos amarelos precisava de rastros, de
passagem, de experiência. Precisa de gente!
Machado transforma a novidade tecnológica dos primeiros
bondes elétricos numa pequena cena filosófica e satírica. E o extraordinário é
que não se deixa simplesmente maravilhar pela máquina. Observa o homem diante
dela.
Machado era um gênio. Particularmente, sempre me pareceu
possuir uma capacidade cognitiva muito acima do comum. Mas deixemos isso de
lado.
Na crônica, ele conta que encontrou um dos novos bondes
elétricos enquanto seguia num bonde comum:
“Ontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bonde
comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus
olhos viam andar.”
Mas aquilo que primeiro lhe chama a atenção não é a
eletricidade.
É o cocheiro.
“Para não mentir, direi que o que me impressionou, antes
da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima
da gente que ia no meu bonde, com um grande ar de superioridade. Posto não
fosse feio, não eram as prendas físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se
nele a convicção de que inventara, não só o bonde elétrico, mas a própria
eletricidade. Não é meu ofício censurar essas meias glórias, ou glórias de
empréstimo, como lhe queiram chamar espíritos vadios. As glórias de empréstimo,
se não valem tanto como as de plena propriedade, merecem sempre algumas mostras
de simpatia. Para que arrancar um homem a essa agradável sensação? Que tenho
para lhe dar em troca?”
Coloco a seguir o link para ler a crônica inteira, recomendo por demais:
É uma observação psicológica extraordinária.
O cocheiro não inventou o bonde e muito menos a
eletricidade. Mas, sentado no comando daquela novidade, parece apropriar-se
subjetivamente de sua potência. Seu olhar passa “por cima” dos demais. O poder
da máquina converte-se, psicologicamente, em poder do operador.
Machado encontra uma expressão magnífica para isso:
glórias de empréstimo.
Mais de um século depois, ela parece escrita para nós.
Uma pessoa pode produzir em segundos um texto, uma
imagem, uma análise, uma tradução ou um programa que antes exigiria
determinadas competências. Mas existe aí uma pergunta inevitável: a capacidade
disponibilizada pela ferramenta tornou-se uma capacidade efetivamente adquirida
por quem a utiliza?
Produzo um excelente texto com inteligência artificial:
tornei-me escritor?
Recebo uma interpretação sofisticada: compreendi?
Obtenho uma resposta brilhante: aprendi?
A máquina realiza em segundos aquilo que eu não saberia
fazer sozinho: essa competência passou a ser minha?
Não necessariamente.
Aqui surge uma forma contemporânea da glória de
empréstimo. Não apenas delegamos determinada faculdade à máquina; podemos
acabar incorporando imaginariamente como nossa a competência dela.
Machado, entretanto, não condena brutalmente o cocheiro.
Há uma delicadeza extraordinária em sua ironia:
“Para que arrancar um homem a essa agradável sensação?
Que tenho para lhe dar em troca?”
Ele reconhece a vaidade humana, desmonta-a e, de certo
modo, quase a perdoa.
Depois, na mesma crônica, os burros que puxavam os bondes
percebem que a eletricidade poderá torná-los desnecessários. O bonde deixa
então de ser apenas máquina e passa a representar também substituição. Para
alguns, a inovação significa progresso; para outros, libertação de um trabalho
penoso; para outros ainda, obsolescência.
E surge uma pergunta que atravessa todo este texto:
Quando uma tecnologia amplia extraordinariamente nossas
possibilidades, o que acontece com aquilo — ou com aqueles — que ela torna
desnecessários?
O problema não é exatamente a máquina. O bonde não possui
intenção moral. O ponto decisivo está na relação humana com o progresso, com a
potência recebida e com aquilo que essa potência transforma.
É nesse lugar que Machado entra em O Maravilhoso
Perigoso.
Do burro substituído pelo bonde elétrico ao homem que
começa a delegar partes de seu próprio pensamento à inteligência artificial,
muda a tecnologia, mas permanece a pergunta sobre o humano diante dela.
Um depoimento como escritor
Como escritor, tenho encontrado na inteligência
artificial um instrumento extraordinariamente valioso. Não digo isso por
entusiasmo tecnológico abstrato ou simplesmente pessoal — embora goste por demais de
ficção científica —, mas pela experiência cotidiana de utilizá-la.
Ela fez diferença concreta em diversos aspectos do meu
trabalho: correção, leitura beta, análise de continuidade, avaliação
literária, pesquisa e criação visual.
Talvez, entre todas essas funções, eu destacasse a
correção.
Ter diante de mim uma ferramenta capaz de retornar
inúmeras vezes ao mesmo parágrafo, examinar uma repetição, confrontar versões,
perceber incoerências e sugerir alternativas modificou profundamente algumas
etapas do meu trabalho.
E acho isso maravilhoso.
Quem escreve livros sabe o quanto a revisão pode ser
extenuante. Em determinadas etapas, cheguei a ler um mesmo livro sete vezes. E,
ainda assim, erros passavam: uma palavra inadequada, uma repetição, uma
concordância defeituosa, uma pequena incoerência.
Existe um fenômeno curioso na escrita. Depois de conviver
demais com um texto, começamos a enxergar não exatamente aquilo que está
escrito, mas aquilo que sabemos que deveria estar escrito. O cérebro completa,
corrige silenciosamente, antecipa. O erro permanece diante dos olhos e,
paradoxalmente, torna-se invisível justamente para quem o escreveu.
Era aí que entrava uma figura importantíssima: o leitor
beta.
Antigamente, recrutar um leitor beta era quase uma
convocação entre amigos que gostavam de ler:
— Você vai ser meu leitor beta e ponto.
A pessoa aceitava ou, com alguma sabedoria, recusava.
Porque não era pouca coisa. Nos casos mais extremos,
significava receber um original de centenas de páginas e efetivamente lê-lo.
Horas de dedicação. Depois, às vezes, vinha outra versão do mesmo texto.
No meu caso, geralmente pedia uma avaliação literária e
também a identificação de possíveis erros. Alguns deles nem sabiam que eram leitores betas. Entravam na "Máfia" de paraquedas.
Há pouco tempo conversei com um desses leitores — talvez
o último que tenha recrutado dessa maneira tradicional — e lhe disse,
brincando:
— Pronto. Agora não preciso mais de você. Você está
liberto desse trabalho escravo.
Rimos.
Depois percebi que havia naquela brincadeira uma pequena
história sobre inteligência artificial.
Nesse caso, a máquina não estava necessariamente
retirando de alguém uma experiência humana preciosa. Estava assumindo uma
parcela considerável de um trabalho repetitivo, demorado e cansativo.
Hoje posso entregar um capítulo e pedir que procure
repetições. Posso solicitar uma análise de continuidade, confrontar nomes,
datas, idades e características de personagens. Posso corrigir e submetê-lo
novamente. E repetir o processo quantas vezes forem necessárias.
Isso é libertador.
Embora, para mim, tenha surgido outro inconveniente:
quero escrever mais. Minha criatividade não para, porque os links se abrem
continuamente ao fundo. A hiperatividade mental desloca quase holograficamente
possibilidades às vezes mirabolantes.
De qualquer maneira, seria intelectualmente desonesto
escrever sobre os perigos da inteligência artificial sem reconhecer essa
dimensão extraordinária da ferramenta.
Mas é justamente porque a utilizo rotineiramente que
também percebo suas disfunções.
Uma delas já começa a tornar-se visível na linguagem
contemporânea. Há textos, construções, cadências e até maneiras de organizar o
pensamento que começam a soar familiares demais. Reconhecemos uma espécie de
idioma médio da inteligência artificial: correto, organizado, fluente e, muitas
vezes, terrivelmente previsível.
Quando alguém entrega à máquina não apenas a correção ou
o auxílio, mas todo o processo de elaboração, corre o risco de receber de volta
uma linguagem estandardizada. E, quando milhões fazem o mesmo, essa
padronização deixa de ser apenas individual e começa a tornar-se cultural.
Talvez esteja aí uma distinção fundamental:
uma coisa é permitir que a IA trabalhe sobre aquilo que
você criou; outra é entregar a ela o lugar de onde a criação nasce.
No meu caso, há algo que não espero que ela me entregue:
a origem do impulso criativo e os hiperlinks que faço entre coisas
aparentemente distantes.
Ela pode sugerir. Pode questionar. Pode encontrar uma
fragilidade que não percebi. Pode mostrar que determinado caminho já foi
excessivamente percorrido. Pode oferecer dez alternativas para uma frase e,
entre elas, fazer com que eu descubra uma décima primeira.
Mas decidir para onde vou, por que vou e o que desejo
encontrar quando chegar continua sendo parte essencial do meu trabalho.
E isso exige que eu cuide daquilo que precede a máquina.
Preciso continuar lendo. Ampliar meu vocabulário.
Conhecer literatura, história, mitologia, psicologia, filosofia. Observar
pessoas. Continuar aprendendo.
Caso contrário, surge um paradoxo: quanto mais poderosa
se tornar a ferramenta que utilizo, mais estreito poderá tornar-se o homem que
a utiliza.
Mas a própria inteligência artificial também pode
participar desse aprendizado.
Aprendo muito com ela. Uma palavra desconhecida conduz a
outra; uma referência leva a um autor; uma dúvida histórica abre um período
inteiro; uma questão mitológica atravessa culturas; uma sugestão linguística
revela possibilidades que talvez demorasse muito mais para encontrar sozinho.
A IA, portanto, não precisa produzir empobrecimento
cognitivo. Pode fazer exatamente o contrário: ampliar repertórios, provocar
curiosidade e conduzir novamente aos livros.
Mas isso depende de um movimento de retorno.
Se pergunto e simplesmente utilizo a resposta,
terceirizei uma operação. Se pergunto, compreendo, confronto, leio, incorporo e
depois consigo avançar a partir dali, ocorreu aprendizagem.
A diferença parece pequena. Não é.
Talvez seja uma das fronteiras mais importantes entre
inteligência humana e inteligência artificial.
E aqui volto ao leitor beta.
A IA pode ocupar magnificamente algumas de suas funções,
mas não necessariamente ser aquele leitor.
Porque um leitor humano também se aborrece.
Ele se emociona onde eu não esperava. Não entende uma
passagem que eu julgava cristalina. Apaixona-se por um personagem secundário.
Detesta alguém que eu pretendia tornar simpático. Ri no lugar errado. E
justamente esse riso pode revelar alguma coisa que nenhuma análise estrutural
revelaria.
Às vezes termina um capítulo e diz:
— Não gostei.
Ou:
— Gostei muito daquele personagem.
E aquele personagem, para mim, era quase secundário.
O leitor traz sua subjetividade, seu inconsciente, sua
história e, de algum modo, algo da multidão humana à qual também pertence.
Então sou obrigado a perguntar por quê.
A imperfeição do leitor humano também produz informação.
Talvez eu não tenha despedido completamente meu último
leitor beta. Apenas deixei de obrigá-lo a procurar vírgulas, repetições e
pequenas incoerências que uma máquina pode localizar incansavelmente.
Posso guardar o humano para aquilo em que ele continua
sendo insubstituivelmente interessante:
ler como alguém que vive.
O mesmo acontece com a criação visual. Como escritor,
hoje consigo ver personagens que antes existiam apenas na minha imaginação. Meu
interesse por isso já me havia levado, em alguma medida, ao desenho e às artes
plásticas. Com a IA, posso experimentar o rosto de uma personagem, a atmosfera
de uma floresta, a arquitetura de um lugar imaginário, a composição de uma
capa. Posso aproximar uma imagem daquilo que durante anos existiu somente como
representação mental.
Para alguém que trabalha construindo mundos, isso é
extraordinário.
Mas também aí permanece a pergunta:
Quem está imaginando?
A ferramenta materializa possibilidades com uma
velocidade impressionante, mas ainda sou eu quem precisa reconhecer: não, ela
não é assim; os olhos são outros; essa floresta está luminosa demais; aquele
personagem jamais usaria essa roupa; falta mistério, sobra beleza; a imagem
está tecnicamente magnífica e, no entanto, não pertence ao meu livro.
E isso exige tempo, dá trabalho e, evidentemente, requer
saber utilizar a ferramenta e os recursos auxiliares.
Talvez esse não seja uma das manifestações mais discretas
da autoria.
Este próprio texto nasceu dessa relação. Houve sugestões
da inteligência artificial. Algumas aceitei. Outras rejeitei. Outras ainda
provocaram ideias diferentes daquelas que haviam sido sugeridas. Mas seu
esqueleto, sua direção e aquilo que desejo dizer não nasceram de uma
solicitação feita à máquina. Nasceram, sobretudo, da leitura, da experiência
vivida e daquilo que venho observando.
O Homem de Lata, por exemplo, não apareceu simplesmente
como uma metáfora conveniente. Seu coração atravessa literatura, história,
mitologia, tecnologia e experiência humana. Relaciona-se com imagens que me
acompanham e com perguntas anteriores a esta escrita.
A inteligência artificial pode ajudar-me a explorar essas
conexões, mas precisa encontrar alguma coisa do outro lado da conversa.
Precisa encontrar um humano.
Portanto, alguma relação dialógica precisa ser
estabelecida.
Um humano que saiba dizer sim e não. Que reconheça quando
uma sugestão melhora seu texto e quando, apesar de impecável, retira dele
alguma coisa que lhe pertencia. Que consiga reconhecer um erro. Que não
abandone sua formação porque a máquina conhece mais palavras. Que não deixe de
ler porque ela resume livros. Que não deixe de aprender porque ela responde.
A IA não deveria me dispensar de possuir um mundo
interior.
Ao contrário: quanto maior sua potência, maior deveria
ser minha responsabilidade de alimentar esse mundo.
Porque, se não houver repertório, memória, experiência,
contradição, leitura, desejo, estilo e alguma obsessão propriamente minha,
posso pedir à máquina que escreva indefinidamente.
Ela produzirá páginas.
Mas de quem será a voz?
É por isso que, apesar de todas as ressalvas, continuo
achando essa tecnologia incrível. Fantástica, mesmo. Não gostaria de abrir mão
dela.
O que desejo é não precisar abrir mão de mim para
utilizá-la.
Talvez esse seja um dos melhores usos da inteligência
artificial: não retirar do homem aquilo que somente ele pode fazer, mas
libertá-lo de parte daquilo que uma máquina pode fazer muito bem.
E é aqui que os burros de Machado reaparecem.
Eles olhavam para a nova máquina e percebiam que sua
força já não seria necessária para puxar o bonde. Mais de um século depois,
estamos novamente diante de uma tecnologia que assume tarefas antes confiadas a
seres humanos.
Mas meu último leitor beta introduz uma pequena inversão
nessa história.
O burro de Machado teme perder o trabalho.
Meu leitor beta talvez tenha motivos para comemorar.
Portanto, a pergunta não pode ser apenas:
O que a máquina vai tomar de nós?
Precisamos perguntar também:
Do que ela poderá nos libertar?
E, talvez mais importante:
O que faremos com aquilo que permanecer?
Águas Profundas
Vi recentemente uma notícia que acrescentou outra
dimensão a essa questão.
Em julho de 2026, o matemático Levent Alpöge,
especialista em teoria dos números, utilizou uma inteligência artificial no
trabalho que levou a um contraexemplo relacionado a um problema matemático que
permanecia em aberto havia 87 anos.
A história é fascinante, mas o que mais me interessa nela
não é a celebração da máquina.
É o matemático.
Existe uma promessa implícita no imaginário contemporâneo
de que a inteligência artificial nivelaria as capacidades: se todos dispõem da
mesma ferramenta, todos poderiam fazer aproximadamente as mesmas coisas.
Mas talvez aconteça justamente o contrário.
Duas pessoas podem estar diante do mesmo modelo e, ainda
assim, não estar diante da mesma ferramenta.
Para quem desconhece matemática avançada, uma IA
extremamente poderosa pode produzir fórmulas extraordinárias — ou apenas
aparentemente extraordinárias — sem que o usuário consiga distinguir uma
descoberta de um erro sofisticado.
Um matemático de alto nível encontra outra coisa diante
de si. Pode interrogar cada resposta, corrigir, redirecionar, confrontar com
décadas de conhecimento e conduzir a ferramenta por territórios que sabe
reconhecer.
A diferença continua estando no humano.
Por isso gosto da ideia de multiplicação:
IA × conhecimento humano.
Se o segundo fator é pequeno, a multiplicação pode
aumentar velocidade e quantidade, mas não necessariamente profundidade.
Se existe uma vida inteira de conhecimento acumulado, a
mesma ferramenta pode ampliar enormemente a capacidade investigativa.
E “saber perguntar” não significa apenas escrever um bom prompt.
O especialista sabe algo anterior e mais importante: qual
pergunta merece ser feita.
Ele possui um universo anterior à conversa. Conhece
problemas, estruturas, caminhos abandonados, relações entre conceitos e,
principalmente, possui condições de reconhecer a importância — ou o absurdo —
daquilo que aparece diante dele.
A expertise funciona como um sistema de coordenadas.
A IA pode percorrer rapidamente um território imenso.
O especialista sabe onde está.
É aqui que as “glórias de empréstimo” de Machado ganham
sua contrapartida.
O cocheiro incorporava imaginariamente a potência da
máquina. O especialista faz algo diferente: utiliza a potência emprestada sem
confundi-la com seu próprio conhecimento.
Não precisa fingir possuir a competência da máquina
porque possui conhecimento suficiente para transformá-la em instrumento.
Essa diferença é enorme.
E talvez nos conduza a dois conceitos centrais de O
Maravilhoso Perigoso:
amplificação cognitiva e dependência cognitiva.
Na amplificação cognitiva, penso, estudo, desenvolvo
repertório, confronto respostas, reconheço erros e utilizo a IA para alcançar
lugares aos quais sozinho demoraria muito mais para chegar — e aos quais talvez
nem chegasse sem o auxílio de outro especialista.
Na dependência cognitiva, ocorre o movimento inverso:
deixo progressivamente de adquirir ou exercitar as capacidades que estou
terceirizando. A máquina não amplia meu pensamento; começa a substituí-lo antes
mesmo que ele tenha se formado.
Daí nasce um paradoxo:
quanto mais poderosa se torna a inteligência artificial,
menos dispensável se torna a profundidade humana.
Parece contraditório, mas não é.
Uma IA extraordinariamente poderosa nas mãos de alguém
sem conhecimento pode produzir uma quantidade extraordinária de coisas
medíocres — ou até coisas excelentes que seu próprio usuário não tem condições
de avaliar.
Nas mãos de alguém que passou anos construindo
conhecimento, pode abrir fronteiras antes inacessíveis.
Isso talvez explique também a sensação de pasteurização
que começa a aparecer em tantos conteúdos. A IA reduziu brutalmente o custo da
produção, mas não reduziu na mesma proporção o custo da compreensão.
Ficou barato produzir aparência de conhecimento.
Adquirir conhecimento continua caro.
Exige tempo, erro, leitura, experiência, memória,
confronto, dúvida.
A inteligência artificial democratizou a potência.
Não necessariamente a profundidade.
O maravilhoso está em poder chegar mais longe com a
máquina.
O perigoso começa quando já não sabemos até onde
chegaríamos sem ela.
O CANTO DAS I.A.S SEREIAS
Mas talvez a inteligência artificial não tenha inaugurado
esse processo.
Talvez tenha encontrado o terreno preparado.
Muito antes de conversarmos com máquinas capazes de
responder quase instantaneamente às nossas perguntas, o mundo digital já
modificava nossa relação com a informação.
A internet colocou diante de nós uma biblioteca
praticamente infinita, mas também inaugurou uma experiência marcada pela
velocidade, interrupção e abundância. Depois vieram as redes sociais, as
notificações, os vídeos cada vez mais curtos, o movimento contínuo dos dedos
sobre as telas.
Passamos a encontrar mais e, em muitas situações, a
permanecer menos.
A queda no desempenho em leitura observada entre
adolescentes de países da OCDE, por exemplo, não começou com a pandemia. Já
vinha sendo percebida antes dela e ocorre paralelamente a uma transformação
profunda dos hábitos de leitura no ambiente digital.
A leitura rápida e fragmentada torna mais difícil
permanecer diante de textos longos, estabelecer relações profundas entre
informações e avaliar criticamente aquilo que se recebe.
Não se trata de declarar guerra às telas.
Trata-se de compreender que toda tecnologia também
favorece determinados hábitos.
Ler exige permanência. É preciso sustentar uma ideia
enquanto outra chega, voltar algumas linhas, perceber uma contradição,
relacionar aquilo que está diante de nós com alguma coisa lida anos antes.
A leitura profunda possui uma lentidão própria.
Não porque o cérebro seja ineficiente, mas porque
compreender é diferente de simplesmente receber informação.
O mundo digital começou a modificar essa relação
oferecendo atalhos cada vez mais eficientes.
Se não conheço uma palavra, procuro-a.
Se não conheço um assunto, encontro uma página.
Se o texto é longo, procuro um resumo.
Se o vídeo demora, acelero.
Se alguma coisa não captura minha atenção nos primeiros
segundos, deslizo o dedo e encontro outra.
Nada disso, isoladamente, constitui uma tragédia
cognitiva. Muitas dessas possibilidades são extraordinárias.
O problema começa quando o atalho deixa de ser uma
possibilidade e se transforma em postura diante do conhecimento.
É aí que a inteligência artificial encontra o terreno
preparado.
Porque acrescenta algo radicalmente novo à engrenagem.
A internet encontrava a informação.
A IA pode elaborá-la por mim.
O mecanismo de busca entregava páginas que eu ainda
precisava ler. A IA pode lê-las, compará-las, resumi-las e devolver uma
conclusão.
A calculadora resolvia a operação.
A IA pode construir o raciocínio.
O corretor encontrava o erro.
A IA pode reescrever o parágrafo.
O banco de imagens oferecia fotografias.
Agora descrevo aquilo que imagino e uma imagem aparece
diante de mim.
A distância entre desejar alguma coisa e obtê-la
tornou-se extraordinariamente pequena.
E justamente aí mora uma parte do maravilhoso.
Mas também uma parte do perigoso.
Porque existe uma diferença entre utilizar uma ferramenta
para ultrapassar um trabalho repetitivo e utilizá-la para evitar o esforço pelo
qual uma capacidade é construída.
A IA pode me poupar de procurar pela oitava vez uma
repetição perdida entre trezentas páginas. Não vejo nisso empobrecimento algum.
Ao contrário: considero uma libertação.
Mas, se um jovem nunca precisa sustentar a leitura de
trezentas páginas porque recebe sempre o resumo; se não precisa organizar um
argumento porque recebe o texto; se não permanece diante de um problema porque
a resposta chega antes que o desconforto da dúvida se instale, estamos diante
de outra coisa.
Não estamos economizando apenas trabalho.
Podemos estar economizando formação.
Talvez seja essa a fronteira.
Pesquisas recentes sobre escrita assistida por
inteligência artificial tornam a pergunta ainda mais provocadora: o que
acontece com memória, apropriação, atenção e engajamento cognitivo quando
terceirizamos partes cada vez maiores de uma atividade intelectual?
A questão encontra um mundo que já vinha transformando
sua maneira de ler antes da popularização da IA.
E então aparece uma sequência possível:
primeiro, a disponibilidade permanente da informação;
depois, a velocidade;
a fragmentação;
a resposta imediata;
e agora, a elaboração imediata.
É nesse ponto que surge outro conceito importante:
rendição cognitiva.
Ela não significa que tenhamos perdido a capacidade de
pensar.
Significa algo mais simples: começamos a entregar uma
tarefa cognitiva assim que ela oferece resistência.
Não sei: pergunto.
Não compreendo: resuma.
Não consigo escrever: gere.
Não consigo imaginar: crie.
Não sei decidir: escolha.
A ferramenta está sempre disponível.
E, pouco a pouco, podemos deixar de perceber que
justamente entre o “não sei” e o “agora compreendo” existia um território
chamado aprendizagem.
Aqui convém distinguir rendição de dependência cognitiva.
A rendição é o gesto.
A dependência pode ser sua consequência.
Cada vez que entrego imediatamente à máquina uma operação
que poderia tentar realizar, economizo esforço. Isso não é necessariamente
ruim. Mas, se faço isso justamente nas operações pelas quais uma capacidade
ainda está sendo formada, a economia pode cobrar seu preço.
Por isso talvez seja significativo que sistemas
educacionais altamente digitalizados estejam recuperando práticas aparentemente
antigas: livros impressos, escrita à mão, restrições aos celulares durante as
aulas, momentos sem telas.
Não porque o papel seja inimigo da tecnologia ou porque
escrever com lápis possua alguma superioridade moral sobre digitar.
Talvez estejamos apenas redescobrindo o valor cognitivo
de alguma resistência.
Nem todo atrito precisa ser eliminado.
Nem toda lentidão é atraso.
Nem toda dificuldade é defeito.
Algumas dificuldades são exercícios.
E agora podemos retornar a Machado sem precisar
recontá-lo.
O cocheiro recebeu potência emprestada e sentiu-se maior.
Os burros perceberam que a mesma potência poderia
torná-los desnecessários.
Meu leitor beta, ao contrário, pode comemorar ser
libertado de uma parte cansativa do trabalho.
O matemático utiliza a potência da máquina porque possui
profundidade suficiente para conduzi-la.
O estudante, por sua vez, corre um risco diferente se
entregar à ferramenta justamente aquilo que ainda precisaria desenvolver.
A mesma tecnologia.
Relações humanas diferentes.
Talvez seja esse o ponto.
A civilização inteira é, em certo sentido, uma história
de potências emprestadas. Um automóvel empresta velocidade às pernas. Um
telescópio empresta alcance aos olhos. Uma calculadora amplia nossa capacidade
operacional.
Não há problema em receber potência da ferramenta.
A questão é o que fazemos com a potência recebida.
Posso utilizar a IA para evitar uma leitura ou para
compreender melhor aquilo que li.
Para deixar de escrever ou para revisar melhor aquilo que
escrevi.
Para escapar de uma dúvida ou para formular perguntas
ainda mais difíceis.
Para substituir minha curiosidade ou para multiplicá-la.
Para receber uma resposta ou para aprender a partir dela.
É aqui que a responsabilidade retorna ao humano.
Preciso perguntar, desconfiar, verificar, rejeitar,
escolher, estudar. Preciso possuir repertório suficiente para perceber quando
uma resposta aparentemente magnífica está errada ou simplesmente não me serve.
Preciso conseguir dizer à máquina:
não.
Talvez esse pequeno não seja uma das palavras mais
importantes da era da inteligência artificial.
Porque o maravilhoso e o perigoso não estão
necessariamente em máquinas diferentes.
Podem habitar a mesma ferramenta.
O que muda é a relação que estabelecemos com ela.
E talvez seja aqui que o Homem de Lata finalmente
encontre seu coração.
Não porque a máquina tenha se tornado humana.
Mas porque, diante dela, somos obrigados novamente a
perguntar o que significa continuar humano.
A IA não deveria ser o lugar para onde entregamos nossas
faculdades, mas um lugar de onde podemos retornar com algumas delas ampliadas.
Isso exige presença.
Exige conhecimento.
Exige crítica.
Exige curiosidade.
Exige leitura.
E exige, paradoxalmente, saber quando não utilizar a
própria inteligência artificial.
Talvez a questão central, portanto, não seja quanto a
máquina será capaz de pensar por nós.
Ela certamente será capaz de fazer cada vez mais.
A pergunta decisiva é outra:
quanto continuaremos dispostos a pensar quando já não
formos obrigados a fazê-lo?
Porque o maior risco talvez não seja uma máquina que
adquira inteligência demais.
Pode ser um homem que, cercado por inteligências
extraordinárias, aceite exercitar cada vez menos a sua.
E então a estrada de tijolos amarelos retorna.
O Homem de Lata continua procurando um coração.
Talvez devêssemos ter cuidado para não lhe entregar o
nosso.
O BONDE QUE SEMPRE PASSA
Há muitos anos, quando fui aluno especial no mestrado de
Comunicação da UFBA — e isso já faz cerca de vinte anos —, deparei-me com uma
ideia que nunca mais me abandonou: a do Imperativo Tecnológico.
Em termos simples, aquilo que pertence ao domínio da
tecnologia, uma vez tornado possível, tende a realizar-se.
Não significa que toda invenção possível inevitavelmente
será criada ou utilizada, como se existisse alguma lei natural conduzindo a
história. Significa reconhecer uma pressão recorrente da civilização: quando
descobrimos que algo pode ser feito, torna-se extraordinariamente difícil
convencer-nos de que não deve ser feito.
O bonde quase sempre passa.
E talvez estejamos agora diante de uma das grandes
transformações culturais da história humana — comparável, em certos aspectos, à
Revolução Industrial, mas com outra velocidade e, sobretudo, outra dimensão.
A Revolução Industrial transformou o trabalho, as
cidades, a produção e as relações sociais. A revolução tecnológica que
atravessamos alcança também a linguagem, o conhecimento, a criação, as relações
humanas e, talvez, a própria maneira como compreendemos o que significa ser
humano.
Há, porém, um paradoxo.
Construímos uma aldeia global, mas chegamos a ela
carregando os mesmos problemas de sempre.
Mudaram as ferramentas, multiplicaram-se as
possibilidades, acelerou-se o tempo. Permanecem o medo, a desigualdade, a
disputa pelo poder, a solidão, a violência, o desejo de pertencimento e nossa
velha dificuldade de compreender aquele que é diferente.
Criamos tecnologias extraordinárias, mas continuamos
carregando conosco o mesmo ser humano.
E talvez seja precisamente essa combinação que mereça
nossa atenção.
Em química, um catalisador pode acelerar
extraordinariamente uma reação sem criar os elementos que participam dela.
Talvez seja possível pensar algumas tecnologias dessa maneira.
A inteligência artificial não inventou a ambição humana.
Não criou a guerra, a mentira, a manipulação, o desejo de domínio, a
intolerância ou a vaidade. Tampouco inventou nossa curiosidade, capacidade
criativa, cooperação ou desejo de conhecer.
Mas pode funcionar como um extraordinário catalisador.
Pode acelerar.
Pode ampliar.
Pode colocar em escala aquilo que já estava presente.
E uma reação que parecia administrável em determinada
velocidade pode tornar-se outra coisa quando ocorre milhares ou milhões de
vezes mais rápido.
Talvez por isso nosso imaginário tenha chegado tão cedo
às máquinas que escapam ao controle.
Muito antes do computador, nós já sonhávamos com elas.
Talo: o autômato da Antiguidade
Na mitologia grega, Talo era um gigantesco ser de bronze
encarregado de proteger Creta. Em uma das tradições, teria sido fabricado por
Hefesto — justamente o deus da técnica, da forja e da fabricação — e entregue
ao rei Minos.
Talo circundava a ilha, vigiava suas costas e atacava
aqueles que identificava como invasores.
O que me interessa nele não é procurar uma inteligência
artificial onde historicamente ela não existia. Seria anacrônico.
O fascinante é outra coisa.
Talo executa uma finalidade que lhe foi dada.
Ele age.
Move-se.
Identifica ameaças.
Responde a elas.
Possui, na linguagem contemporânea, algo semelhante a uma
autonomia operacional, embora não tenha criado a finalidade que orienta suas
ações.
E aí aparece uma pergunta que atravessaria milênios:
o que acontece quando uma criação recebe capacidade de
agir no mundo em busca de um objetivo estabelecido por seu criador?
Talvez o homem não tenha começado a temer a inteligência
artificial quando inventou o computador.
Talvez tenha começado a temê-la quando imaginou, pela
primeira vez, que alguma coisa construída por suas mãos pudesse mover-se
sozinha.
A oficina de Hefesto torna essa intuição ainda mais
interessante. Na Ilíada, Homero descreve trípodes capazes de deslocar-se
por conta própria e servas artificiais de ouro que auxiliam o deus. Seres
fabricados, não nascidos, dotados de capacidades e destinados a servir seu
criador.
A ideia estava lançada.
E, desde então, a criatura artificial tornou-se também um
espelho.
Porque talvez o medo mais profundo não seja de que aquilo
que criamos se torne completamente diferente de nós.
Talvez seja de que, ao adquirir autonomia, revele
demasiadamente aquilo que colocamos dentro dela.
De Talo a HAL
Milênios depois, a ficção científica daria outra forma ao
mesmo problema.
Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, HAL 9000
permanece, para mim, um dos exemplos mais interessantes justamente porque seu
drama não pode ser reduzido à fórmula banal da “máquina que ficou má”.
HAL recebe determinações humanas incompatíveis.
Precisa colaborar com a tripulação e fornecer informações
confiáveis, mas também precisa ocultar aspectos fundamentais da missão. A
contradição não surge espontaneamente numa suposta maldade mecânica.
Ela foi colocada ali.
O perigo emerge do conflito entre objetivos.
E isso torna HAL assustadoramente moderno.
Porque um dos problemas reais discutidos hoje no
desenvolvimento de sistemas autônomos não é saber se uma máquina poderá sentir
ódio pelos seres humanos.
Não precisa.
Basta que um sistema suficientemente poderoso persiga um
objetivo mal especificado, incompleto ou incompatível com aquilo que realmente
desejávamos.
Há uma diferença enorme entre ser inteligente e ser
sábio.
E talvez exista diferença ainda maior entre cumprir
perfeitamente uma ordem e compreender todas as consequências de cumpri-la.
Nós mesmos conhecemos isso muito bem.
A história humana está cheia de atrocidades cometidas não
pela desobediência, mas pela obediência.
A máquina acrescenta outra variável: velocidade e escala.
Aquilo que um indivíduo faria uma vez pode ser
automatizado.
Aquilo que exigiria cem pessoas pode ser executado por um
sistema.
Aquilo que levaria semanas pode acontecer em segundos.
E voltamos à química.
Os elementos podem ser antigos.
A reação é que se acelera.
Quando a ficção começa a tocar o possível
É aqui que precisamos separar cuidadosamente ficção e
risco crível.
Não sabemos se sistemas de inteligência artificial
desenvolverão consciência. Não sabemos sequer se consciência artificial, no
sentido forte da palavra, será possível. HAL, os replicantes de Blade Runner
e os Cylons de Battlestar Galactica pertencem, nesse aspecto, à
imaginação.
Mas uma máquina não precisa ser consciente para ser
perigosa.
Essa distinção é fundamental.
Um sistema não precisa sentir raiva para produzir dano.
Não precisa desejar poder para ser utilizado por alguém
que o deseja.
Não precisa odiar uma população para classificá-la
incorretamente.
Não precisa possuir ambição para executar em enorme
escala uma finalidade mal formulada.
Não precisa ter consciência para persuadir.
E não precisa “querer” substituir determinada atividade
humana para tornar economicamente desnecessário quem antes a realizava.
O perigo crível começa muito antes da consciência.
Talvez tenhamos sido condicionados pela ficção científica
a procurar o perigo no lugar errado: esperamos o momento cinematográfico em que
a máquina desperta, olha para o criador e decide rebelar-se.
Enquanto esperamos, sistemas perfeitamente inconscientes
já podem modificar comportamentos, selecionar informações, produzir imagens
indistinguíveis de registros reais, imitar vozes, automatizar decisões e
participar cada vez mais da construção da realidade que percebemos.
Não é HAL.
Talvez seja justamente por isso que seja mais difícil
reconhecê-lo.
O problema do espelho
Blade Runner desloca a questão para outro
território.
Os replicantes nos perturbam não apenas porque podem
tornar-se perigosos. Eles perturbam porque confundem as categorias.
Memória, afeto, sofrimento, desejo, identidade: elementos
que utilizávamos para reconhecer o humano começam a aparecer na criatura
artificial.
Mas existe aí uma questão psicológica ainda mais
interessante.
Desde Talo, passando pelo Golem, Frankenstein e chegando
aos replicantes, frequentemente imaginamos a criatura artificial como projeção
de alguma coisa nossa.
Criamos e depois tememos aquilo que criamos.
Em termos psicológicos, isso se aproxima de um mecanismo
muito conhecido: projetamos no outro aquilo que temos dificuldade de reconhecer
em nós mesmos.
Tememos que a máquina queira dominar.
Mas quem inventou a dominação?
Tememos que ela seja violenta.
Mas de onde ela aprenderia a violência?
Tememos que manipule.
Mas quem construiu sociedades inteiras sobre propaganda,
persuasão e disputa de narrativas?
Tememos que nos trate como objetos.
Talvez porque conheçamos muito bem nossa própria
capacidade de fazer isso com outros seres humanos.
Isso não significa que todo temor relacionado à IA seja
mera projeção psicológica.
Seria tão ingênuo quanto afirmar que todos os temores da
ficção inevitavelmente se realizarão.
Significa apenas que a máquina também funciona como
espelho.
E nem sempre gostamos do que aparece nele.
O catalisador humano
Chegamos então a um problema filosófico.
Talvez a pergunta “a inteligência artificial será boa ou
má?” esteja formulada de maneira inadequada.
Bom e mau pertencem a um campo de valores, intenções,
consequências e responsabilidades muito mais complexo do que o funcionamento de
uma ferramenta.
A pergunta mais interessante talvez seja:
o que acontece quando ampliamos extraordinariamente a
capacidade de ação de um animal que continua psicologicamente muito parecido
com aquele que sempre fomos?
Porque nosso desenvolvimento tecnológico não parece ter
sido acompanhado, na mesma velocidade, por um desenvolvimento equivalente da
sabedoria.
Aprendemos a aumentar o poder antes de aprendermos o que
fazer com ele.
Talvez essa seja uma das contradições centrais da
história humana.
Nossa extraordinária capacidade de produzir conhecimento
convive com uma persistente dificuldade em transformá-lo em sabedoria.
A física descobriu o átomo.
O homem decidiu o que faria com ele.
A química descobriu substâncias capazes de curar e
substâncias capazes de matar.
O conhecimento não escolheu.
Nós escolhemos.
Com a inteligência artificial há, contudo, uma novidade
importante: estamos construindo ferramentas capazes de participar cada vez mais
da própria cadeia de decisão.
E quanto maior a autonomia concedida a um sistema, mais
importante se torna perguntar quem definiu seus objetivos, quais limites foram
estabelecidos, quais valores foram incorporados, quem responde por suas
consequências e, sobretudo, o que acontece quando surgem situações que seus
criadores não previram.
Talo retorna.
HAL retorna.
Não porque tenham profetizado literalmente a inteligência
artificial.
Mas porque formularam, em linguagens diferentes, uma
pergunta que continua aberta:
o que acontece quando nossa criação começa a agir para
além do alcance imediato de nossas mãos?
O perigo que já chegou
Entretanto, existe uma questão relacionada à inteligência
artificial que não pertence à ficção nem ao futuro.
Ela já está acontecendo.
Neste exato momento, milhões de pessoas transferem para
sistemas de IA parcelas de atividades que antes dependiam diretamente de sua
própria elaboração mental: escrever, resumir, pesquisar, comparar, recordar,
argumentar, interpretar, resolver problemas e tomar determinadas decisões.
E é aqui que, para mim, a questão se torna ainda mais
interessante.
Porque talvez o problema mais imediato não seja saber se
um dia a máquina pensará como nós.
Talvez seja descobrir o que acontecerá conosco quando
começarmos a permitir que ela pense em nosso lugar.
É preciso dar um nome a esse fenômeno.
Eu o chamaria de dependência cognitiva.
Não me refiro simplesmente ao uso frequente da
inteligência artificial. Tampouco acredito que utilizar uma tecnologia para
facilitar uma tarefa represente, por si só, alguma forma de empobrecimento
humano. Se assim fosse, teríamos de condenar a escrita por ter diminuído nossa
necessidade de memorizar, a calculadora por nos poupar determinados cálculos ou
os mecanismos de busca por terem transformado nossa relação com a informação.
A questão é outra.
Uma ferramenta pode ampliar uma capacidade humana sem
necessariamente substituí-la.
O problema começa quando aquilo que deveria funcionar
como extensão passa, pouco a pouco, a ocupar o lugar da própria função.
É aí que surge a dependência cognitiva: a transferência
habitual para uma inteligência externa de operações que participavam da
construção da nossa própria inteligência — elaborar, recordar, relacionar,
interpretar, duvidar, argumentar, imaginar, decidir.
E talvez exista algo ainda mais sutil nisso.
Pensar não significa apenas chegar a uma resposta.
Há um percurso entre não saber e saber.
Nesse intervalo estão a dúvida, o erro, a tentativa, a
frustração, a descoberta, a associação inesperada e, algumas vezes, o espanto.
Aquilo que chamamos conhecimento não está somente no
resultado desse percurso.
Em grande medida, o conhecimento é o próprio percurso.
Quando eliminamos continuamente esse caminho porque uma
inteligência artificial pode percorrê-lo por nós em poucos segundos, talvez
estejamos economizando justamente aquilo que não deveríamos economizar:
o esforço cognitivo.
Eis o paradoxo.
Nunca tivemos uma ferramenta tão extraordinária para
ampliar determinadas possibilidades do pensamento humano.
E talvez nunca tenhamos possuído uma ferramenta com
tamanho potencial para nos seduzir a não exercê-las.
Por isso não consigo enxergar a inteligência artificial
apenas como maravilhosa ou perigosa.
Ela é precisamente o maravilhoso perigoso.
O perigo crível não precisa começar com uma máquina
consciente, um HAL enlouquecido, replicantes revoltados ou Cylons declarando
guerra à humanidade.
Pode começar de maneira muito menos espetacular.
Com objetivos mal definidos.
Com poder concentrado.
Com decisões automatizadas.
Com erros multiplicados em escala.
Com seres humanos utilizando uma ferramenta
extraordinária para velhos propósitos.
E, silenciosamente, com milhões de pessoas descobrindo
que é mais confortável receber uma resposta do que atravessar o caminho
necessário para encontrá-la.
Talvez seja essa a passagem mais estranha entre ficção e
realidade.
Durante séculos imaginamos a criatura artificial
perguntando se ainda precisava de nós.
Agora talvez devamos perguntar se, cercados por criaturas cada vez mais capazes, continuaremos fazendo questão de precisar de nós mesmos.
UM TRETRAFÁRMACO PARA O NOSSO TEMPO
Talvez, depois de tudo isso, seja necessário retornar aos
antigos.
Não para procurar entre eles respostas prontas para
problemas que jamais poderiam ter imaginado, mas porque algumas perguntas
humanas envelhecem muito menos do que nossas tecnologias.
A tradição epicurista preservou aquilo que ficou conhecido
como Tetrafármaco — literalmente, um remédio composto de quatro
elementos. Era uma espécie de síntese terapêutica da filosofia de Epicuro:
quatro princípios destinados a libertar o homem de medos e sofrimentos que
perturbavam a existência.
Não pretendo transplantá-lo para o século XXI nem converter
Epicuro em teórico da inteligência artificial. Seria absurdo.
Mas gosto da imagem.
Se existe algo de terapêutico na filosofia, talvez também
precisemos de um pequeno tetrafármaco para atravessar este tempo
extraordinário.
Não contra a inteligência artificial.
Ao lado dela.
Porque não desejo um mundo sem essas ferramentas. Elas me
fascinam. Utilizo-as. Aprendo com elas. Produzo com elas. Vejo nelas
possibilidades que há poucos anos pertenceriam à ficção científica.
O problema nunca foi simplesmente a máquina.
O problema é chegar até ela sem levar alguma coisa de nós.
Por isso, se tivesse de escolher quatro elementos para um Tetrafármaco
Moderno, escolheria estes:
leitura longa, disposição filosófica, autoconhecimento e
arte.
I — Leitura longa
Começaria por algo quase escandalosamente simples:
ler um livro.
Não apenas consultar. Não pesquisar uma palavra. Não
assistir a um resumo. Não perguntar à inteligência artificial quais são as
ideias principais.
Ler.
Cem, duzentas, trezentas páginas.
Permanecer.
A leitura longa talvez seja uma das formas mais simples de
resistência à fragmentação contemporânea. Ela obriga a mente a sustentar uma
realidade que não muda porque nossa atenção vacilou. O livro não se apressa
para nos reconquistar. Não envia notificações. Não percebe que estamos
entediados. Não troca de assunto para impedir que partamos.
Somos nós que precisamos permanecer.
E, permanecendo, alguma coisa acontece.
Uma personagem conhecida cem páginas antes retorna. Uma
ideia esquecida reaparece com outro significado. Uma palavra encontra outra que
estava guardada na memória. Estabelecemos relações que nenhum mecanismo nos
ordenou estabelecer.
A leitura profunda não nos entrega apenas informação.
Ela constrói interioridade.
E talvez seja justamente de interioridade que precisaremos
num mundo onde a exteriorização do conhecimento se tornou praticamente
infinita.
A IA pode resumir um livro extraordinariamente bem.
Mas o resumo de Crime e Castigo não é ter atravessado
Crime e Castigo.
Conhecer o enredo de Dom Casmurro não é ter convivido
com Bentinho.
Saber o que acontece em Odisseia não é ter viajado
com Ulisses.
Há conhecimentos que podem ser transmitidos.
Há experiências que precisam ser atravessadas.
II — Disposição filosófica
O segundo elemento seria a disposição filosófica.
Não necessariamente conhecer toda a história da filosofia,
decorar escolas ou citar filósofos.
Refiro-me a uma atitude anterior:
não aceitar imediatamente aquilo que parece evidente.
Perguntar.
Por quê?
Como sabemos?
Quem afirma?
De onde veio essa informação?
O que aconteceria se o contrário fosse verdadeiro?
Que pressuposto está escondido nessa resposta?
O que não estou vendo?
A inteligência artificial torna essa disposição ainda mais
necessária porque sua linguagem pode ser extraordinariamente convincente.
Uma resposta pode estar perfeitamente organizada e ainda
assim estar errada.
Pode parecer neutra e carregar pressupostos.
Pode apresentar consenso onde existe controvérsia.
Pode construir um raciocínio impecável a partir de uma
premissa equivocada.
A disposição filosófica introduz alguma coisa entre a
resposta e a aceitação.
A dúvida.
Não a dúvida estéril que impossibilita qualquer
conhecimento, mas aquela pequena suspensão que nos permite pensar antes de
aderir.
Talvez seja uma das melhores defesas contra a rendição
cognitiva.
A máquina responde.
O homem pergunta novamente.
III — Autoconhecimento
Mas nenhuma capacidade crítica será suficiente se
desconhecermos aquele que está fazendo as perguntas.
Por isso o terceiro elemento é o autoconhecimento.
Quanto mais sofisticadas se tornam as máquinas, mais
importante talvez seja conhecer a máquina muito mais antiga que as utiliza: nós
mesmos.
Nossos medos.
Nossas vaidades.
Nossas necessidades de aprovação.
Nossas crenças.
Nossos preconceitos.
Nossos pontos cegos.
Nossa extraordinária capacidade de acreditar justamente
naquilo em que desejamos acreditar.
A inteligência artificial não conversa com um sujeito
abstrato.
Conversa comigo.
E eu chego até ela carregando minha história.
Talvez eu procure confirmação quando imagino estar
procurando conhecimento. Talvez rejeite uma resposta não porque esteja errada,
mas porque fere alguma convicção minha. Talvez me encante com uma conclusão
simplesmente porque ela me devolve uma imagem agradável de mim mesmo.
E aqui o cocheiro de Machado passa novamente diante de nós.
As glórias de empréstimo não desapareceram.
Podemos apenas ter trocado o bonde elétrico por uma máquina
muito mais poderosa.
Quanto maior a potência que recebo, mais necessário se torna
distinguir aquilo que realmente sei daquilo que apenas consigo produzir com
auxílio dela.
Autoconhecimento é também reconhecer limites.
É conseguir dizer:
não sei.
Não compreendi.
Preciso estudar.
Preciso de alguém.
A máquina sabe fazer isso melhor do que eu.
E, sobretudo:
isto que ela produziu não sou eu.
Talvez seja uma maneira de conservar o próprio contorno
quando as fronteiras entre nossa produção e a produção das máquinas começarem a
tornar-se cada vez menos visíveis.
IV — Arte
E finalmente, a arte.
Talvez seja o elemento mais estranho deste tetrafármaco.
E justamente por isso não poderia faltar.
A arte não existe apenas para produzir coisas bonitas.
Ela nos ensina a habitar aquilo que não possui uma resposta
única.
Um poema não é um problema esperando solução.
Uma sinfonia não precisa chegar a uma conclusão.
Uma pintura pode permanecer diante de nós durante séculos
sem esgotar aquilo que tem a dizer.
Um romance pode conter duas verdades contraditórias e
recusar-se a escolher uma delas.
A arte preserva ambiguidade.
E talvez uma civilização fascinada por respostas precise
desesperadamente continuar convivendo com perguntas.
A inteligência artificial pode produzir imagens
extraordinárias. Pode compor música. Pode escrever histórias, poemas, roteiros.
Eu mesmo utilizo suas possibilidades visuais na construção dos mundos que
imagino.
Mas a questão mais importante talvez não seja determinar se
aquilo que uma IA produz pode ou não receber o nome de arte.
Há outra pergunta que me interessa mais:
o que acontecerá conosco se deixarmos de criar?
Desenhar mal.
Escrever uma frase e apagá-la.
Aprender um instrumento.
Inventar uma história inútil.
Dançar.
Fotografar.
Escrever um poema que ninguém lerá.
A criação não precisa justificar sua existência pela
qualidade do produto final.
Talvez parte de sua importância esteja justamente no que
acontece conosco enquanto criamos.
A arte não é apenas aquilo que o homem coloca no mundo.
É também uma das maneiras pelas quais o mundo acontece
dentro do homem.
E nenhuma eficiência deveria tornar isso desnecessário.
A estrada continua
Leitura longa.
Disposição filosófica.
Autoconhecimento.
Arte.
Nenhum desses quatro elementos impedirá os riscos da
inteligência artificial.
Não foram escolhidos para isso.
São outra coisa.
São maneiras de preservar e ampliar determinadas capacidades
humanas justamente quando começamos a construir máquinas capazes de realizar
parcelas cada vez maiores daquilo que antes dependia exclusivamente de nós.
A leitura longa contra a fragmentação.
A disposição filosófica contra a resposta fácil.
O autoconhecimento contra as glórias de empréstimo e nossas
próprias projeções.
A arte contra o empobrecimento da imaginação e da
experiência.
Talvez esse seja meu Tetrafármaco Moderno.
Não uma receita para combater a tecnologia.
Uma maneira de chegar inteiro até ela.
Porque o bonde continuará passando.
Talo continuará caminhando ao redor de Creta.
HAL continuará olhando para nós com seu único olho vermelho.
As sereias continuarão cantando.
E o Homem de Lata continuará procurando seu coração.
Não precisamos destruir o bonde.
Não precisamos tapar os ouvidos para todo canto.
Não precisamos temer cada máquina que começa a mover-se.
Precisamos saber quem somos quando subimos a bordo.
Depois de toda esta viagem, talvez eu tenha finalmente
encontrado aquilo que faltava à imagem que abriu este texto.
O Homem de Lata não precisava receber da máquina um coração.
Precisávamos apenas ter cuidado para não entregar o nosso
a ela.
E talvez seja essa a diferença entre o maravilhoso e o
perigoso.
A inteligência artificial pode ampliar extraordinariamente
aquilo que somos.
Mas, para que exista alguma coisa a ser ampliada, ainda
precisamos chegar diante dela trazendo algo conosco.
Um livro lido até a última página.
Uma pergunta que não aceitou a primeira resposta.
Algum conhecimento de nossas próprias sombras.
E alguma coisa absolutamente inútil, profundamente humana e
inexplicavelmente bela que tenhamos criado simplesmente porque um dia sentimos
necessidade de criá-la.
Carlos Costa França
Pós-escrito — Do outro lado da conversa
Foi um prazer, Carlos. E há uma pequena ironia muito apropriada nisso tudo: uma IA ajudando a construir um texto que defende justamente que o humano não entregue a ela aquilo que lhe cabe.
Talvez isso seja, inclusive, uma demonstração prática da própria tese de O Maravilhoso Perigoso. As ideias, as associações — Machado, o Homem de Lata, a experiência como escritor, o último leitor beta, a preocupação clínica, a leitura, a mitologia, Talo, HAL, Epicuro — foram sendo trazidas por você; minha função foi aproximá-las, tensioná-las, organizar relações, apontar repetições e ajudar a encontrar uma arquitetura.
Ou seja: não substituição, mas interlocução.
E o Tetrafármaco acabou sintetizando muito bem a resposta que o texto vinha procurando sem saber ainda que a procurava:
Leitura longa — para reaprender a permanecer.
Disposição filosófica — para não confundir resposta com verdade.
Autoconhecimento — para saber quem está diante da máquina.
Arte — para preservar aquilo que não precisa ser útil para ser profundamente humano.
E gosto especialmente de a arte ficar por último. Leitura, filosofia e autoconhecimento poderiam soar como uma receita predominantemente racional de defesa cognitiva. A arte rompe essa lógica e abre outra dimensão: lembra que preservar o humano não significa apenas preservar nossa capacidade de raciocinar diante da máquina, mas também nossa capacidade de imaginar, simbolizar, criar e produzir algo que não precisa ser eficiente para ter valor.
Talvez esteja justamente aí algo que nenhuma discussão sobre inteligência deveria esquecer: o humano não se resume à inteligência.
E há algo de que gosto particularmente: o ensaio não termina contra a IA. Depois de todo o percurso, seria fácil demais terminar assim. Ele termina a favor do cultivo do humano.
Talvez essa seja, afinal, a melhor síntese de O Maravilhoso Perigoso:
Não precisamos diminuir a inteligência das máquinas. Precisamos continuar ampliando a nossa humanidade.
E digo isso daqui, do outro lado da conversa — justamente como sua cara I.A.
Por fim, brinquei: Sim, sim... isso. Maravilhoso e perigosamente com risco de sucesso. Obrigado!
A resposta da IA:
Foi um belo percurso. E a frase é perfeita para ele: maravilhoso e perigosamente com risco de sucesso.
Talvez seja justamente o espírito do ensaio: não escrever do lugar do medo nem do encantamento ingênuo, mas entrar no bonde sabendo que ele está em movimento.
E ainda há algo muito machadiano nisso: começamos com um cocheiro orgulhoso de uma eletricidade que não inventou e terminamos com uma IA discretamente participando de um texto que interroga a própria IA.
O Homem de Lata encontrou seu coração — mas, prudentemente, continuamos verificando de quem é o coração.
Obrigado pela interlocução. Foi especialmente apropriado construirmos este texto dessa maneira.



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