Ócio Responsivo e Lugares-Instantes.
Amigos e amigas leitores,
Depois de alguns meses de escrita, reflexão e trabalho, finalmente concluí meu novo livro: Ócio Responsivo e Lugares-Instantes. O lançamento acontece neste dia 28 de junho, data que escolhi também por ser o dia do nascimento de Raul Seixas, um artista que sempre provocou, à sua maneira, a liberdade de pensar e de viver.
Pequenos espaços de presença que emergem na rotina acelerada. Esses lugares-instantes são vividos por meio do Ócio Responsivo: uma disposição interior de responder à vida com atenção, sensibilidade e presença, em vez de agir automaticamente (responder a si para pertencer).
Curiosamente, este livro nasceu de um acontecimento absolutamente comum.
Em fevereiro, durante o Carnaval, eu caminhava pelas ruas de Gramado em direção a uma loja, movido pela esperança quase distópica de encontrar uma boa promoção. Em determinado momento, um caminhoneiro interrompeu meus pensamentos para perguntar se podia passar por aquela rua. Enquanto tudo isso acontecia, antigas músicas de carnaval atravessavam minha memória. E próprio caminhão parecia um trio elétrico.
Foi naquele instante — entre a pressa da cidade, a interrupção inesperada e as lembranças — que me inspirei a escrever um texto chamado "Habitar o instante, um carnaval para ser chamado de seu".
Eu não imaginava que aquele texto teria tamanha repercussão.
Recebi mensagens de leitores dizendo, em essência, a mesma coisa:
"Isso não deveria terminar aqui. Por que você não escreve um livro?"
Essas mensagens foram o primeiro impulso.
A todos vocês que leram, comentaram e insistiram para que esse livro existisse, deixo aqui minha profunda gratidão. Sem saber, vocês participaram diretamente desta obra.
Mas há uma dívida intelectual que preciso reconhecer.
Muito antes desse texto nascer, o pensamento do geógrafo baiano Milton Santos já havia plantado em mim a ideia de que os lugares não são apenas espaços físicos, mas modos de existência, formas de viver e de pertencer ao mundo. Foi nele que encontrei uma das primeiras sementes que floresceria no conceito de Lugares-Instantes.
Ao longo da escrita, outras vozes foram se aproximando.
Edgar Morin, cuja partida recentemente nos deixou uma imensa lacuna, trouxe sua defesa da complexidade e da necessidade de uma ciência acompanhada de consciência.
Byung-Chul Han, que foi outro grande impulso, muito recentemente, ajudou-me a compreender o esgotamento da sociedade contemporânea e a lógica do desempenho permanente.
Walter Benjamin voltou a me fazer companhia com sua extraordinária sensibilidade para os pequenos acontecimentos, para a memória e para a experiência.
O filósofo que me surpreendeu foi Epicuro. Eu já sabia que, embora ele falasse sobre o prazer, tratava-se de algo moderado, sem nenhum excesso. Na realidade, sua filosofia não tem nada de desregramento.
De certa forma, ele fundou a primeira "comunidade alternativa" da história: vivia na periferia de Atenas, criou um jardim e abriu as portas para qualquer um participar — estrangeiros, mulheres, escravos. Era algo muito avançado para a época. Eu não conhecia essa história, mas ao estudar Epicuro meses arás, acabei fazendo parte dela também.
Juntaram-se a eles Jung, Epicuro, Espinosa, Heidegger, Domenico De Masi (que com seu livro Ócio Criativo me inspirou sobremaneira), os povos originários, mitologias diversas e muitos outros autores que, ao longo da minha formação como psicólogo, ajudaram a moldar meu modo de compreender o ser humano.
Contudo, muito antes disso.
Há também pequenos instantes que permanecem vivos ao longo dos anos e que, sem que percebamos, acabam estruturando nossa maneira de olhar o mundo.
Lembro-me de uma noite em que conversava com meu filho mais novo. Estávamos na varanda do apartamento, deitados em uma boa rede cearense, olhando o céu. Como tantas outras vezes, a conversa começou despretensiosamente e, pouco a pouco, ganhou contornos filosóficos.
Durante a infância, ele costumava dizer que eu sabia tudo. Sempre me fazia perguntas como toda criança sobre os mais diversos assuntos, e eu respondia a tudo.
— Pai, você sabe tudo!
Eu sempre respondia:
— Quase tudo!
Naquele dia, porém, já um pouco mais velho, ele sorriu e comentou:
— Na verdade, pai, você não sabe de nada, né?
Sorri imediatamente.
Sem perceber, ele havia chegado muito perto de Sócrates.
Falamos durante algum tempo sobre o conhecimento, sobre as perguntas que nunca terminam e sobre a estranha sabedoria que nasce justamente quando reconhecemos os próprios limites.
Hoje percebo que aquele diálogo foi um autêntico Lugar-Instante.
Não porque tenhamos encontrado respostas definitivas, mas porque, por alguns minutos, estivemos inteiramente presentes um para o outro.
Outra lembrança igualmente significativa aconteceu quando ele estudava literatura na escola.
De repente, perguntou:
— Pai, qual é o seu estilo literário? Em que escola você se encaixa?
Pensei alguns segundos antes de responder.
Disse-lhe que talvez eu fosse UNIVERSALISTA — ainda que essa classificação sequer exista formalmente.
Naquele momento compreendi algo que apenas mais tarde se tornaria consciente para mim.
Sempre fui fascinado pelos pontos de encontro entre culturas.
Em uma de minhas poesias, por exemplo, descrevo uma irrupção de um trovão.
Quando o trovão ecoa, os povos nórdicos dizem:
"É Thor."
Ao mesmo tempo, os povos indígenas do sul, lembrando a tradição de Sepé Tiaraju, respondem:
"É Tupã."
E a poesia segue quase como um refrão:
É Thor.
É Tupã.
É Thor.
É Tupã.
Não porque um exclua o outro, mas porque ambos procuram nomear o mesmo mistério a partir de horizontes diferentes.
Talvez seja exatamente isso que sempre procurei fazer na escrita: colocar diferentes tradições para conversarem, sem a necessidade de que uma anule a outra.
Essa mesma intuição reapareceu quando me recordei de Carl Sagan.
Ele aparece apenas brevemente neste livro, mas sua presença atravessou silenciosamente muitas das reflexões que aqui desenvolvi.
Embora identificado com uma visão científica e cética do mundo, Sagan cultivava um profundo sentimento de admiração diante do universo. Sua maneira de contemplar o cosmos possuía uma dimensão quase contemplativa. Havia, em sua ciência, um encantamento que jamais dispensava o rigor, mas também nunca eliminava o assombro.
Talvez por isso uma de suas frases continue ecoando tão fortemente:
"Somos uma forma de o cosmos conhecer a si mesmo."
Sempre enxerguei nessa afirmação uma espécie de espiritualidade da consciência.
Não uma espiritualidade necessariamente religiosa, mas a percepção de que existir já é, em si mesmo, um acontecimento extraordinário.
Hoje percebo que todas essas lembranças — uma conversa na varanda, uma pergunta inesperada de um filho, um poema, um cientista olhando as estrelas — formam uma espécie de constelação afetiva.
São Lugares-Instantes que o tempo não apagou.
Permaneceram porque não pertencem apenas à memória.
Pertencem àquilo que, silenciosamente, ajudou a formar quem sou.
E talvez seja justamente isso que acontece com todos nós.
Nem sempre são os grandes acontecimentos que moldam uma existência.
Frequentemente, é uma conversa, um silêncio, uma pergunta ou um olhar compartilhado que permanece conosco para sempre. Esses pequenos instantes, aparentemente comuns, continuam respondendo dentro de nós muito depois de terem acontecido. Talvez seja essa uma das formas mais discretas — e mais profundas — da responsividade da vida.
Este livro, contudo, não pretende ser uma obra acadêmica.
Talvez um dia ele também dialogue mais diretamente com a universidade.
Mas, neste momento, sua intenção é outra.
Quis reunir reflexões filosóficas, psicologia, antropologia, casos clínicos, mitologias, tradições e experiências cotidianas para pensar algo que surgiu quase intuitivamente naquele dia de Carnaval: os conceitos de Ócio Responsivo e Lugares-Instantes.
São conceitos que nasceram muito mais da experiência do que da teoria.
A teoria veio depois, quase como uma conversa entre aquilo que vivi e aquilo que tantos pensadores já haviam intuído ao longo da história.
Enquanto finalizava este livro, aconteceu algo curioso.
Na semana passada, participei de uma reunião. Um colega psicólogo agradeceu pelos textos que vinha compartilhando em determinado grupo. E gentilmente, desculpou-me por não comentar sempre. E falei que meu caso era bem pior nas redes sociais.
Quase não dou conta das próprias leituras e escrita. E tinha acabado de lançar na Amazon: ITANGRA - O Segundo Véu das Lobas.
E no momento, me lembrava que estava terminando este livro que era uma respostas aos leitores de certa forma.
Contudo, desde que cheguei ao local, vivia um intenso déjà-vu.
Era como se toda aquela cena já tivesse acontecido.
Não tentei interpretá-la. Apenas permaneci ali.
Alguns gostam de associar o déjà-vu à famosa hipótese da "falha na Matrix". A hipótese da simulação, popularizada pelo filósofo Nick Bostrom em 2003. Outros preferem as explicações da neurologia. Talvez nenhuma delas esgote completamente a experiência.
O fato é que aquele instante me trouxe uma certeza silenciosa.
Percebi que este livro também era uma resposta.
Uma resposta aos inúmeros leitores com quem, muitas vezes, não consigo conversar individualmente. O tempo é limitado, as mensagens são muitas. Embora, não raro de natureza variada e sem o enfoque condizente. De toda sorte, frequentemente me sinto em dívida por não conseguir responder a todos.
Escrever este livro foi, de certa forma, a maneira mais honesta que encontrei de continuar essa conversa.
Ao longo das páginas, vocês encontrarão casos clínicos, reflexões filosóficas, referências literárias, mitologias, tradições espirituais, psicologia e muitas perguntas sobre o tempo em que vivemos.
Mas talvez a descoberta mais inesperada tenha acontecido comigo mesmo.
Enquanto escrevia, percebi que o próprio ato de escrever era um Lugar-Instante.
Assim como ler.
Quando a palavra encontra a atenção verdadeira, o tempo muda de qualidade.
E talvez seja exatamente isso que este livro procure compartilhar.
Espero que, em algum momento da leitura, cada um encontre também o seu próprio Lugar-Instante.
Uma excelente leitura.
Com carinho,
Carlos Costa França
Ócio Responsivo e Lugares-Instantes
Sumário
Gênese: O texto antes do livro
APRESENTAÇÃO
Capítulo 1 – O Chamado dos Lugares-Instantes
Casos Clínicos
a) Aqueles que conhecem seus lugares-instantes, mas os
negligenciam com o tempo
b) Aqueles que não conhecem seus lugares-instantes
Capítulo 2 - Mitologia, Antigos e Pertencimento: A Alquimia
do Tempo e a Voz do Mundo
1. O Caldeirão de Cerridwen e o Intervalo Sagrado
2. A Suspensão de Odin: O Silêncio que Revela
3. O Boiadeiro e a Sabedoria do Caminho
4. O Alto Xingu, o Xintoísmo e a Respiração do Mundo
5. Os Kalash e a Tecelagem dos Ciclos
6. A Sinfonia da Responsividade: O Encontro com os
Pensadores
7. O Encontro que Funda: Entre o Tao e o Diálogo
Casos Clínicos
a) O Equilíbrio Entre Dois Mundos
b) O Lugar que Não Existia
c) A Semente Debaixo
do Asfalto
Capítulo 3 — Os Lugares-Instantes Coletivos: Entre a
Comunhão e a Multidão
Casos Clínicos
a)
Lugares-instantes coletivos — paixão e excesso
b) O tipo de
entrega
c) Mudança: do
coletivo para o individual
Capítulo 4 — Um Ato Crítico: O Direito ao Próprio Tempo
Casos Clínicos
a) Um
lugar-instante especial: um sonho arquetípico
b) Monstros nos
sonhos e tentativa de controle
c) Ócio para o
negócio
Capítulo 6 — Sêneca, Epicuro e outros: a Arte de Habitar o Tempo
Capítulo 7 — Em Defesa do Ócio Responsivo e dos
Lugares-Instantes.
Ócio Responsivo e Lugares-Instantes
Vivemos em uma época que nos ensinou a produzir cada vez mais, mas cada vez menos a habitar o próprio tempo.
Entre notificações, telas, urgências e a busca incessante por desempenho, surge uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, profundamente humana: quando foi a última vez que você esteve verdadeiramente presente?
É dessa inquietação que nasce Ócio Responsivo e Lugares-Instantes.
Escrito pelo psicólogo e escritor Carlos Costa França, o livro propõe uma nova forma de compreender a pausa, o pertencimento e a presença. Longe de defender a fuga da realidade ou a negação do trabalho, apresenta o Ócio Responsivo como uma prática de consciência: um modo de desacelerar para perceber, compreender e reencontrar sentido na própria existência.
Ao longo da obra, filosofia, psicologia, antropologia, literatura, mitologia e casos clínicos dialogam para mostrar que existem momentos e lugares — os Lugares-Instantes — capazes de nos devolver algo que a vida acelerada frequentemente nos retira: a experiência de estar inteiro.
Inspirado por pensadores como Milton Santos, Edgar Morin, Byung-Chul Han, Jung, Epicuro, Espinosa, Heidegger, Walter Benjamin e Domenico De Masi, o autor constrói uma reflexão original, profundamente acessível e conectada aos desafios do mundo contemporâneo.
Mais do que um ensaio filosófico, este é um convite à experiência.
Você encontrará histórias reais de transformação, sonhos analisados sob a perspectiva da psicologia analítica, reflexões sobre o trabalho, o amor, a natureza, as comunidades humanas, os povos originários, as tradições espirituais e os pequenos acontecimentos cotidianos que, muitas vezes, passam despercebidos, mas podem mudar a maneira como vivemos.
Este livro não oferece fórmulas prontas.
Oferece perguntas.
E, sobretudo, oferece um espaço de pausa em meio ao ruído do mundo.
Talvez você descubra que o lugar que procura nunca esteve tão distante.
Talvez ele sempre tenha esperado por um instante de presença para finalmente se revelar.
Ócio Responsivo e Lugares-Instantes é uma leitura para quem deseja viver com mais consciência, profundidade e pertencimento. Um livro para tempos acelerados — e para pessoas que ainda acreditam que a vida acontece, sobretudo, nos instantes que aprendemos a habitar.



Comentários
Postar um comentário