O Tempo Sobe ao Palco da Vida: Uma Jornada Circular
As férias têm o curioso poder de ampliar certos
“superpoderes”, embora não sejam onipotentes — afinal, os cavalos que as puxam
são velozes e fugidios, como a própria experiência humana. Foi nesse estado de
disponibilidade que vivi algo singular, tocando em uma dimensão essencial da
existência: sua natureza cíclica e teatral.
Meu filho adolescente, em uma dessas conversas que surgem
naturalmente, perguntou:
— Pai, você conhece a Batalha de Kurukshetra?
Ele havia descoberto a história por meio de uma série que
assistira, baseada nesse épico ancestral repleto de simbolismo espiritual.
Ao dizer que sim, que conhecia — narra o grande épico Mahabharata e, de forma
mais filosófica, no Bhagavad-Gita —, combinamos em assistir juntos. Pelo caminho, porém, surgiram outras
opções... boas até... como um “remaker” de Frankenstein. Mantive-me firme.
Cheguei a ser incisivo: “Não vamos assistir a outra coisa.
Ponto final.”
Ver aquela história ganhar vida, mesmo através da animação,
foi uma experiência poderosa — que se somou à memória de outra adaptação que
assistira há tempos, uma versão fílmica teatral tão longa quanto profunda. Mas
a verdadeira revelação veio com o impacto afetivo que atravessou o tempo.
Ao ver as cenas entre Krishna e Arjuna no campo de batalha,
fui imediatamente transportado para mais de trinta anos atrás. Lá estava eu,
recém-formado em Odontologia, dentro de um ônibus em Salvador, quando um rapaz —
um devoto do movimento Hare Krishna — ofereceu-me um exemplar do Bhagavad Gita
por um preço simbólico. Por sinal, um livro portentoso.
Comprei-o ali mesmo,
sem saber que não adquiria apenas um livro, mas um compasso — o ponteiro de um
relógio diferente, que marcaria uma hora da existência em futuro distante. Um retorno.
Ao relembrar essa cena, perguntei-me se ainda teria aquele
livro. Trinta anos são muitas vidas dentro de uma vida: muitas mudanças, perdas,
outras mudanças, ganhos, mais mudanças — inclusive uma inundação que levou
grande parte de meus livros —, e a existência seguiu seu fluxo.
Confesso que, no passado, pensei em doá-lo, desfazer-me
dele, pois estava muito acabado, e mesmo em comprar uma nova edição. Mas algo
me dizia que não seria a mesma coisa — faltaria aquela energia do encontro
fortuito, do símbolo que carrega sua própria história. Nele, nem caberia o
paradoxo de Teseu se assim desfizesse dele.
Ao procurá-lo, outra camada do ciclo se revelou: as
primeiras páginas, onde anotei a data, haviam se perdido. O tempo literalmente
apagara o registro do início da nossa jornada juntos. Mas, ao folhear,
encontrei — não marcada, mas viva na memória — a passagem que li primeiro (ou
uma das que li primeiro): justamente o momento em que Krishna revela a natureza
cíclica da existência:
"Assim como a
alma passa por este corpo na infância, na juventude e na velhice, da mesma
forma ela passa para outro corpo após a morte. O sábio não se confunde com
isso."
O Coração Simbólico de Kurukshetra: Uma Guerra Interior
A grande beleza da história da Batalha de Kurukshetra é que ela transcende sua narrativa épica. Mais do que um relato de reis e exércitos, ela funciona como um espelho profundo da condição humana.
No clímax do conflito, o arqueiro Arjuna, paralisado pela angústia, recusa-se a lutar contra seus próprios parentes e mestres. É então que Krishna, seu auriga e guia divino, revela a verdadeira natureza daquele momento. O diálogo que se segue — o Bhagavad Gita — desmonta a realidade literal para erguer uma verdade universal.
Krishna ensina que Kurukshetra não está apenas diante deles, mas dentro de cada um de nós. Aquele campo de batalha (kshetra) é a própria consciência humana. Os dois exércitos não representam apenas os Pândavas e os Káuravas; são as forças em eterno conflito no psiquismo:
o dharma (ordem, ética, verdade profunda)
contra o adharma (ego, caos, ilusão ou maya).
Sua revelação, porém, vai muito além dessa dualidade inicial. Krishna conduz Arjuna — e a nós, leitores ao longo dos milênios — por uma verdadeira cartografia da alma, oferecendo ferramentas para atravessarmos nossa própria guerra interior.
1. Nishkama Karma (A Ação Desapegada)
Krishna
não defende a inação. Pelo contrário, exorta à ação correta, mas com um
estado de espírito revolucionário: cumprir o dever (svadharma)
com excelência, sem apego aos resultados, ao sucesso ou ao fracasso.
Talvez este seja um dos maiores desafios humanos, pois somos naturalmente orientados por expectativas.
Trata-se da liberdade de agir porque é justo, não porque haverá recompensa. Esse princípio é um antídoto poderoso contra a ansiedade paralisante e o desejo que corrompe.
2. A Impermanência do Corpo e a Eternidade do Ser (Atman)
Diante
do luto de Arjuna por aqueles que terá de enfrentar, Krishna apresenta
uma das verdades mais emblemáticas da condição humana: “O sábio não
chora pelos que partem, nem pelos que ficam.” O verdadeiro “eu” não é o
corpo físico, sujeito ao nascimento, envelhecimento e morte.
O Atman é a essência imortal, uma centelha do divino (Brahman) que veste, temporariamente, um “manto de carne”. Assim, a morte assemelha-se à troca de roupas antigas por novas. Esse ensinamento dissolve o medo primordial que sustenta tantas angústias e comportamentos erráticos.
3. O Equilíbrio no Mundo
O
Gita não prega a fuga da vida. Ensina a estar no mundo sem ser dominado
por ele. Como a folha de lótus, que vive na água sem se molhar, podemos
assumir nossas responsabilidades familiares, profissionais e sociais
sem nos perdermos nelas, sem nos tornarmos escravos do turbilhão de
desejos, medos e identidades que elas despertam.
Krishna propõe o caminho do Yoga — a união —, onde ação, devoção e conhecimento se fundem em uma existência integrada e centrada.
A suprema beleza da narrativa está justamente nessa transformação: de uma guerra externa em um manual interno de autoconhecimento. Cada personagem espelha uma faceta nossa.
Arjuna representa a dúvida e a consciência moral em crise.
Duryodhana encarna a cegueira do ego e do apego.
Krishna é a voz da sabedoria interior, a intuição profunda que todos carregamos, mas tantas vezes silenciamos.
A batalha de Kurukshetra nunca terminou. Ela se repete a cada manhã, quando escolhemos entre integridade e conveniência; a cada decisão, quando optamos entre crescimento e acomodação; em cada conflito entre nosso melhor e nosso pior eu.
A batalha nunca terminou. Ela ocorre diariamente, quando escolhemos entre integridade e conveniência. O Gita não fala de uma guerra passada, mas de um diálogo eterno — aqui e agora.
Nesse ponto, além de mostrar o texto até aqui para meu filho, fomos conversando outros assuntos, e quis falar para ele sobre a visão junguiana.
Uma Jornada Pessoal: Do Mito à Mandala
Ao compartilhar essa série da Netflix, Mahabharata, meu filho — que já a havia assistido e a revisitava comigo —, nossas conversas naturalmente convergiram para os significados simbólicos dos personagens. A série é intensa e violenta, pois retrata uma grande guerra, mas sua essência convida a uma análise mais profunda.
Foi então que comecei a falar sobre arquétipos, esse arcabouço psíquico universal — sou junguiano por formação e afeto. Expliquei a meu filho que, para Carl Jung, nossa mente não começa vazia; ela vem com uma “estrutura invisível”, como um esqueleto de significados pronto para ser preenchido por nossas experiências.
Os arquétipos são os personagens e histórias primordiais que toda a humanidade compartilha, e que se repetem nos mitos, sonhos e, claro, em grandes narrativas como esta.
A Sombra reúne todos os aspectos que rejeitamos, reprimimos ou consideramos inaceitáveis — como raiva, inveja ou impulsos egoístas. Ela não representa necessariamente o mal, mas sim aquilo que permanece oculto na personalidade, podendo inclusive esconder talentos (inclusive foi o exemplo que dei ao meu filho).
Enfrentá-la é fundamental para o amadurecimento emocional, pois tendemos a projetar nos outros o que não reconhecemos em nós.
O Self é o centro e a totalidade da psique. Diferente do ego (a parte consciente), o Self integra consciente e inconsciente, luz e sombra, representando nosso potencial mais completo. Para Jung, a vida é uma jornada em que o ego caminha em direção ao Self, buscando integração, sentido e plenitude.
As mandalas simbolizam visualmente esse processo. Sua forma circular com um centro reflete a busca interior por ordem, equilíbrio e totalidade. Jung observou que elas surgem espontaneamente em momentos de crise ou transformação, funcionando como um mapa simbólico de cura e do processo de individuação — o caminho para nos tornarmos quem realmente somos.
Assistir ao Mahabharata é como observar um gigantesco processo psíquico em ação. Cada batalha externa espelha uma batalha interna: a luta para integrar luz e sombra, para descobrir quem somos de verdade (o Self). O centro da mandala representa o ponto de unificação onde os opostos se reconciliam — exatamente como Krishna ensina Arjuna a transcender as dualidades na planície de Kurukshetra.
A própria narrativa do Mahabharata é uma mandala narrativa. Os 18 capítulos do Bhagavad Gita correspondem aos 18 dias da batalha, formando um círculo perfeito de significado. A guerra acontece no Dharmakshetra — o campo do dharma —, que se torna um diagrama sagrado onde cada personagem representa uma faceta da psique humana:
Duryodhana é a sombra, o ego inflado; Yudhisthira é a consciência moral em conflito; Arjuna é o eu em busca de orientação. E Krishna, no centro da charrete entre os dois exércitos, é a própria representação do Self junguiano — o arquétipo da totalidade, o condutor que revela o padrão oculto do caos.
É a guerra interior que todo ser humano enfrenta: a batalha entre valores e impulsos, entre o dever e o desejo, entre o medo e a coragem de viver com autenticidade. Jung diria que é o processo de individuação — a jornada para se tornar quem verdadeiramente se é —, que inevitavelmente passa pelo confronto com nossa própria sombra, com os "Káuravas" internos que devemos enfrentar para alcançar a totalidade.
Aqui, a psicologia junguiana encontra a sabedoria védica: ambas compreendem o tempo não como linear, mas como cíclico, um processo de transformação psico-espiritual. O que os hindus chamam de samsara — o ciclo de nascimento e morte —, Jung compreende como os ciclos de morte e renascimento psíquicos que caracterizam a individuação.
Cada crise, cada “batalha de Kurukshetra” interior, é uma oportunidade de morrer para um estado de consciência limitado e renascer para uma perspectiva mais ampla.
O Círculo que se Fecha: Uma Epifania no Tempo
E então, veio a epifania. Foi como se três décadas se condensassem em um único instante. O jovem no ônibus, o pai assistindo à animação com o filho, o livro físico como testemunha silenciosa — todos se encontraram no mesmo ponto. Percebi, mais uma vez, que o tempo não é uma linha reta, mas um círculo que se fecha para se reabrir, um ciclo que se completa para renascer.
Naquele mesmo dia, recebi a notícia da partida de um tio, findando sua jornada na esfera material E o livro — aquele mesmo livro desgastado — fala justamente dos ciclos da vida, do renascimento, da missão que cumprimos e daquela que ainda nos espera.
Encontrei o livro. Ali estava ele, desgastado nas bordas, mas intacto em sua essência. Segurá-lo novamente foi mais do que um reencontro — foi um reencontro com versões de mim mesmo que pensei perdidas no tempo.
Foi o reconhecimento de uma jornada que não é linear, mas espiralar, que nos leva de volta aos mesmos pontos, porém com novos olhos. Como as mandalas que Jung estudava, minha vida pareceu revelar, nessa experiência, padrões concêntricos — cada ciclo contendo o anterior, mas expandindo-o.
De fato, já havia abordado esses termos com pacientes que vivenciavam tais ressurgimentos cíclicos como algo de significado maior. Eles se referiam, sobretudo, às vivências com os filhos e à relação com seus pais, embora numa oitava superior: um renascimento, uma nova aliança com a vida, com os ancestrais e descendentes.
Conclusão
As histórias que importam não seguem setas.
Elas desenham mandalas.
No centro de todas elas brilha a mesma verdade:
somos aprendizes do tempo,
estudantes da eternidade.
E às vezes, o tempo sobe ao palco para nos lembrar:
estamos sempre começando,
sempre retornando ao centro,
sempre desenhando —
com nossas escolhas e batalhas —
a mandala única que é uma vida consciente.
Carlos Costa França



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