AQUELA TRISTEZA QUE TRANSFORMA. Que ilusão ainda te protege?

 


 





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No final de semana passado, fui a uma feirinha orgânica comprar algumas espigas. Já tinha algumas em casa, mas, de repente, pensei: “Vou levar mais”. Foi, certamente, uma decisão guiada por uma intuição.

À noite, sem nada planejado, as pessoas da família começaram a chegar. Eu já havia colocado várias espigas para cozinhar naquela panela grande, própria para macarrão. Cheguei a imaginar que sobraria milho. Imaginem — nada mais falso. Não sobrou um grão sequer para contar a história.

 

Essa cena me remeteu a um mito de que gosto muito: o mito de Deméter. É justamente quando ela institui os belos e antigos ritos em Elêusis que se afirma como Mãe Terra — a terra cultivada, a mãe do grão. Sua filha, Core (Perséfone), simbolicamente é alimento e semente.

Quando Core é escondida (raptada) por um tempo nas profundezas da terra, retorna depois em novos grãos. Por isso, em Elêusis, a espiga se torna símbolo da imortalidade: aquilo que morre, retorna; aquilo que é enterrado, germina.

Já Pluto surge como projeção dessa semente. Originalmente, ele é o deus da riqueza — a riqueza agrária que vem do subsolo — e só mais tarde é confundido com Hades (Plutão), o “rico em hóspedes” (polydégmon), senhor do mundo dos mortos. Essa associação nasce justamente do que está comprimido nas entranhas da terra: sementes, minerais, mistérios, mas também os ritos de morte e renascimento.

 

No domingo, conversando com meu filho, ele me contou como o tom invernal daquele dia o deixava melancólico, ainda mais por ser domingo. Falei então sobre a depressão sazonal e acrescentei que talvez a saída fosse aprender a ver a beleza que existe nesse clima. Ele concordou com ênfase: “É verdade!”.

Depois, comentei que existem tristezas muito mais importantes.

“Quais?”, indagou.

“Aquelas que destroem as ilusões”, respondi.

Pensando nessa conversa e no mito de Deméter, senti vontade de abordar nesta experiência textual um viés específico: o da tristeza. Emblematicamente, poderíamos dizer: “Uma tristeza para ser feliz.”


Todo mito possui várias chaves de leitura — como diria Blavatsky, múltiplas possibilidades; ou, como diria Freud, diversas camadas. É justamente isso que os torna tão ricos e eternamente atuais.

 

Para compreender como uma tristeza pode "destruir ilusões" e atuar como uma força transformadora, é preciso, antes, entender o estatuto dessa ilusão na psique. Freud, Jung e Lacan abordaram essa questão fundamental através de seus conceitos de fantasia. Para Freud, as fantasias são construções mentais que servem tanto à realização de desejos inconscientes reprimidos quanto à proteção contra realidades dolorosas.

 Elas são roteiros psíquicos que mascaramos de realidade. A análise do mito de Perséfone por uma lente freudiana, por exemplo, pode revelar como ele representa simbolicamente os desejos reprimidos e as complexas dinâmicas de separação e individuação na relação mãe-filha. Essas ilusões, embora protetoras, podem se tornar prisões quando cristalizadas.

 

Jung radicaliza essa noção ao conectar a fantasia individual à esfera coletiva. Para ele, o material fantasmático não é apenas pessoal, mas emerge do inconsciente coletivo como expressão de arquétipos universais. Os mitos, portanto, não são histórias quaisquer; são fantasia coletiva organizada, a "linguagem da alma" que dá forma a processos psíquicos profundos.

 

 A fantasia, nesse sentido, é um veículo crucial para acessar e dialogar com essas forças arquetípicas. O próprio mito de Deméter e Perséfone pode ser visto como uma grande fantasia arquetípica sobre o princípio feminino, a transformação e o ciclo morte-renascimento. O "rapto" de Core representa a "morte da donzela interior", um mergulho forçado no inconsciente, que é o primeiro passo na dolorosa jornada da individuação, rompendo a simbiose com a mãe.

 

É Lacan, porém, quem oferece a articulação contundente entre fantasia, desejo e estruturação do sujeito. Para ele, o fantasma (ou fantasme, um conceito intraduzível que oscila entre fantasma e fantasia) é uma construção fundamental. Não se trata de um devaneio escapista, mas de uma estrutura inconsciente que organiza a relação do sujeito com seu desejo e com a falta que o constitui.

Lacan o formula com o matema $ ◊ a, onde o sujeito barrado ($) encontra seu gozo através de um cenário (◊) que envolve o objeto a – o objeto causa do desejo, sempre perdido e inatingível. O fantasma é, assim, o "roteiro" que tenta dar uma resposta à angústia da falta, mascarando o vazio central do ser com um enredo que orienta o desejo. A tristeza profunda surge quando esse cenário fantasmático – essas ilusões que nos organizam – entra em colapso, e somos confrontados diretamente com a falta que ele tentava velar. É a crise do imaginário que sustentava nossa identidade.

 

Há momentos em que a tristeza atua como pontífice – uma ponte – para uma resolução interna profunda e necessária. Costumamos, quase automaticamente, amaldiçoá-la, tratá-la como algo indesejável, um erro a ser corrigido. No entanto, muitas vezes ela surge precisamente para subverter as fantasias e os fantasmas que cultivamos. Essas estruturas ilusórias, embora tenham nos servido em algum momento, acabam por nos aprisionar em roteiros que já não sustentam nossa verdade mais profunda.

 

Paradoxalmente, esses fantasmas podem ter nos oferecido adornos favoráveis à vida: narrativas que nos ajudaram a sobreviver, a nos adaptar, a pertencer. Contudo, quando se cristalizam, passam a gerar um sofrimento peculiar – não explosivo ou dramático, mas contínuo, silencioso, persistente. Um mal-estar difuso que se infiltra no cotidiano. É nesse ponto que a tristeza aparece como força reveladora: convoca à reflexão, mesmo quando desconfortável.

 

Obriga-nos a enxergar as estruturas invisíveis por trás da vida que construímos – crenças, papéis, identificações – e a reconhecer que algumas precisam ser derrubadas. Nesse sentido, a tristeza lacaniana pode ser entendida como a "dor de existir" que emerge quando o desejo definha, forçando um reencontro traumático, porém necessário, com a falta fundante.

 

Para Jung, esse movimento se inscreve no processo de individuação. A primeira metade da vida é marcada pela busca de "ser alguém": construir identidade social, profissão, reconhecimento, muitas vezes seguindo fantasias pessoais e coletivas de sucesso. Já a segunda metade – que pode iniciar por volta dos 35 ou 40 anos, mas varia – inaugura outra tarefa: abandonar personagens para descobrir quem realmente somos por trás das identificações.

A psique exige um retorno ao centro, à integração da sombra, à escuta do inconsciente que fala através de símbolos e novas fantasias criativas. Nesse contexto, a tristeza funciona como sinal de que uma fantasia antiga precisa ser ressignificada: aponta para conteúdos reprimidos, escolhas inautênticas, desejos negligenciados.

 

Lacan desloca a questão para o campo da linguagem e do desejo. Para ele, o sujeito é estruturado pelo simbólico e atravessado pela falta. Não somos inteiros; somos constituídos a partir de um vazio fundamental. A tristeza pode ser compreendida como efeito do confronto com essa falta – quando os objetos, ideais e imagens escolhidos para tamponá-la (os elementos do fantasma) já não funcionam. O sofrimento surge quando aquilo que acreditávamos capaz de nos completar falha.

 

Nesse sentido, a tristeza é também um colapso do imaginário: as imagens que construímos de nós mesmos – o “eu ideal”, os personagens sociais, os ideais herdados do Outro – começam a ruir. Para Lacan, é justamente essa fratura que permite ao sujeito "atravessar o fantasma" fundamental – não para destruí-lo completamente, mas para des-identificar-se dele, para perceber seu caráter de estrutura e não de destino.

Só então é possível aproximar-se de um desejo verdadeiro, não mais totalmente imposto pela cultura, família ou moral social (o desejo do Outro), mas que reconhece sua emergência do inconsciente e sua relação com a falta.

 

Assim, Jung fala da individuação como integração do Self, que requer o exame das fantasias arquetípicas que nos moldam; Lacan, da travessia do fantasma como condição para uma nova relação com o desejo. Ambos apontam para a mesma direção: a necessidade de desmontar identificações falsas sustentadas por ilusões psíquicas estruturantes. A tristeza surge como sintoma desse desmonte. Não é apenas dor – é sinal de deslocamento subjetivo, de mudança de posição frente ao desejo e ao roteiro fantasmático que o organizava.

 

Muitas estruturas que nos sustentaram foram necessárias em fases imaturas da vida. Funcionaram como defesas psíquicas e formas de adaptação. Porém, permanecer nelas é estagnar. Quando ficamos presos a referências externas – culturais, ideológicas, religiosas – afastamo-nos da singularidade. Jung chamaria isso de afastamento do Self; Lacan diria que estamos alienados no desejo do Outro, presos em um fantasma que não nos pertence.

 

O processo de autoconhecimento exige coragem: suportar a falta, atravessar a tristeza sem anestesiá-la, escutar o inconsciente. Implica abrir-se a múltiplas camadas do saber – científica, artística, filosófica, espiritual – não como verdades absolutas, mas como espelhos simbólicos que auxiliam na própria travessia.

 

A individuação e a travessia do fantasma não são destinos finais, mas movimentos contínuos. São processos de desidentificação, de desnudamento psíquico. Nesse caminho, a tristeza deixa de ser inimiga: torna-se mensageira. Indica que algo precisa morrer para que algo mais autêntico possa nascer.

 

O mito de Deméter ilustra com precisão essa travessia da tristeza como portal de transformação. Deusa da fertilidade e das colheitas, Deméter vive plenamente enquanto sua filha Perséfone está ao seu lado, em uma relação que pode ser lida como uma fantasia de completude e simbiose. Quando Perséfone é raptada por Hades e levada ao submundo, Deméter entra em luto profundo. Vaga pela terra em dor, retira sua energia do mundo e faz cessar a fertilidade: as plantas morrem, os campos secam, a vida estagna.

 

Esse luto não é apenas perda externa – é o colapso de um fantasma relacional. Deméter perde o objeto que sustentava sua identidade e preenchia sua falta. Vemos aqui o paralelo com a ruptura necessária no processo de individuação: quando algo fundamental nos é arrancado, somos forçados a abandonar uma forma antiga de existir, um antigo roteiro. Sua tristeza não é patológica; é transformadora. A terra precisa do inverno para que um novo ciclo nasça. O sofrimento inaugura um tempo de interiorização.

 

Do ponto de vista junguiano, Perséfone representa uma parte da própria psique de Deméter – o feminino jovem e instintivo (a Core) que precisa descer ao inconsciente para amadurecer e retornar como Perséfone, rainha de dois mundos. O submundo simboliza o mergulho na sombra, no reprimido, no arquétipo do "feminino sombrio". Sem essa descida, mediada pela dor, não há transformação verdadeira. A tristeza sinaliza que a alma entrou em reorganização profunda.

 

Sob a lente lacaniana, o rapto de Perséfone representa a irrupção traumática da falta no mundo aparentemente completo de Deméter. Ela perde o objeto de amor que parecia completá-la, revelando a estrutura do desejo: nunca houve completude real. O Outro (aqui, a filha) não pode preencher o vazio estrutural do sujeito. A dor nasce nesse confronto com o real da castração simbólica – a constatação de que algo essencial sempre escapa.

 A recusa inicial de Deméter em devolver a fertilidade à terra é uma recusa a seguir vivendo na lógica antiga, uma rebelião contra a lei simbólica (Zeus) que impôs essa falta. É o impasse com o desejo do Outro. Para Lacan, essa travessia é necessária para que o sujeito se reposicione diante do próprio desejo: não mais manter tudo como antes, mas suportar a perda e ressignificá-la.

 

O acordo final – Perséfone passar parte do ano no submundo e parte com a mãe – simboliza a integração e a aceitação de uma nova estrutura fantasmática. Não há retorno ao estado anterior de ilusão de completude. A perda não é apagada, mas é transformada no eixo de um novo ciclo. Surge o ciclo das estações: inverno (luto), primavera (renascimento), verão (expansão) e outono (desapego). Eis o movimento de individuação e de travessia: integrar luz e sombra, presença e ausência, vida e morte psíquica, reconhecendo o objeto perdido em seu lugar inatingível.

 

Jung diria que Deméter amadurece ao aceitar que a filha não lhe pertence, integrando a transformação de Core em Perséfone. Lacan diria que ela atravessa o fantasma da completude simbiótica. Em ambos os casos, há a perda do ideal imaginário. O amor deixa de ser possessivo e torna-se simbólico, mediado pela falta e pela alternância.

 


Assim, o mito nos ensina que a tristeza não é falha, mas rito de passagem. Marca a transição entre uma identidade antiga, sustentada por fantasias e fantasmas cristalizados, e uma forma mais autêntica de existir. Tal como a terra precisa do inverno, o sujeito precisa do luto – não para permanecer nele, mas para que algo novo possa germinar a partir do colapso das antigas ilusões.


 

A tristeza é, portanto, solo fértil da transformação. É nela que a individuação acontece. É nela que o sujeito, ao confrontar a falta e desmontar seus cenários fantasmáticos obsoletos, se aproxima do próprio desejo. Deméter nos mostra que perder é condição para renascer – não como antes, mas de forma mais verdadeira, com uma nova e mais consciente relação com as fantasias que nos constituem e com a falta que nos move.


Carlos Costa França





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