AQUELA TRISTEZA QUE TRANSFORMA. Que ilusão ainda te protege?
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À noite, sem nada planejado, as pessoas da família começaram
a chegar. Eu já havia colocado várias espigas para cozinhar naquela panela
grande, própria para macarrão. Cheguei a imaginar que sobraria milho. Imaginem
— nada mais falso. Não sobrou um grão sequer para contar a história.
Essa cena me remeteu a um mito de que gosto muito: o mito de
Deméter. É justamente quando ela institui os belos e antigos ritos em Elêusis
que se afirma como Mãe Terra — a terra cultivada, a mãe do grão. Sua filha,
Core (Perséfone), simbolicamente é alimento e semente.
Quando Core é escondida (raptada) por um tempo nas
profundezas da terra, retorna depois em novos grãos. Por isso, em Elêusis, a
espiga se torna símbolo da imortalidade: aquilo que morre, retorna; aquilo que
é enterrado, germina.
Já Pluto surge como projeção dessa semente. Originalmente,
ele é o deus da riqueza — a riqueza agrária que vem do subsolo — e só mais
tarde é confundido com Hades (Plutão), o “rico em hóspedes” (polydégmon),
senhor do mundo dos mortos. Essa associação nasce justamente do que está
comprimido nas entranhas da terra: sementes, minerais, mistérios, mas também os
ritos de morte e renascimento.
No domingo, conversando com meu filho, ele me contou como o tom invernal daquele dia o deixava melancólico, ainda mais por ser domingo. Falei então sobre a depressão sazonal e acrescentei que talvez a saída fosse aprender a ver a beleza que existe nesse clima. Ele concordou com ênfase: “É verdade!”.
Depois, comentei que existem tristezas muito mais
importantes.
“Quais?”, indagou.
“Aquelas que destroem as ilusões”, respondi.
Pensando nessa conversa e no mito de Deméter, senti vontade
de abordar nesta experiência textual um viés específico: o da tristeza.
Emblematicamente, poderíamos dizer: “Uma tristeza para ser feliz.”
Todo mito possui várias chaves de leitura — como diria
Blavatsky, múltiplas possibilidades; ou, como diria Freud, diversas camadas. É
justamente isso que os torna tão ricos e eternamente atuais.
Para compreender como uma tristeza pode "destruir
ilusões" e atuar como uma força transformadora, é preciso, antes, entender
o estatuto dessa ilusão na psique. Freud, Jung e Lacan abordaram essa questão
fundamental através de seus conceitos de fantasia. Para Freud, as fantasias são
construções mentais que servem tanto à realização de desejos inconscientes
reprimidos quanto à proteção contra realidades dolorosas.
Elas são roteiros
psíquicos que mascaramos de realidade. A análise do mito de Perséfone por uma
lente freudiana, por exemplo, pode revelar como ele representa simbolicamente
os desejos reprimidos e as complexas dinâmicas de separação e individuação na
relação mãe-filha. Essas ilusões, embora protetoras, podem se tornar prisões
quando cristalizadas.
Jung radicaliza essa noção ao conectar a fantasia individual
à esfera coletiva. Para ele, o material fantasmático não é apenas pessoal, mas
emerge do inconsciente coletivo como expressão de arquétipos universais. Os
mitos, portanto, não são histórias quaisquer; são fantasia coletiva organizada,
a "linguagem da alma" que dá forma a processos psíquicos profundos.
A fantasia, nesse
sentido, é um veículo crucial para acessar e dialogar com essas forças
arquetípicas. O próprio mito de Deméter e Perséfone pode ser visto como uma
grande fantasia arquetípica sobre o princípio feminino, a transformação e o
ciclo morte-renascimento. O "rapto" de Core representa a "morte
da donzela interior", um mergulho forçado no inconsciente, que é o
primeiro passo na dolorosa jornada da individuação, rompendo a simbiose com a
mãe.
É Lacan, porém, quem oferece a articulação contundente entre
fantasia, desejo e estruturação do sujeito. Para ele, o fantasma (ou fantasme,
um conceito intraduzível que oscila entre fantasma e fantasia) é uma construção
fundamental. Não se trata de um devaneio escapista, mas de uma estrutura
inconsciente que organiza a relação do sujeito com seu desejo e com a falta que
o constitui.
Lacan o formula com o matema $ ◊ a, onde o sujeito barrado
($) encontra seu gozo através de um cenário (◊) que envolve o objeto a – o
objeto causa do desejo, sempre perdido e inatingível. O fantasma é, assim, o
"roteiro" que tenta dar uma resposta à angústia da falta, mascarando
o vazio central do ser com um enredo que orienta o desejo. A tristeza profunda
surge quando esse cenário fantasmático – essas ilusões que nos organizam –
entra em colapso, e somos confrontados diretamente com a falta que ele tentava
velar. É a crise do imaginário que sustentava nossa identidade.
Há momentos em que a tristeza atua como pontífice – uma
ponte – para uma resolução interna profunda e necessária. Costumamos, quase
automaticamente, amaldiçoá-la, tratá-la como algo indesejável, um erro a ser
corrigido. No entanto, muitas vezes ela surge precisamente para subverter as
fantasias e os fantasmas que cultivamos. Essas estruturas ilusórias, embora
tenham nos servido em algum momento, acabam por nos aprisionar em roteiros que
já não sustentam nossa verdade mais profunda.
Paradoxalmente, esses fantasmas podem ter nos oferecido
adornos favoráveis à vida: narrativas que nos ajudaram a sobreviver, a nos
adaptar, a pertencer. Contudo, quando se cristalizam, passam a gerar um
sofrimento peculiar – não explosivo ou dramático, mas contínuo, silencioso,
persistente. Um mal-estar difuso que se infiltra no cotidiano. É nesse ponto
que a tristeza aparece como força reveladora: convoca à reflexão, mesmo quando
desconfortável.
Obriga-nos a enxergar as estruturas invisíveis por trás da
vida que construímos – crenças, papéis, identificações – e a reconhecer que
algumas precisam ser derrubadas. Nesse sentido, a tristeza lacaniana pode ser
entendida como a "dor de existir" que emerge quando o desejo definha,
forçando um reencontro traumático, porém necessário, com a falta fundante.
Para Jung, esse movimento se inscreve no processo de
individuação. A primeira metade da vida é marcada pela busca de "ser
alguém": construir identidade social, profissão, reconhecimento, muitas
vezes seguindo fantasias pessoais e coletivas de sucesso. Já a segunda metade –
que pode iniciar por volta dos 35 ou 40 anos, mas varia – inaugura outra
tarefa: abandonar personagens para descobrir quem realmente somos por trás das
identificações.
A psique exige um retorno ao centro, à integração da sombra,
à escuta do inconsciente que fala através de símbolos e novas fantasias
criativas. Nesse contexto, a tristeza funciona como sinal de que uma fantasia
antiga precisa ser ressignificada: aponta para conteúdos reprimidos, escolhas
inautênticas, desejos negligenciados.
Lacan desloca a questão para o campo da linguagem e do
desejo. Para ele, o sujeito é estruturado pelo simbólico e atravessado pela
falta. Não somos inteiros; somos constituídos a partir de um vazio fundamental.
A tristeza pode ser compreendida como efeito do confronto com essa falta –
quando os objetos, ideais e imagens escolhidos para tamponá-la (os elementos do
fantasma) já não funcionam. O sofrimento surge quando aquilo que acreditávamos
capaz de nos completar falha.
Nesse sentido, a tristeza é também um colapso do imaginário:
as imagens que construímos de nós mesmos – o “eu ideal”, os personagens
sociais, os ideais herdados do Outro – começam a ruir. Para Lacan, é justamente
essa fratura que permite ao sujeito "atravessar o fantasma"
fundamental – não para destruí-lo completamente, mas para des-identificar-se
dele, para perceber seu caráter de estrutura e não de destino.
Só então é possível aproximar-se de um desejo verdadeiro,
não mais totalmente imposto pela cultura, família ou moral social (o desejo do
Outro), mas que reconhece sua emergência do inconsciente e sua relação com a
falta.
Assim, Jung fala da individuação como integração do Self,
que requer o exame das fantasias arquetípicas que nos moldam; Lacan, da
travessia do fantasma como condição para uma nova relação com o desejo. Ambos
apontam para a mesma direção: a necessidade de desmontar identificações falsas
sustentadas por ilusões psíquicas estruturantes. A tristeza surge como sintoma
desse desmonte. Não é apenas dor – é sinal de deslocamento subjetivo, de
mudança de posição frente ao desejo e ao roteiro fantasmático que o organizava.
Muitas estruturas que nos sustentaram foram necessárias em
fases imaturas da vida. Funcionaram como defesas psíquicas e formas de
adaptação. Porém, permanecer nelas é estagnar. Quando ficamos presos a
referências externas – culturais, ideológicas, religiosas – afastamo-nos da
singularidade. Jung chamaria isso de afastamento do Self; Lacan diria que
estamos alienados no desejo do Outro, presos em um fantasma que não nos
pertence.
O processo de autoconhecimento exige coragem: suportar a
falta, atravessar a tristeza sem anestesiá-la, escutar o inconsciente. Implica
abrir-se a múltiplas camadas do saber – científica, artística, filosófica,
espiritual – não como verdades absolutas, mas como espelhos simbólicos que
auxiliam na própria travessia.
A individuação e a travessia do fantasma não são destinos
finais, mas movimentos contínuos. São processos de desidentificação, de
desnudamento psíquico. Nesse caminho, a tristeza deixa de ser inimiga: torna-se
mensageira. Indica que algo precisa morrer para que algo mais autêntico possa
nascer.
O mito de Deméter ilustra com precisão essa travessia da
tristeza como portal de transformação. Deusa da fertilidade e das colheitas,
Deméter vive plenamente enquanto sua filha Perséfone está ao seu lado, em uma
relação que pode ser lida como uma fantasia de completude e simbiose. Quando
Perséfone é raptada por Hades e levada ao submundo, Deméter entra em luto
profundo. Vaga pela terra em dor, retira sua energia do mundo e faz cessar a
fertilidade: as plantas morrem, os campos secam, a vida estagna.
Esse luto não é apenas perda externa – é o colapso de um
fantasma relacional. Deméter perde o objeto que sustentava sua identidade e
preenchia sua falta. Vemos aqui o paralelo com a ruptura necessária no processo
de individuação: quando algo fundamental nos é arrancado, somos forçados a
abandonar uma forma antiga de existir, um antigo roteiro. Sua tristeza não é
patológica; é transformadora. A terra precisa do inverno para que um novo ciclo
nasça. O sofrimento inaugura um tempo de interiorização.
Do ponto de vista junguiano, Perséfone representa uma parte
da própria psique de Deméter – o feminino jovem e instintivo (a Core) que
precisa descer ao inconsciente para amadurecer e retornar como Perséfone,
rainha de dois mundos. O submundo simboliza o mergulho na sombra, no reprimido,
no arquétipo do "feminino sombrio". Sem essa descida, mediada pela
dor, não há transformação verdadeira. A tristeza sinaliza que a alma entrou em
reorganização profunda.
Sob a lente lacaniana, o rapto de Perséfone representa a
irrupção traumática da falta no mundo aparentemente completo de Deméter. Ela
perde o objeto de amor que parecia completá-la, revelando a estrutura do
desejo: nunca houve completude real. O Outro (aqui, a filha) não pode preencher
o vazio estrutural do sujeito. A dor nasce nesse confronto com o real da
castração simbólica – a constatação de que algo essencial sempre escapa.
A recusa inicial de
Deméter em devolver a fertilidade à terra é uma recusa a seguir vivendo na
lógica antiga, uma rebelião contra a lei simbólica (Zeus) que impôs essa falta.
É o impasse com o desejo do Outro. Para Lacan, essa travessia é necessária para
que o sujeito se reposicione diante do próprio desejo: não mais manter tudo
como antes, mas suportar a perda e ressignificá-la.
O acordo final – Perséfone passar parte do ano no submundo e
parte com a mãe – simboliza a integração e a aceitação de uma nova estrutura
fantasmática. Não há retorno ao estado anterior de ilusão de completude. A
perda não é apagada, mas é transformada no eixo de um novo ciclo. Surge o ciclo
das estações: inverno (luto), primavera (renascimento), verão (expansão) e
outono (desapego). Eis o movimento de individuação e de travessia: integrar luz
e sombra, presença e ausência, vida e morte psíquica, reconhecendo o objeto
perdido em seu lugar inatingível.
Jung diria que Deméter amadurece ao aceitar que a filha não
lhe pertence, integrando a transformação de Core em Perséfone. Lacan diria que
ela atravessa o fantasma da completude simbiótica. Em ambos os casos, há a
perda do ideal imaginário. O amor deixa de ser possessivo e torna-se simbólico,
mediado pela falta e pela alternância.
Assim, o mito nos ensina que a tristeza não é falha, mas
rito de passagem. Marca a transição entre uma identidade antiga, sustentada por
fantasias e fantasmas cristalizados, e uma forma mais autêntica de existir. Tal
como a terra precisa do inverno, o sujeito precisa do luto – não para
permanecer nele, mas para que algo novo possa germinar a partir do colapso das
antigas ilusões.
A tristeza é, portanto, solo fértil da transformação. É nela
que a individuação acontece. É nela que o sujeito, ao confrontar a falta e
desmontar seus cenários fantasmáticos obsoletos, se aproxima do próprio desejo.
Deméter nos mostra que perder é condição para renascer – não como antes, mas de
forma mais verdadeira, com uma nova e mais consciente relação com as fantasias
que nos constituem e com a falta que nos move.
Carlos Costa França



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