Cicatrizes atualizadas. Ser ou não ser o Super-Homem?
Essa experiência textual nasce de um incidente — e, por isso
mesmo, inquietante. Dois desmaios. Duas quedas. Duas pancadas na cabeça. Fui
parar no hospital sem que, até então, houvesse qualquer intenção de escrever
sobre isso. Mas certas sincronicidades, e algumas reflexões que já vinha construindo
(entre Montaigne e Camus, em meio a Filosofia Medieval), acabaram por me
conduzir até aqui.
Contudo, uma sincronicidade, em particular, tornou
inevitável esta escrita. Outras experiências um tanto espirituais me influenciaram,
mas ficarei tão somente com a Opacidade do
Mundo que é um palco amplo e bastante iluminado (e também é uma economia de
texto) .
Enquanto estava no hospital, ligado ao soro, sendo medicado
e realizando exames, distraía-me com vídeos aleatórios e estudos filosóficos.
Foi então que surgiu, sem que eu buscasse, um sobre a morte precoce de André
Matos — maestro, músico, figura marcante do heavy metal brasileiro. Conhecido
nos últimos tempos, como Shaman. Dele, conheço pouco; há uma única música que
realmente me atravessa emocionalmente: Fairy Tale (que vou colocar aqui,
claro!).
E, no entanto, naquele momento, não era a obra que
importava, mas o fato bruto: alguém aparentemente saudável, reconhecido como músico,
com uma vida regrada, interrompido de forma súbita por um ataque cardíaco.
Mas afinal o que aconteceu comigo (resumo):
Um mal-estar intenso, náusea, a necessidade urgente de
eliminar aquilo que o corpo recusava. No banheiro, o corpo cedeu. Desmaiei.
Caí, bati a cabeça. Levantei, horas depois tentei foçar um vômito. Outro
desmaio. Outra queda. Mais sangue — muito sangue. A pessoa que foi tentar
limpar, quase desmaia.
Já eliminado o enjoo, quando voltei a mim pela segunda vez,
o mal-estar havia passado. Embora muito sangue (não tenho problemas com sangue,
meu lado dentista defende isso), levantei pronto a limpar (Alerta: não faça
isso em casa!). Fui ao hospital mais por prudência (na minha cabeça) do que por
desespero. Exames, observação — e, no fim, nada de grave.
Algumas recomendações, algumas descobertas: eu não bebia
tanta água quanto imaginava, e cometera um excesso — uma refeição pesada tarde
da noite, algo que eu mesmo evito. Um erro. Um quase-nada.
Estresse acumulado, outra possibilidade. Tudo precisava ser aventado. Além de outras coisas que estava
passando, chegou uma dor aguda no bolso, embora com características
passageiras. (não sei se vocês sabem o que é isso?). Essa dói ...
Mas continuando o incidente: no entanto, é justamente esse “quase-nada” que
inquieta. Porque poderia ter sido diferente. Bastaria um ângulo ligeiramente
outro, uma queda um pouco mais forte, e o desfecho talvez fosse irreversível.
Já vi isso acontecer com pacientes: quedas banais, mortes prosaicas.
A vida, como disseram depois ao menos três pessoas, é
frágil. E é mesmo — mas talvez não exatamente no sentido melodramático que
costumamos atribuir a essa palavra.
Ela é frágil porque é contingente, porque depende de uma
coreografia mínima que pode falhar a qualquer instante. Embora costumo dizer, e
acredito piamente nisso, a vida tende a dar certo, não importa. E é claro,
alguma coisa sai errado.
O fato é que eu sempre preferi cuidar a ser cuidado. Mas
ninguém é o Super-homem— e isso é um ponto importante. Embora, cuido-me
bastante, bastante mesmo. Assim o autocuidado é superlativo. E com um chimarrão
na mão se torna uma poesia...
Apesar da minha saúde de ferro, praticamente nunca fico doente —, o episódio serviu como lembrete de algo simples: por mais que a gente se veja como resistente, ainda assim somos vulneráveis.
Dito isso, não ia escrever, pausei um pouco tudo. Inclusive,
deixei de lado, o fevert Opus (trabalho intenso). Então um vídeo, do nada, do
André Matos esses dias agora, ele mesmo falando sobre a morte entrou no “Papagaio”
(celular), enquanto percorria redes sociais (que vou colocar aqui no integral).
Falando mais ou menos isso:
“Toda essa viagem em cima de imaginar a morte a vida após a
morte é tem um propósito tem um tem um objetivo(...) embora possa parecer
obscuro (...) Viver o momento, Carpem diem não é uma coisa superficial não é
uma coisa que a gente tem que fazer superficialmente, pensando só em aproveitar
o momento propriamente dito. É uma coisa que a gente tem que pensar da seguinte
forma: a gente tem que ter uma qualidade de vida satisfatório (...) tudo que a
gente puder deixar marcado na nossa existência é o que Vai Ficar (...) tudo o
que a gente puder viver a vida da maneira mais intensa, ser verdadeiro para com
você mesmo porque isso é a única coisa que vale aqui...”
Ser verdadeiro consigo mesmo não é mimo do ego, é ofício de forja. É se reinventar a cada passo, sem rede, sem certificado, vivendo como obra que nunca se encerra. Nietzsche não promete paz, nem aplauso, nem harmonia pronta.
Muitos pacientes me dizem, atrapalhando o avanço deles, tipo: "Ó me arrependi de tantas coisas na vida." E quem não? O que não significa um erro, tomando-se a maturidade do momento. O erro é não aprender.
Nietzsche fala sobre sai do rebanho, quebrar os ídolos gastos e assumir, sem desculpas, a autoria do próprio caminho. Onde não há sentido entregue de bandeja, essa fidelidade crua não é só o que resta de valor. É o que inventa o valor.
VIDA E DESAPEGO
Antes desses eventos, estava estudando os filósofos
medievais, Agostinho de Hipona, Boécio e Anselmo da Cantuária para também
compor meu personagem Merlin do meu próximo livro, pois já decidi que ele será
criado por um bretão romanizado lá no
século V na Bretanha. Devo confessar que está meio arrastado este estudo, mas
tudo bem...
Nisso... Michel de Montaigne se impôs como um descanso (em
verdade outros também).
Montaigne, que tanto escreveu sobre a morte, não para
glorificá-la, mas para esvaziá-la de importância excessiva. Para ele, filosofar
não é aprender a morrer de forma solene, mas aprender a viver de modo tão
inteiro que a morte perca seu caráter de escândalo.
Em seus ensaios, há uma imagem recorrente e quase humilde: a
de “plantar seus repolhos”. Ou seja, ocupar-se da vida concreta, cotidiana, sem
se deixar paralisar pela antecipação da morte.
A morte, em Montaigne, não deve ser o centro. Ela é
inevitável, mas não é o assunto principal. O essencial é estar presente naquilo
que se faz — cultivar, escrever, cuidar. Quando ela vier, que nos encontre
vivendo, não ensaiando morrer. Nesse sentido, o hospital não foi um limiar
trágico, mas um lembrete: de fato, eu estava plantando “meus repolhos” ? — dentro
e fora de mim. Sim, eu estava. E plantando muitos.
Minha visão pessoal é que a morte, como fim absoluto, não
existe. Somos, talvez, uma experiência da alma no corpo — algo que atravessa
formas. O corpo morre, a personalidade se dissolve, mas há uma continuidade que
não nos pertence inteiramente enquanto estamos aqui, imersos nessa realidade
transitória. Já tive bastante experiência que me orientam nesse sentido.
Diante disso, surgiu até uma ironia: as pancadas na cabeça não
resultaram em nada extraordinário — não abriram o “terceiro olho”, não me
tornaram um gênio, nem mais bonito. Uma queda, à primeira vista, inútil. No
máximo, serviu para quebrar a balança e encerrar certa dinastia doméstica da pesagem.
Mas, para além da brincadeira, há sempre uma tentativa de
ressignificar. A situação foi séria, sim — ainda que a altura da queda não
tenha sido tão grande. Mesmo assim, algo ficou, além de mudanças de hábitos e a
desmaiar profissionalmente: talvez uma
leve rachadura nessa minha “cabeça dura”.
Em outras coisas no ordenamento da vida, vou citar algo. Eu pensava em revisar a
linguagem do meu primeiro livro, O Culto do Lobo. Sempre me considerei
desapegado — e, no fundo, não sou tanto assim. Descobri que os apegos
permanecem, ainda que mais sutis. E essa experiência também me empurrou a
atualizar o texto, torná-lo mais vivo, mais próximo do que hoje sou como
escritor.
A outra influência curiosa veio de um crítico musical que
sigo, que defendia o papel das antigas gravadoras. Ao contrário do senso comum,
ele via nelas uma curadoria essencial — um distanciamento necessário. Porque o
artista, quando muito fundido à própria obra, perde a capacidade de enxergar de
fora. Isso também me atravessou.
Sigo, então, entre ideias e projetos: uma nova pintura da
minha personagem Urtra, esboçada agora em inteligência artificial, ficando muito, mais muito bom (que me fez
arrepiar até negativamente, nunca provavelmente teria aprendido a desenhar ou as
artes plásticas se houvesse inteligência artificial antes); quadros antigos que
nunca saem do plano, como o gnomo das hortênsias, parado há mais de um ano.
Algumas pessoas me perguntaram por que não transformo certos
textos — Habitar o Tempo e Identidade — em livro. A vontade existe.
Ampliar, aprofundar, dar corpo teórico. Mas, novamente, esbarro no tempo — e
também no trabalho exigente de revisar, algo de que confesso não gostar.
No fim, tudo isso faz parte: cair, ajustar, rever,
reescrever, sobretudo, desapegar-se mais. A gente vai aprendendo.
Mas a experiência também tocou um ponto mais áspero, que se
aproxima da filosofia do absurdo de Albert Camus. Algo que já aparecia em
conversas com pacientes e outras pessoas: a sensação de que a vida se esgota
numa repetição — trabalhar, cuidar dos filhos, vê-los partir, envelhecer… e, no
fim, morrer. E tudo parece passar rápido demais. Dentro de uma lógica
estritamente racional, isso pode soar como um percurso sem sentido, com um
desfecho inevitavelmente desfavorável.
É justamente nesse terreno que Camus situa o absurdo: no
confronto entre o nosso desejo de sentido e o silêncio do mundo. Não há
explicação última para a morte súbita de alguém, nem para a sobrevivência em
situações extremas. Não há justiça intrínseca, nem uma ordem moral evidente que
organize os acontecimentos.
O absurdo, então, não está nos fatos em si, mas na nossa
tentativa de forçá-los a caber em um sentido que eles não oferecem.
Diante disso, o que mais importa para Camus é a revolta.
Revoltar-se não é negar o absurdo, mas aceitá-lo sem resignação — e, a partir
daí, viver com lucidez e intensidade. A vida pode não trazer um sentido dado,
mas isso não a esvazia: ao contrário, nos coloca diante da possibilidade — e da
responsabilidade — de criar sentido. E isso, por si só, já é algo profundamente
afirmativo.
No hospital, ao ouvir sobre a morte de André Matos, não
senti que era “a minha vez”, longe disso, nem uma revelação dramática. O que
houve foi algo mais sutil: a percepção de que não há garantia alguma — e, ainda
assim, há muito a ser vivido. Há histórias interiores que não se esgotaram, e
histórias exteriores que ainda pedem forma. Isso não resolve o absurdo; apenas
o acompanha.
Talvez seja justamente aí que Montaigne e Camus se toquem,
ainda que por caminhos distintos. Um nos convida a viver sem obsessão pela
morte; o outro, a viver apesar da ausência de sentido último. Ambos, à sua
maneira, nos devolvem ao mesmo ponto: o presente.
Lembro, então, de uma experiência antiga — talvez a primeira
vez em que essa percepção que foi fundante com alguma clareza. Eu estava na praia, na
ilha de Itaparica na Bahia, ainda estudante de odontologia, sob um céu
absurdamente azul, angustiado com questão personalitárias, vamos dizer uma
chatice virginiana sem tamanho .
E, de repente, pensei: “eu vou morrer mesmo”. Memento mori
dos estoicos, sem conhece-los ainda A ideia não é angustiar, mas reposicionar o
olhar: relativizar o que é pequeno; cortar excessos e ilusões e dar peso real
ao presente. E, junto com isso, veio uma espécie de libertação: para que tanta
rigidez, tanta preocupação com o irrelevante?
Desde então, essa ideia reaparece de tempos em tempos, como
um refrão discreto. Mas nunca de forma tão corporal quanto agora — quando o
corpo, literalmente, caiu.
Não se trata de dramatizar o ocorrido, nem de transformá-lo
em epifania grandiosa. Foi, em muitos aspectos, um episódio banal. Mas é
justamente essa banalidade que o torna significativo. A morte não precisa de
cenários épicos; ela pode estar na pia de um banheiro, numa queda mal
calculada, num instante de ausência.
E, no entanto, aqui estamos.
Se há alguma conclusão possível — e talvez não haja — ela se
aproxima mais de um gesto do que de uma ideia: continuar. Escrever. Cuidar.
Plantar os próprios repolhos. E, ao mesmo tempo, aceitar que nada disso garante
permanência alguma.
É talvez aqui que tudo se condensa com mais nitidez.
Começando por Michel de Montaigne: ele retoma, à sua
maneira, o espírito de Horácio (Memento mori), mas desloca o foco. Para ele, aprender a viver
é aprender a morrer. Não no sentido mórbido, mas no de domesticar o medo. A
morte deixa de ser um abismo distante e passa a ser uma presença integrada à
vida.
Resultado? O presente ganha densidade. Não é “curtir o dia”,
mas habitar o dia com consciência da sua fragilidade. O carpe diem, aqui, é
quase uma disciplina: viver de modo mais verdadeiro porque sabemos que não
temos garantia alguma.
Já em Albert Camus, o cenário muda — e fica mais radical.
Com o absurdo, ele diz: o mundo não oferece sentido, e nós,
ainda assim, desejamos sentido. Esse choque é incontornável. Não há consolo
metafísico.
Então o que fazer?
Camus responde com uma espécie de carpe diem trágico:
não porque o dia seja precioso em si, mas porque é tudo o
que temos diante de um universo silencioso.
A imagem mais forte disso está em O Mito de Sísifo:
Sísifo empurra a pedra sabendo que ela vai cair — e mesmo
assim continua. Não há esperança no sentido tradicional, mas há consciência e
revolta lúcida. E, paradoxalmente, uma forma de liberdade.
Se juntarmos os três:
Horácio: colhe o dia porque o futuro é incerto
Montaigne: vive bem o dia porque a morte é certa
Camus: afirma o dia mesmo que ele não tenha sentido algum
O mesmo gesto — viver o presente — ganha três profundidades
diferentes:
prudência
sabedoria
lucidez diante do vazio
Talvez o ponto mais interessante seja este:
o carpe diem começa como um convite leve, mas termina, com
Camus, como um ato de resistência.
Viver, como queria Albert Camus, com lucidez diante do
absurdo.
E viver, como queria Michel de Montaigne, ocupado demais com
a vida para se preocupar excessivamente com a morte.
Talvez seja isso que a literatura, desde sempre, tenta nos
ensinar — não a escapar da finitude, mas a habitá-la com alguma forma de
intensidade ou sentido possível. Como em A Morte de Ivan Ilitch, de Liev
Tolstói, onde só diante da morte iminente é que a vida se revela,
retroativamente, em sua verdade — não como deveria ter sido, mas como de fato
foi vivida.
Ou ainda em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, onde a
lucidez final não anula a vida vivida em delírio — talvez a justifique. Porque,
no fundo, não se trata de estar certo, mas de ter vivido de alguma maneira que
nos pertença.
E talvez também haja algo de Grande Sertão: Veredas, de João
Guimarães Rosa, nessa travessia incerta, onde o sentido nunca se entrega por
completo, mas insiste em se insinuar nos intervalos:
“Viver é muito perigoso.”
E é justamente por isso — não apesar disso — que ainda assim
seguimos.
Carlos Costa França




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