Sem café, reencarnação e uma filosofia distópica dos problemas.

 


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Estava eu no trabalho, indo imprimir algo, quando lá estava alguém em pé ao lado da impressora. Parecia uma entidade, empertigada e sábia. Vamos nomeá-la, então, de Entidade da Impressora (E.I.).

A E.I. me disse: “Nós... (seres humanos) só complicamos as coisas”. Ao que respondi de imediato: “Somos especialistas nisso!”. Sem consegui imprimir nada,  saí.

Pouco tempo depois, retornei para uma nova tentativa, e a entidade ainda estava lá. Dessa vez, anunciou: “Vou atrás dos problemas dos outros, porque os meus... bem, estão difíceis!”. Outra pessoa então se manifestou, um tanto horrorizada: “Ir ainda atrás dos problemas dos outros? A E.I. respondeu: “Sim, os problemas dos outros são dos outros... não são os meus. Distrai  ("anestesia") os meus.”. Foi mais ou menos assim. Comentei com a E.I. que iria escrever sobre o tema. Ainda naquele dia, me perguntaram sobre o café de preço módico e onde ficava. Fica na Doce Mio. Justamente no dia que não havia café. A máquina havia quebrado. Lá, melhor do que os bots das redes, quando chego já sabem: sem açúcar, expresso, com crema, longo e na taça (ninguém merece no copinho de plástico, ou pior, no de isopor). Também aconteceu de me  perguntarem minha opinião sobre reencarnação. Assim nessa experiência textual abrangerei isso também. Embora não seja espírita, costumo entregar essa responsabilidade a Kardec, que teve uma jornada heroica nesse campo. De toda sorte, darei um certo testemunho:

Eu não “acredito”. Eu sei sobre a reencarnação (Na verdade, é um renascimento). Sei porque guardo memórias — ou melhor, sentimentos — de algumas das minhas vidas, sobretudo por meio de sincronicidades. Chego a ter “sentires” de outras pessoas também. Tenho a forte convicção de que o amor é uma experiência de muitas vidas.

Quando o amor é muito forte, ele transcende.

 Por exemplo, tenho a certeza de que meus dois filhos já foram meus filhos em vidas passadas. O mais velho, muito racional, não acredita nesse tipo de coisa, e nunca lhe revelei nada. Já o mais novo nunca havia sentido nada a respeito de uma vida anterior, até o mês passado. Como ele é mais aberto, comentei com ele de imediato.

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Renascimento (reencarnação)

Mas, ironicamente, saber, isso não significa muita coisa. O fato de saber não explica por que sei. Sou racional demais, quase da “linhagem de São Tomé”, que pela tradição era virginiano: aquele sujeito que testa, questiona, examina, verifica — e, por isso mesmo, acreditei que qualquer um poderia saber, bastando querer. Hoje eu sei,  que nem todos acessam uma vida anterior ainda que desejem.

Santo Agostinho, ao meditar sobre a natureza do tempo nas Confissões, percebe que nossa existência se desenrola em uma tensão paradoxal: somos feitos de passado, futuro e presente — mas apenas um desses tempos realmente existe.

O passado, diz ele, já não é: permanece apenas na memória, como sombra viva que carregamos, reinterpretada a cada lembrança. O futuro tampouco existe: é pura expectativa, promessa ou ameaça projetada pela imaginação. Ambos dependem de nós para existir — o passado, porque o guardamos; o futuro, porque o antecipamos.

O presente, no entanto, é o único real. E ainda assim, é fugidio: não se deixa capturar, não permanece. Agostinho fala do “presente das coisas passadas” (a memória), do “presente das coisas futuras” (a expectativa) e do “presente das coisas presentes” (a atenção). É nessa atenção — esse instante que quase não dura — que a vida verdadeiramente acontece.

Assim, quando dizemos que “a vida é o presente”, não repetimos um clichê, mas reconhecemos essa estrutura ontológica: existimos apenas nesse ponto móvel entre o que já não é e o que ainda não é. O presente é o limite da nossa liberdade, o espaço onde tocamos o real, onde podemos agir, amar, transformar.

Todo o resto — passado e futuro — vive em nós, não fora de nós. É no presente que nos tornamos.

Tudo acontece agora. E por isso as vidas passadas perderam a centralidade. Quando jovem eu era tomado por curiosidade; hoje, menos. Sei que há pessoas que provavelmente nunca saberão — e talvez não devam mesmo saber. É por isso que nunca revelo nada a ninguém, claro, quando sei algo ( a não ser que se abram aquilo ou já descobriram algo por si mesmas). No máximo insinuo, por hábito ou certo desafio.

Ainda não descobri por que sei — e talvez justamente por isso eu deva escrever sobre o assunto. Há mistérios que exigem páginas. E há ainda determinados pontos astrológicos que comecei a compreender há pouco tempo; talvez eles expliquem alguma coisa… ou compliquem mais. Realmente não sei ainda. 

Sei que é um  renascimento — porque é isso que é. Não é “ter um novo corpo”. Isso é quase nada, ou muito pouco. Ter um corpo diferente é apenas trocar de instrumento.

A melhor analogia que consigo fazer é esta:

é como ser o mesmo sistema operacional, continuamente atualizado, rodando em aparelhos diferentes. Hoje num laptop, amanhã em um celular, depois em um tablet. O hardware muda; o núcleo sutil , o soft permanece.

 

E seguimos.

Com ou sem café.

Entre sentidos, entendimentos  e renascimentos.

Tentando não complicar tanto ...

 Mas direi: 


Há pessoas que vivem presas àquilo que chamamos de “sanidade social”: um conjunto de expectativas, medos herdados e estruturas de materialidade que parecem garantir estabilidade, mas que, na verdade, funcionam como grades delicadas — invisíveis, porém firmes. A vida lhes oferece pequenas frestas, portas entreabertas que surgem por meio de um acontecimento, de um chamado interno ou até de alguém que cruza seu caminho. Mas, diante do desconhecido, hesitam. Têm medo — não do mundo, mas de si mesmas.

É uma espécie de covardia existencial: a pessoa que deveria ousar caminhar rumo ao próprio segredo, à verdade mais íntima de sua alma, recua. Evita-se. Sabota-se. Às vezes até projeta no outro a possibilidade desse encontro, como se o outro fosse o atalho para o labirinto que ela mesma teme percorrer. Mas, ao menor sinal de profundidade, foge. Preferindo a neutralidade das rotinas à vertigem de descobrir quem realmente é.

E, no entanto, é sempre assim que o mistério se apresenta: discretamente. Nunca com holofotes, mas com uma porta apenas entreaberta. O chamado do coração raramente é um grito; é um sussurro. Mas requer coragem — coragem para atravessar o próprio medo, coragem para romper com a sanidade confortável, coragem para deixar que o desconhecido desmonte as versões velhas de si.

Porque, no fim, o maior risco não é dar o passo. O maior risco é permanecer imóvel. É desperdiçar a chance de se encontrar. É seguir a vida inteira caminhando ao lado da própria alma… sem nunca tocá-la.

1. “Nós, seres humanos, só complicamos as coisas.”

 

Freud já dizia que não somos governados pela razão, mas por forças internas que se chocam — desejos, medos, culpas, repetições. Com tanta coisa puxando em direções diferentes, complicar vira quase inevitável.

 

Lacan acrescentaria que complicamos porque estamos presos à linguagem: falamos, interpretamos, fantasiamos… e, nesse processo, criamos camadas e mais camadas sobre algo que poderia ser simples, mas nunca é. O sujeito sempre quer algo, mas nunca sabe exatamente o quê — e essa falta estrutural produz um emaranhado de sentidos, expectativas e mal-entendidos.

Numa visão distópica, essa complicação natural do humano se intensifica: cada problema ganha sombras, ecos, dobradiças.

Aquilo que poderia ser uma porta vira um labirinto. 


Assim, a frase, dita de forma tão casual, na realidade descreve uma espécie de maldição quase antropológica: complicamos porque somos humanos, e somos humanos porque complicamos.

É quase nosso modo de existir no mundo, tanto no cotidiano quanto nas regiões mais profundas da psique.

 

2. “Vou atrás dos problemas dos outros, porque os meus… bem, estão difíceis.”

 

Aqui entramos no coração da filosofia distópica (Gente, a Filosofia Distópica não existe, tá, foi uma invenção minha aqui): o sujeito foge do que lhe pertence, como se no seu próprio mundo houvesse uma zona radioativa chamada “Os Meus Problemas”.

Na distopia interior, os nossos problemas têm tamanho desproporcional — são sempre grandes demais, densos demais, perigosos demais.

Freud já chamaria isso de evitação: o sujeito contorna o que é seu porque sabe que ali há conflito.

Lacan fala disso como a tentativa de evitar o encontro com o Real — aquele núcleo duro, inassimilável, que não se simboliza.

 

Então, numa sociedade distópica emocional, todo mundo vive desviando do próprio Real… e entrando no território alheio, porque lá dói menos.

 

3. “Os problemas dos outros são dos outros… não são os meus. Distrai. "Anestesia.”

 

Essa é a frase mais distópica de todas.

 

Na “filosofia distópica dos problemas”, o sofrimento do outro vira uma espécie de entretenimento existencial — não por maldade, mas por estratégia de sobrevivência.

 

É como se o sujeito dissesse:

“Meu mundo interno está perigoso demais. Então vou caminhar no mundo interno de alguém, onde eu não corro o risco de me perder.” Mas é claro, isso também cansa.

 

Freud explicaria isso como um mecanismo de defesa: deslocar o foco para aliviar a angústia.

Lacan, por sua vez, lembraria que o sujeito prefere circular no desejo do Outro — porque ali existe um mapa, um roteiro, algo imaginável.

 

Já os próprios problemas do sujeito são como um território nebuloso — uma distopia interna com neblina espessa, onde nada é nítido.

 

Assim, os problemas alheios funcionam como um reality show emocional: envolvem, ocupam, distraem — e o sujeito evita lidar com aquilo que realmente o funda.

 

Costumo dizer que a gente necessita ter certo carinho e zelo (heroico por vezes;)  pelos nossos problemas, pois eles são nossos. Sem mencionar que eles podem complicar severamente, "pois por si só tem um grau de malignidade" (e só nós sabemos pelo que passamos). De toda sorte, eles nos moldam, nos organizam, nos convocam a algum tipo de verdade — ainda que enviesada, ainda que desconfortável. 

Freud lembraria que é justamente nesse território difícil que algo pede elaboração; Lacan diria que é ali que o sujeito encontra sua própria falta estruturante.

Mas não é fácil.

E talvez nunca seja.

 

Porque cuidar dos próprios problemas é entrar numa pequena distopia doméstica: enfrentar sombras, atalhos, repetições, fantasmas simbólicos e afetivos. É mais simples — muito mais simples — olhar para o drama alheio, ou se distrair com narrativas que não nos atravessam tão fundo.

 

Ainda assim, o trabalho é nosso.

E o afeto também.

 

Também há outro aspecto,  quando nos aproximamos dos problemas dos outros, é preciso cuidado redobrado. Ajudar, sim — mas com compaixão e neutralidade (isso é bem psicológico). Porque existe um risco silencioso: o de transformar o problema alheio em mais um dos nossos, ou pior, querer que o outro resolva à nossa maneira, com as nossas lógicas, as nossas saídas, os nossos mapas. Isso não é ajudar; é substituir o percurso do outro pelo nosso.

O mais acertado — é auxiliar o outro a descobrir o caminho dele, a solução que faz sentido no mundo interno dele, não no nosso. É oferecer presença, escuta e alguma luz, mas não tomar o volante.

 

Porque, no fundo, quando pegamos os problemas dos outros para nós, acontece um fenômeno enviesado demais: carregamos aquilo que não nos cabe, não resolvemos o que é nosso e, depois de um tempo, cansamos duplamente — dos problemas dos outros e do fato de eles terem virado nossos sem nunca terem sido de verdade. Aí queremos nos livrar logo, empurrar a solução, encerrar a história — mas isso não cura ninguém, nem a nós.


No final das contas, a “filosofia distópica” dos problemas nos lembra que cada um carrega seu próprio núcleo de sombras e claridades.

Podemos caminhar ao lado — nunca dentro.

Podemos apoiar — nunca substituir.

E, sobretudo, podemos aprender a ter responsabilidade e consciência com o que é nosso e humildade com o que é do outro.

 

Porque é no trato cuidadoso das próprias dores — e no respeito pelas limitações e ações que faz parte do mundo, que é nosso também existencial ou social — que o humano deixa de complicar tanto… e começa, lentamente, a existir com um pouco mais de verdade.


Carlos Costa França

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