"A vida é bela e perigosa" — OS RUMOS DA VIDA RARA
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Como psicólogo, em uma das sessões da clínica psicológica em Gramado — cidade de beleza inconfundível e vivificante mesmo no inverno — ouvi uma frase que ecoou dentro de mim como um verso esquecido, talvez escrito por uma esfinge que tivesse nascido entre neblinas, pinheiros e araucárias:
“A vida é bela e perigosa.”
Era um fragmento cru. Simples. Enigmático. Como um haicai
lançado ao vazio. O haikai é uma forma
de poesia japonesa que valoriza a economia de palavras e a emoção contida,
convidando o leitor a refletir sobre o instante retratado.
Na verdade, quase se deu... seu desaparecimento, como um códice do desterro!
O frio tentou reinar, mas não teve forças para suplantar aquele pensamento, que voltava fazia ninho, levantava vou, sumia de novo, até colocar o ovo de um cuco (que é chocado por outro pássaro).
Mas qual era, afinal, o ovo do cuco? Qual a ideia que estava sendo chocada ali, sem que eu percebesse?
Talvez porque, no fundo, eu também goste do inverno. Porque
sei que, sob o inverno, há vida. Que, nas noites mais longas, algo se transforma.
Que o frio não mata — apenas revela. além disso, ele combina com jornadas profundas.
Mas existiu o ovo do
cuco (mais de um), e qual foi ele?
Vou citar um poeta, que não conhecia, vi algo que me chamou
a atenção ( e gente, sejamos sinceros, chamar a atenção, por vezes é tudo no
momento, na vida).
Necessito falar um pouco sobre esse “Frankestein da poesia.”
Rainer Maria Rilke,
foi um poeta e escritor austro-alemão, considerado um dos mais
importantes poetas de língua alemã do século XX. Sua obra é conhecida por sua
profundidade filosófica, sensibilidade lírica e exploração de temas como a
solidão, a morte, o amor, a espiritualidade e a relação do ser humano com a
arte e a transcendência.
Mas qual foi o trecho que fui fisgado, que me fez retornar a
essa expressão nascida na clínica
psicológica: “A vida é bela e perigosa”?
Vejamos:
"Cartas a um jovem poeta":
“As tristezas, como as doenças, são momentos em que um novo
eu está se formando dentro de nós. É por isso que ficamos tão solitários:
porque é difícil suportar uma mudança interior. Ser do inverno é saber que há
vida até no frio. Tudo o que nos parece difícil, devemos amar.”
Corrigindo um tanto o poeta, em nome da saúde emocional:
'Tudo o que nos parece difícil, devemos amar' — bem, eu diria que só devemos
amar aquilo que verdadeiramente tem o poder de nos transformar para melhor.
Fora disso, o melhor é deixar para trás.
O caso clínico em questão estava relacionado a relacionamento, isolamento e autodescoberta.
"Quase toda nossa tristeza brota de nossas relações com
outras pessoas." Dizia, Schopenhauer que tinha um estilo direto e
cortante, misturando filosofia com observações cáusticas sobre a natureza
humana. Um pessimista.
Ou Sartre, “O inferno são os outros.”
Mas será?
Ao mesmo tempo, como
bem lembrou outro poeta — sim, só poderia ser Fernando Pessoa —, 'Enquanto não
atravessarmos a dor da própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras
metades. Para viver a dois, antes é necessário ser um.'"
Mas entremos no processo da vida rara.
Muitos mitos e narrativas épicas descrevem uma catábase — a
descida ao submundo — seguida de uma anábase, o retorno transformador. No
processo psicoterapêutico, não é diferente. Cada paciente que mergulha em si
mesmo inicia essa travessia arquetípica.
Ele chegou calado, quebrado. Trazia nos olhos o vazio de
quem não via mais o chão sob os pés. Silêncio. Até que um dia, depois de
algumas consultas, num instante de
clareza incandescente, olhou para cima, encarou-me e disse com firmeza:
“A vida é bela e perigosa.”
Não era apenas uma frase. Era um testemunho. E havia uma
contundência superior de quem o disse.
Carregava o peso de quem percorreu um inferno pessoal e
voltou com os olhos lavados pelo fogo do sofrimento e da solidão.
Era diamante. Era verdade. E era impossível de traduzir em
qualquer imagem ou explicação simples.
Se fosse um haikai, talvez essa imagem do diamante pudesse
sair assim:
Pressão subterrânea—
até o carvão virar
estrela fria.
O paciente lembra os heróis mitológicos que voltam do Hades
com um novo olhar — não inocente, mas ardente.
Catábase: a descida desfigurante
Seu inferno não era simbólico. Era visceral.
Uma queda em espiral, onde cada degrau representava uma
perda: identidade, certezas, vínculos, sociedade. Como Eneias diante dos
portões do Hades ou Orfeu buscando Eurídice nas sombras, ele enfrentou o
despedaçamento de si mesmo.
Foi uma descida desesperadora — desesperadora, no sentido
literal: tirou-lhe o sono e as ilusões. Tirou-lhe o chão, as certezas, até
mesmo as fraquezas!
Desestruturante, porque dissolveu todas as armaduras que o
mantinham de pé.
Desfigurante, pois o obrigou a encarar o rosto que evitava.
Atormentadora, porque nenhum sofrimento é estéreo — ele
cava, fere e exige resgate.
Ele chegou à clínica como quem tropeça no próprio deserto:
olhos opacos, alma suspensa num labirinto sem saída, onde cada tentativa de
fuga era mais uma armadilha.
Naquele estágio, a vida não era "bela e perigosa".
Era apenas pálida, cinzenta, desolada e estéril.
Isso me remeteu ao mito das duas deusas – Deméter e
Perséfone (Core) – que conheço em profundidade. Pesquisei e resumi a narrativa,
mas meu foco não será na catábase de Perséfone (a descida física ao submundo),
e sim na catábase interna de Deméter: seu mergulho no desespero e na escuridão
após perder a filha.
Significado:
O mito explica o ciclo das estações, a morte e o
renascimento da natureza, e também reflete temas como amor materno, perda e
renovação. Ele explora temas de amor, separação, luto e renovação.
Resumo breve do mito:
O rapto: Perséfone é levada por Hades ao mundo inferior.
A busca de Deméter: A
deusa da terra, em luto, desaba. Sua dor é tão profunda que o mundo definha –
estações congelam, colheitas morrem.
O paradoxo: Enquanto Perséfone vive uma provação externa (no
reino dos mortos), Deméter enfrenta uma queda interna: seu próprio abismo de
desamparo.
O retorno: Zeus
negocia a libertação de Perséfone, mas ela já está marcada pelo submundo (como
todo quem o visita). Deméter, porém, também passa por uma transformação: aceita
que a filha não será a mesma, e que a vida agora inclui a sombra.
Por que focar em Deméter?
Porque ela simboliza a dor que paralisa e, depois,
ressignifica. Seu luto não é passivo – é um fogo que queima a ilusão de
controle. Na terapia, muitos pacientes vivem essa descida sem movimento físico,
apenas no palco da psique: um deserto onde até os deuses se perdem.
Deméter, deusa da terra e da fertilidade, entra em luto.
Por nove dias e nove noites , ela não come, não bebe, não se
banha.
Erra pelo mundo como uma mulher comum, devastada, abandonada
pelos deuses.
Soa familiar?
É depressão. É desespero. É o colapso do sentido.
Ela se refugia no reino de Celeo, disfarçada de uma velha, e
passa a cuidar de Demofonte, filho do rei.
Em seu sofrimento, ensina aos homens a arte de semear,
colher e fabricar o pão. No santuário de Elêusis, é proclamada:
— O Karpón Pherésbion , o "Grão da Vida", que
precisa morrer na terra para renascer.
Mas há um momento crucial no mito — um detalhe que muitos
ignoram.
Deméter, em seu amor infinito, decide tornar Demofonte
imortal.
À noite, colocava o menino no fogo, para queimar sua
mortalidade.
Mas a mãe humana, assustada, interrompe o ritual.
Então, Deméter revela sua forma divina e diz, com dor e
cólera:
"Homens ignorantes, insensatos, que não sabeis
discernir o que há de bom ou de mau em vosso destino! Juro pela água implacável
do Estige: eu teria feito dele um ser eternamente jovem, isento da morte.
Agora, ele não escapará do destino comum."
É um momento sublime. E claro o mito tem muitos significados.
Porque, pela primeira vez, uma deusa tenta transcender o
humano, frágil, barro em algo melhor —
não por orgulho, mas por amor.
E é impedida… pela humanidade mesma.
Quantas vezes fazemos o mesmo?
Quantas vezes, no nosso sofrimento, tentamos salvar alguém —
ou a nós mesmos — com gestos heróicos, divinos, e somos travados pelo medo,
pela incompreensão, pelas crenças limitantes
A vida rara: entre o belo e o perigoso
Voltamos à frase:
“A vida é bela e perigosa.”
Bonita, porque mesmo no fundo do poço, há algo para
aprender.
Porque o grão morre na terra para germinar.
Porque o inverno, por mais cruel, anuncia a primavera.
Porque o sofrimento, quando atravessado, pode gerar
sabedoria, compaixão, presença.
Perigosa, porque exige coragem.
Porque não promete salvação e exige provação.
Porque pede que desçamos, que enfrentemos as sombras, que
duvidemos de tudo — inclusive de nós mesmos.
Porque a verdade é libertadora, aquela dentro da gente!
Viver uma vida rara não é viver sem dor.
É viver com a dor, sem fugir dela.
É descer ao submundo e voltar com olhos novos.
É aprender que a beleza não está na ausência do perigo, mas
na coragem de caminhar com ele.
Como Deméter, que ensinou a humanidade como chegar ao pão.
Como Rilke, que cantou o inverno.
Como aquele paciente na clínica, que, depois de tudo, olhou para
mim e disse:
“A vida é bela e
perigosa.”
E, naquele instante, soube-se:
aquilo era graça e verdade!
Anábase: A Ascensão com a Linguagem do Abismo
A descida, para ser plena, exige um retorno. Até porque
descer sem subir é morte. E, em algum momento, ele começou a ascender—não ao
mesmo lugar, mas a um novo patamar de si mesmo, carregando na pele as
cicatrizes da escuridão.
Pois a catábase só se torna alquimia quando há anábase.
A subida é tortuosa, lenta e íntima. Não há mapas, nem
garantias—apenas ganhos invisíveis.
A frase “a vida é bela e perigosa” não pertence a quem
apenas sobreviveu—
pertence a quem arrancou sentido do caos.
A beleza, agora, já não é leveza: é densidade.
É o brilho de quem conhece o preço da luz.
E o perigo persiste—porque a vida nunca deixa de ser
travessia—
mas agora ele o enfrenta sem a arrogância de quem venceu, e
sim com a humildade de quem foi consumido pelas chamas e renasceu.
Naquele instante, pensei que a obra estava completa—como
dizem os alquimistas.
Seu olhar não trazia triunfo, mas reconhecimento.
Como se dissesse, em silêncio:
"Eu te devorei, vida. E você me devorou. Agora
seguimos, lado a lado."
Foi então que me veio à mente Assim Falou Zaratustra, de
Nietzsche, onde o profeta passa dez anos isolado nas montanhas e proclama:
"Torna-te quem tu és."
O Mito na Clínica
No fundo, a psicoterapia é isso: um ritual de descida e
retorno.
Um confronto com os próprios abismos—às vezes por salto
deliberado, outras arrastado pelo destino.
Mas, se a jornada não for interrompida, algo retorna.
Não a cura—mas a transmutação.
Nem todos alcançam. Há recuos, hesitações, pausas.
Porém, quando acontece, é como escutar uma voz ancestral:
É o que dizem os heróis ao emergirem do labirinto.
É o que cantam os xamãs ao retornarem do mundo dos mortos.
É o que sussurram os poetas quando voltam do desespero com
versos na mão.
Talvez esta seja uma das verdades terapêuticas que resiste
ao tempo:
"Você não sai curado exatamente. Você sai transformado, porque
aquela ferida já não é a mesmab—você não é mais o mesmo.
E a vida, agora, é bela não por ser segura, mas por ser
travessia.
E transformadora."
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